Romance
Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.
Contextualização histórica
O romance é a forma narrativa longa em prosa que, a partir do século XVIII, tornou-se o gênero dominante da literatura ocidental e, depois, de boa parte do mundo. Define-se menos por regras fixas do que pela combinação de extensão, prosa, ficção e atenção a personagens situados em um tempo e em um espaço reconhecíveis. Trata-se de um gênero de contornos elásticos, capaz de absorver cartas, diários, reportagens, monólogos e ensaios, o que explica a dificuldade de qualquer definição única.
A palavra vem das línguas românicas. Na Idade Média, “romanz” designava o texto escrito na língua vulgar derivada do latim, e não em latim, e o termo passou depois a nomear as narrativas de cavalaria compostas nesses idiomas. Só aos poucos a palavra ficou associada à ficção em prosa. Nesse percurso pesaram a expansão da imprensa, a alfabetização crescente, a leitura silenciosa e individual e a formação de um público leitor burguês, que buscava histórias sobre a vida comum e não apenas sobre heróis e deuses.
Conceitos essenciais
Verossimilhança
Qualidade do que parece possível dentro das regras do mundo ficcional, mesmo sem ter acontecido de fato; é critério central do romance realista.
Foco narrativo
Ponto de vista adotado pelo narrador, em primeira ou terceira pessoa, que organiza o que o leitor sabe sobre personagens e eventos.
Polifonia
Termo associado a Mikhail Bakhtin para o romance em que várias vozes e visões de mundo coexistem sem que uma se imponha como a do autor.
Romance de formação
Narrativa que acompanha o amadurecimento de um protagonista, geralmente da juventude à idade adulta; corresponde ao alemão Bildungsroman.
Origem
Narrativas longas em prosa existiam antes do romance moderno. Na Antiguidade, o chamado romance grego, do qual Quéreas e Calírroe, de Cáriton, é exemplo frequentemente citado, contava amores contrariados e viagens. Do mundo latino chegaram o Satyricon, de Petrônio, e as Metamorfoses, ou O Asno de Ouro, de Apuleio. No Japão, o Genji Monogatari, atribuído a Murasaki Shikibu e composto por volta do ano 1000, é com frequência apontado como uma das primeiras grandes narrativas longas de ficção psicológica.
Na Europa, a ponte para a forma moderna passa pelos romances de cavalaria medievais e pela sua paródia: o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, publicado em duas partes, em 1605 e 1615, é tradicionalmente lido como obra fundadora, por confrontar a imaginação literária com a realidade cotidiana. No século XVIII, na Inglaterra, Daniel Defoe (Robinson Crusoé, 1719), Samuel Richardson (Pamela, 1740) e Henry Fielding (Tom Jones, 1749) consolidaram o gênero, tema estudado por Ian Watt em A Ascensão do Romance, de 1957.
Características
O romance trabalha com o desenvolvimento gradual de personagens, o que exige espaço: a extensão permite acompanhar mudanças de caráter, relações sociais e consequências de escolhas. A narrativa costuma articular várias tramas, planos de tempo e cenários, e recorre a um narrador cuja posição define o efeito da leitura. O discurso indireto livre, em que a voz do narrador e a da personagem se misturam, foi desenvolvido de modo notável no século XIX e tornou-se um dos recursos mais característicos da prosa romanesca.
Outra marca do gênero é a relação com a sociedade contemporânea. Dos romances de Honoré de Balzac, reunidos sob o título A Comédia Humana, aos de Charles Dickens e Leon Tolstói, a ficção em prosa passou a retratar classes, profissões, dinheiro e instituições. Georg Lukács, em A Teoria do Romance, escrito em 1916, descreveu-o como a forma de um mundo em que o sentido já não está dado, e Bakhtin destacou sua abertura permanente a outros gêneros e linguagens.
Evolução
No século XIX, o romance foi favorecido pela publicação em folhetim nos jornais, que formava leitores em série e influenciava o ritmo da escrita. Gustave Flaubert, com Madame Bovary (1857), elevou o rigor formal do gênero; Fiódor Dostoiévski explorou a consciência e o conflito moral. No século XX, autores como Marcel Proust, James Joyce, Virginia Woolf e Franz Kafka ampliaram os experimentos com tempo, fluxo de consciência e fragmentação, enquanto o romance popular alcançava tiragens massivas em edições de bolso.
No Brasil, a forma se firmou no Romantismo, com A Moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo, e O Guarani (1857), de José de Alencar. Machado de Assis, com Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), inaugurou, segundo ampla leitura crítica, uma fase de maior ironia e inovação formal. A crítica reconhece ainda a importância do regionalismo e do romance de 1930, e, na segunda metade do século XX, de nomes como Guimarães Rosa, autor de Grande Sertão: Veredas (1956).
Subgêneros
A classificação do romance é feita por tema, época ou técnica, e as categorias se sobrepõem. O romance histórico, popularizado por Walter Scott a partir de Waverley (1814), situa personagens em períodos passados. O romance epistolar organiza-se em cartas, como em Pamela. O romance de formação acompanha o amadurecimento do protagonista, e o romance psicológico privilegia a vida interior. Há também o romance de aventuras, o romance social, o romance regionalista, o romance-folhetim e o romance de tese, voltado à defesa de uma ideia.
Gêneros que hoje têm identidade própria, como o romance policial, a ficção científica e a literatura fantástica, nasceram em grande parte como ramos do romance e do conto. A fronteira com o romance autobiográfico e com a chamada autoficção, termo cunhado por Serge Doubrovsky em 1977, mostra como a distinção entre ficção e relato pessoal continua em disputa.
Diferenças em relação a gêneros próximos
Em comparação com a epopeia, o romance é escrito em prosa, trata de indivíduos comuns e não de heróis coletivos e divinos, e supõe leitura individual em vez de recitação pública. Em comparação com o conto, tem maior extensão, mais personagens e tramas, e menor concentração em um único efeito. A novela fica entre ambos: é mais longa que o conto e mais enxuta que o romance, com enredo mais linear.
Essas fronteiras são convencionais. Tradicionalmente, editoras e prêmios usam a contagem de palavras ou de páginas como referência prática, mas não há consenso universal, e a crítica prefere distinguir os gêneros por estrutura e efeito, não apenas pelo tamanho.
Romance × Conto × Epopeia
| Critério | Romance | Conto | Epopeia |
|---|---|---|---|
| Forma | Prosa | Prosa | Verso |
| Extensão | Longa, com tramas múltiplas | Curta, em geral com uma única ação | Longa, dividida em cantos ou livros |
| Foco | Indivíduos em sociedade | Um episódio ou conflito central | Herói e destino de uma coletividade |
| Transmissão original | Leitura individual, em livro impresso | Oral e, depois, escrita e impressa | Recitação oral, depois escrita |
| Época de consolidação | Séculos XVII a XIX | Século XIX, na forma moderna | Antiguidade e Idade Média |
Cronologia
- c. séc. I d.C.Circulam romances gregos de amor e aventura, como Quéreas e Calírroe, de Cáriton.
- c. 1000Murasaki Shikibu compõe o Genji Monogatari, no Japão.
- 1605Publicada a primeira parte do Dom Quixote, de Cervantes.
- 1740Samuel Richardson publica Pamela, romance epistolar de grande sucesso.
- 1857Flaubert publica Madame Bovary; no Brasil, José de Alencar lança O Guarani.
- 1922Publicação de Ulisses, de James Joyce, marco do romance modernista.
Curiosidades verificáveis
- O Dom Quixote teve a primeira parte publicada em 1605 e a segunda em 1615; nesta, o protagonista encontra personagens que já leram a primeira.
- Muitos romances do século XIX apareceram primeiro em capítulos nos jornais, como os de Alencar e Machado de Assis no Brasil, e só depois em livro.
- O Genji Monogatari, composto por volta do ano 1000 no Japão, é frequentemente citado como um dos primeiros romances da história.
- Ulisses, de James Joyce, foi publicado em Paris em 1922, em edição da livraria Shakespeare and Company, após proibições em países de língua inglesa.
Termos relacionados
- Novela
- Narrativa em prosa de extensão intermediária entre o conto e o romance.
- Folhetim
- Romance publicado em capítulos periódicos nos jornais, prática difundida no século XIX.
- Discurso indireto livre
- Recurso em que a fala ou o pensamento da personagem aparece integrado à voz do narrador.
- Fluxo de consciência
- Técnica que procura reproduzir o encadeamento dos pensamentos de uma personagem.
- Autoficção
- Narrativa que mistura elementos autobiográficos e ficcionais, com o autor como personagem.
- Enredo
- Sequência organizada dos acontecimentos da narrativa.
Leituras internas
Gêneros literários
Conto
Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.
GêneroVários períodos
Gêneros literários
Epopeia
Longo poema narrativo em verso que celebra feitos heroicos e a identidade de um povo, da Ilíada e da Odisseia a Os Lusíadas e à épica moderna.
GêneroAntiguidade
Gêneros literários
Crônica
Gênero breve ligado à imprensa que comenta o cotidiano com subjetividade e estilo, consolidado no Brasil por Alencar, Machado de Assis e Rubem Braga.
GêneroSéculo XIX
Gêneros literários
Romance policial
Narrativa organizada em torno de um crime e de sua investigação, que nasceu no século XIX com Poe e se desdobrou em enigma, hard-boiled e thriller.
GêneroSéculo XIX
Movimentos e períodos literários
Realismo e Naturalismo
Correntes da segunda metade do século XIX que trocaram o ideal romântico pela observação da sociedade, com Flaubert, Zola, Eça de Queirós e Machado de Assis.
MovimentoSéculo XIX
Movimentos e períodos literários
Romantismo
Movimento do fim do século XVIII e do XIX que valorizou emoção, individualidade, natureza e identidade nacional, de Goethe e Byron a Alencar e Castro Alves.
MovimentoSéculo XIX
Referências
- Ian Watt. A Ascensão do Romance (The Rise of the Novel), 1957.
- Georg Lukács. A Teoria do Romance, escrito em 1916.
- Mikhail Bakhtin. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance.
- Franco Moretti (org.). The Novel. Princeton University Press, 2006.
- Encyclopaedia Britannica. Verbete “Novel”.
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