Movimentos e períodos literários
Realismo e Naturalismo
Correntes da segunda metade do século XIX que trocaram o ideal romântico pela observação da sociedade, com Flaubert, Zola, Eça de Queirós e Machado de Assis.
Contextualização histórica
O Realismo e o Naturalismo emergiram na segunda metade do século XIX, num ambiente de urbanização, industrialização e prestígio das ciências. O positivismo de Auguste Comte, a teoria da evolução de Charles Darwin, publicada em 1859, e a filosofia de Hippolyte Taine ofereciam um quadro intelectual que valorizava a observação, a causalidade e a análise de fatos. A literatura, nesse clima, procurou descrever a sociedade contemporânea com precisão e atenção a detalhes, afastando-se do idealismo e da evasão românticos.
Os dois rótulos aparecem muitas vezes juntos, mas designam tendências distintas. O Realismo propõe uma representação objetiva e crítica da vida social, sobretudo da burguesia e de seus costumes. O Naturalismo, tido como desdobramento mais radical, pretende aplicar à ficção métodos das ciências naturais, vendo os personagens como produtos do meio, da hereditariedade e do momento histórico.
Conceitos essenciais
Objetividade
Ideal de narrar sem intromissão sentimental do autor, preferindo descrição e fatos observáveis.
Determinismo
Ideia de que o comportamento humano resulta de fatores como meio social, herança biológica e circunstâncias.
Romance experimental
Proposta de Émile Zola de tratar a narrativa como experimento sobre o efeito do meio nos indivíduos.
Crítica de costumes
Exame satírico ou analítico de instituições como casamento, Igreja, política e dinheiro.
Realismo na França e na Europa
Na França, Honoré de Balzac e Stendhal são vistos como precursores. Balzac reuniu sua ficção sob o título geral A Comédia Humana, retrato amplo da sociedade francesa. A obra considerada marco do Realismo é Madame Bovary, de Gustave Flaubert, publicada em folhetim em 1856 e em livro em 1857, cujo autor foi processado por ofensa à moral pública e acabou absolvido, episódio que contribuiu para a fama do romance.
Fora da França, a ficção realista teve expressão em Charles Dickens e George Eliot, na Inglaterra, e em Liev Tolstói e Fiódor Dostoiévski, na Rússia, cujas obras alcançam, porém, dimensões psicológicas e filosóficas que ultrapassam o rótulo. Na pintura, Gustave Courbet ficou associado ao realismo visual e proclamou seu programa numa exposição própria, em 1855.
Entre os recursos formais do Realismo, destacam-se a descrição minuciosa de ambientes, a construção de personagens verossímeis e o emprego do discurso indireto livre, que mistura a voz do narrador com a do personagem. Flaubert, em particular, tornou-se famoso por sua busca da palavra exata e por um ideal de narrador discreto, que não comenta abertamente os fatos.
O Naturalismo de Zola
Émile Zola é a figura central do Naturalismo. Em Thérèse Raquin, de 1867, já aplicava a ideia de estudar temperamentos como fenômenos fisiológicos. Em O romance experimental, de 1880, fixou o programa teórico do grupo. Seu grande projeto foi o ciclo Les Rougon-Macquart, publicado entre 1871 e 1893 em vinte romances, que acompanha uma família ao longo do Segundo Império. Germinal, de 1885, trata de uma greve de mineiros.
Os naturalistas se concentraram em ambientes populares, no trabalho, na doença e nos vícios, tratando de temas considerados escandalosos por parte da crítica. Seus detratores acusaram-nos de mórbidos e deterministas, enquanto seus defensores viam neles uma forma de denúncia social.
Portugal
Em Portugal, o ambiente intelectual preparou-se com a Questão Coimbrã, em 1865, e com as Conferências do Casino, em 1871, nas quais jovens escritores debateram a renovação da cultura. Eça de Queirós tornou-se o grande nome do Realismo português, com O Crime do Padre Amaro, cuja primeira versão é de 1875 e foi reescrita em edições posteriores, e O Primo Basílio, de 1878, ambos de crítica à hipocrisia social e clerical.
Eça de Queirós produziu ainda A Relíquia, de 1887, e Os Maias, de 1888, retrato da sociedade lisboeta do século XIX. A obra dele alcançou ampla circulação no Brasil, onde foi lida com entusiasmo desde a época das primeiras edições.
Brasil
No Brasil, o Realismo é convencionalmente iniciado em 1881 com Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, que saiu em folhetim na Revista Brasileira em 1880 e em volume no ano seguinte. A obra de Machado, porém, escapa a enquadramentos simples, com ironia, digressões e análise psicológica próprias. Também em 1881 saiu O Mulato, de Aluísio Azevedo, tido como obra inaugural do Naturalismo brasileiro, seguido por O Cortiço, de 1890.
Raul Pompeia publicou O Ateneu em 1888, romance de ambiente escolar que mistura traços naturalistas e impressionistas. A poesia dessa época convive com o Parnasianismo, e o debate sobre a abolição da escravidão e a República forneceu matéria para a prosa crítica.
O debate sobre a escravidão atravessa a ficção do período. Machado de Assis tratou o tema com ironia sutil, e Aluísio Azevedo o abordou de modo mais direto. A literatura ajudou a registrar o ambiente urbano do Rio de Janeiro, com cortiços, repartições e salões, e inaugurou uma tradição de crítica social que seria continuada pelos escritores modernistas.
Recepção, escândalo e mercado
O Realismo e o Naturalismo provocaram debates acalorados sobre os limites da literatura. Além do processo contra Flaubert, as obras de Zola foram acusadas de imoralidade, e na Inglaterra o editor Henry Vizetelly chegou a ser condenado, em 1889, por publicar traduções de romances de Zola. Em Portugal e no Brasil, a crítica reagiu às descrições do corpo, da sexualidade e da hipocrisia religiosa, e o tema da Igreja em O Crime do Padre Amaro, por exemplo, suscitou polêmica.
O romance consolidou-se nesse período como gênero dominante do mercado, tanto em livro como em jornal. A leitura de romances ampliou-se entre as classes médias urbanas, e as editoras passaram a investir em coleções, traduções e edições ilustradas. Na imprensa brasileira, o folhetim foi o meio de lançamento de várias obras da época, e o comércio de livros se concentrava em poucas casas do Rio de Janeiro, como a Garnier, que publicou Machado de Assis.
Realismo × Naturalismo
| Critério | Realismo | Naturalismo |
|---|---|---|
| Método | Observação e análise crítica da sociedade. | Aplicação de modelo científico e experimental. |
| Foco | Costumes burgueses e psicologia. | Grupos populares, corpo e meio. |
| Visão do indivíduo | Condicionado, mas com margem de escolha. | Fortemente determinado por hereditariedade e meio. |
| Autores centrais | Flaubert, Eça de Queirós, Machado de Assis. | Zola, Aluísio Azevedo. |
| Tom | Irônico e analítico. | Documental e muitas vezes cru. |
Cronologia
- 1857Publicação de Madame Bovary, de Flaubert.
- 1859Darwin publica A origem das espécies.
- 1865Questão Coimbrã em Portugal.
- 1871Início de Les Rougon-Macquart e das Conferências do Casino.
- 1878Eça de Queirós publica O Primo Basílio.
- 1880Zola publica O romance experimental.
- 1881Machado de Assis publica Memórias Póstumas de Brás Cubas; Aluísio Azevedo, O Mulato.
- 1890Aluísio Azevedo publica O Cortiço.
Curiosidades verificáveis
- Flaubert foi levado a julgamento em 1857 por causa de Madame Bovary e foi absolvido.
- O ciclo Les Rougon-Macquart, de Zola, reúne vinte romances publicados entre 1871 e 1893.
- Memórias Póstumas de Brás Cubas apareceu primeiro em capítulos na Revista Brasileira, em 1880.
- As Conferências do Casino, em Lisboa, foram suspensas por decisão governamental em 1871, depois de poucas sessões.
Termos relacionados
- Positivismo
- Corrente filosófica que defende o conhecimento baseado em fatos observáveis.
- Narrador onisciente
- Narrador que conhece pensamentos e ações de todos os personagens.
- Romance de tese
- Narrativa construída para ilustrar uma ideia social ou científica.
- Folhetim
- Narrativa seriada publicada em capítulos em jornais.
- Hereditariedade
- Transmissão de traços biológicos, central na leitura naturalista dos personagens.
Leituras internas
Gêneros literários
Romance
Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.
GêneroVários períodos
Movimentos e períodos literários
Romantismo
Movimento do fim do século XVIII e do XIX que valorizou emoção, individualidade, natureza e identidade nacional, de Goethe e Byron a Alencar e Castro Alves.
MovimentoSéculo XIX
Movimentos e períodos literários
Parnasianismo e Simbolismo
Duas correntes poéticas do fim do século XIX: o Parnasianismo, da forma impecável, e o Simbolismo, da sugestão e da música, de Bilac a Cruz e Sousa.
MovimentoSéculo XIX
Gêneros literários
Conto
Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.
GêneroVários períodos
Gêneros literários
Crônica
Gênero breve ligado à imprensa que comenta o cotidiano com subjetividade e estilo, consolidado no Brasil por Alencar, Machado de Assis e Rubem Braga.
GêneroSéculo XIX
Curiosidades do mundo dos livros
Livros proibidos e censura
Da lista de livros proibidos da Igreja aos processos por obscenidade e à censura no Brasil, a história de obras silenciadas e do debate sobre a leitura.
CuriosidadeVários períodos
Referências
- Erich Auerbach. Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental. 1946.
- Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira. Cultrix.
- Antonio Candido. Formação da literatura brasileira. 1959.
- Encyclopaedia Britannica. Verbetes “Realism” e “Naturalism”.
Veja como o conteúdo é produzido e corrigido na política editorial.