Movimentos e períodos literários
Romantismo
Movimento do fim do século XVIII e do XIX que valorizou emoção, individualidade, natureza e identidade nacional, de Goethe e Byron a Alencar e Castro Alves.
Contextualização histórica
O Romantismo surgiu entre o fim do século XVIII e as primeiras décadas do XIX como reação ao racionalismo iluminista e às regras rígidas do neoclassicismo. Num período marcado pela Revolução Francesa, pelas guerras napoleônicas e pela Revolução Industrial, escritores de diversos países passaram a valorizar a emoção, a imaginação, a originalidade e o indivíduo diante da sociedade. Em vez de imitar modelos antigos, buscaram a expressão pessoal e a inspiração em fontes nacionais, medievais e populares.
Dois marcos costumam ser lembrados. Na Alemanha, o movimento Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto) e a obra de Johann Wolfgang von Goethe, cujo romance Os sofrimentos do jovem Werther saiu em 1774, antecipam a sensibilidade romântica. Na Inglaterra, Lyrical Ballads, de William Wordsworth e Samuel Taylor Coleridge, publicado em 1798, é considerado ponto de partida da poesia romântica inglesa, em especial pelo prefácio da edição de 1800, que defende uma linguagem próxima da fala comum.
Conceitos essenciais
Subjetivismo
Primazia da experiência interior e dos sentimentos do eu como matéria literária.
Mal do século
Estado de melancolia, tédio e inquietação associado à geração romântica, sobretudo ao ultrarromantismo.
Indianismo
Tendência da literatura brasileira que elege o indígena como símbolo nacional idealizado.
Cor local
Atenção a paisagem, costumes e linguagem de um lugar específico como elemento de identidade.
Características gerais
A estética romântica rompe com a hierarquia de gêneros e com as unidades dramáticas. Victor Hugo expôs essa postura no prefácio de seu drama Cromwell, de 1827, e a estreia de Hernani, em 1830, tornou-se símbolo da disputa entre românticos e clássicos nos palcos parisienses. A mistura de sublime e grotesco, de trágico e cômico, torna-se programa.
Entre os temas recorrentes estão o amor impossível, a natureza como espelho do espírito, o passado medieval, a morte, a evasão e a liberdade política. A literatura também se envolveu com o nacionalismo: coleções de contos populares, como a dos irmãos Grimm, cuja primeira edição é de 1812, e a poesia de inspiração folclórica contribuíram para a definição de identidades culturais em formação.
Principais autores europeus
Na Inglaterra, além de Wordsworth e Coleridge, destacam-se Lord Byron, Percy Shelley e John Keats. Mary Shelley publicou Frankenstein em 1818, obra que também é apontada como origem da ficção científica moderna. Walter Scott popularizou o romance histórico com Waverley, de 1814. Na França, ao lado de Hugo, atuaram Lamartine, Alfred de Musset e Alexandre Dumas. Na Rússia, Aleksandr Púchkin fundou uma tradição literária moderna em língua russa.
A expansão do público leitor e da imprensa periódica foi condição material do movimento. O romance em folhetim, publicado em jornais por capítulos, consolidou-se na França a partir da década de 1830 e aproximou escritores de leitores novos, em especial das classes médias urbanas.
Portugal
Em Portugal, o poema Camões, de Almeida Garrett, publicado em Paris em 1825, é tradicionalmente considerado marco inicial do Romantismo. Garrett escreveu ainda o drama Frei Luís de Sousa, de 1843, e Viagens na minha terra, que mistura narrativa de viagem e reflexão. Alexandre Herculano foi o principal romancista histórico português, com obras como Eurico, o Presbítero, e Camilo Castelo Branco produziu romances passionais de grande sucesso.
Entre os romancistas, Camilo Castelo Branco, que viveu da escrita e escreveu dezenas de títulos, ilustra a nova figura do autor profissional em Portugal. Seu Amor de perdição, de 1862, é um dos romances mais lidos da língua. Já Júlio Dinis, com Uma família inglesa, de 1868, representou uma vertente mais amena e doméstica, que dialoga com o gosto do público burguês pelo romance de costumes.
Brasil
Os historiadores da literatura brasileira costumam situar o início do Romantismo em 1836, com a publicação, em Paris, de Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães. Gonçalves Dias, com Primeiros cantos, de 1846, e a “Canção do exílio”, escrita em 1843, consolidou a lírica nacional e o indianismo. Em prosa, José de Alencar construiu um projeto de romance nacional, de O Guarani (1857) a Iracema (1865), ao lado de Joaquim Manuel de Macedo, autor de A Moreninha, de 1844.
A divisão por gerações é clássica: a primeira, nacionalista e indianista; a segunda, ultrarromântica, com Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela; a terceira, condoreira e social, com Castro Alves, cujo Espumas flutuantes é de 1870 e que se voltou à causa abolicionista. O movimento perde força com a ascensão do Realismo, na década de 1870.
Cabe lembrar que o Romantismo brasileiro se vinculou ao projeto político de construção da nação após a Independência, de 1822. O imperador Pedro II e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, fundado em 1838, incentivaram a pesquisa sobre a história e a cultura nacionais, e esse ambiente favoreceu a escolha de temas como o indígena e a paisagem tropical como símbolos do país, ainda que de modo idealizado e distante da realidade dos povos originários.
Romantismo, imprensa e mercado do livro
O Romantismo foi o primeiro grande movimento literário a se desenvolver num mercado de leitores em ampliação. A mecanização da imprensa, o barateamento do papel e o aumento da alfabetização em países europeus permitiram tiragens maiores e a profissionalização do escritor, que podia viver, em certos casos, da venda de livros e da colaboração em periódicos. Byron e Walter Scott, por exemplo, alcançaram sucesso editorial amplo em suas épocas, e Scott tornou-se modelo para romancistas de vários países.
Os editores desempenharam papel novo. A prática de publicar romances em três volumes, comum na Inglaterra oitocentista, e a difusão de bibliotecas de empréstimo moldaram a forma dos livros, enquanto o folhetim dava ao romance um ritmo de suspense para manter o leitor semana após semana. No Brasil, a imprensa periódica e as tipografias do Rio de Janeiro, em especial depois da chegada da corte em 1808, foram essenciais para a circulação de poemas e romances de Alencar e de seus contemporâneos, e muitas obras saíram primeiro em jornais.
Gerações do Romantismo brasileiro
| Critério | Primeira geração | Segunda geração | Terceira geração |
|---|---|---|---|
| Período aproximado | 1836 a c. 1850. | c. 1850 a c. 1860. | c. 1860 a 1870. |
| Tendência | Nacionalismo e indianismo. | Ultrarromantismo e mal do século. | Poesia social e condoreirismo. |
| Autores | Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães. | Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu. | Castro Alves, Sousândrade. |
| Temas | Pátria, natureza, índio. | Amor, morte, solidão. | Abolição, liberdade, justiça. |
| Tom | Idealizado e patriótico. | Subjetivo e melancólico. | Épico e combativo. |
Cronologia
- 1774Goethe publica Os sofrimentos do jovem Werther.
- 1798Wordsworth e Coleridge publicam Lyrical Ballads.
- 1818Mary Shelley publica Frankenstein.
- 1825Garrett publica Camões, marco do Romantismo português.
- 1830Estreia de Hernani, de Victor Hugo.
- 1836Gonçalves de Magalhães publica Suspiros poéticos e saudades.
- 1857José de Alencar publica O Guarani.
- 1870Castro Alves publica Espumas flutuantes.
Curiosidades verificáveis
- Frankenstein foi concebido durante um verão frio de 1816 em Genebra, numa reunião de escritores que incluía Lord Byron e Percy Shelley.
- Gonçalves Dias morreu em 1864 em naufrágio na costa do Maranhão, quando regressava da Europa.
- Castro Alves morreu em 1871, aos 24 anos, depois de um acidente de caça; sua obra mais conhecida trata da escravidão.
- A primeira edição de Frankenstein, de 1818, saiu sem indicação do nome da autora.
Termos relacionados
- Sturm und Drang
- Movimento literário alemão da década de 1770, precursor do Romantismo.
- Folhetim
- Narrativa seriada publicada em capítulos nos jornais.
- Ultrarromantismo
- Fase de exacerbação sentimental e pessimista do Romantismo.
- Condoreirismo
- Estilo de Castro Alves e seguidores, de imagens grandiosas, associado ao condor.
- Romance histórico
- Narrativa ficcional ambientada em época passada, popularizada por Walter Scott.
- Balada
- Poema narrativo de origem popular, valorizado pelos românticos.
Leituras internas
Gêneros literários
Romance
Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.
GêneroVários períodos
Gêneros literários
Conto
Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.
GêneroVários períodos
Gêneros literários
Ficção científica
Ficção que explora consequências de mudanças científicas e tecnológicas e do futuro; de Frankenstein e Júlio Verne ao ciberpunk e à ficção especulativa.
GêneroSéculo XIX
Gêneros literários
Literatura fantástica
Conjunto de narrativas em que o sobrenatural irrompe no real ou cria mundos imaginários, do romance gótico a Kafka, Borges, Tolkien e à fantasia contemporânea.
GêneroVários períodos
Movimentos e períodos literários
Realismo e Naturalismo
Correntes da segunda metade do século XIX que trocaram o ideal romântico pela observação da sociedade, com Flaubert, Zola, Eça de Queirós e Machado de Assis.
MovimentoSéculo XIX
Gêneros literários
Crônica
Gênero breve ligado à imprensa que comenta o cotidiano com subjetividade e estilo, consolidado no Brasil por Alencar, Machado de Assis e Rubem Braga.
GêneroSéculo XIX
Referências
- Antonio Candido. Formação da literatura brasileira. 1959.
- Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira. Cultrix.
- Isaiah Berlin. As raízes do Romantismo. Conferências de 1965.
- Encyclopaedia Britannica. Verbete “Romanticism”.
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