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Gêneros literários

Conto

Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.

  • TipoGênero
  • PeríodoVários períodos
  • PaísesGlobal, Estados Unidos, Rússia, Brasil
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

O conto é uma narrativa breve em prosa, voltada a um único episódio, conflito ou situação, com poucas personagens e economia de recursos. Sua brevidade não é apenas questão de tamanho: exige que cada elemento contribua para o efeito final. Ele pode ser lido de uma só vez, o que o aproxima, em sua concepção, da tradição oral de contar histórias em roda, mas também do ritmo da imprensa periódica, que lhe deu espaço regular.

A história do conto é, ao mesmo tempo, muito antiga e muito recente. Antiga porque narrativas breves circulam em todas as culturas, na forma de mitos, fábulas, anedotas e histórias exemplares. Recente porque só no século XIX, com revistas e jornais em expansão e com a reflexão teórica de autores como Edgar Allan Poe, o conto passou a ser tratado como forma literária autônoma, com técnica própria e não como mero esboço de narrativas mais longas.

Conceitos essenciais

Unidade de efeito

Princípio defendido por Edgar Allan Poe segundo o qual todos os elementos do conto devem convergir para uma única impressão no leitor.

Conto de fadas

Narrativa tradicional de caráter maravilhoso, recolhida e reescrita por autores como Charles Perrault e os irmãos Grimm.

Final aberto

Desfecho que não resolve por completo o conflito, deixando ao leitor a conclusão.

Epifania

Momento de revelação súbita de uma personagem, termo associado ao uso que James Joyce deu à palavra e muito aplicado à análise do conto moderno.

Origem

As mais antigas narrativas breves conhecidas são egípcias. Os contos do Papiro Westcar, cujo manuscrito costuma ser datado de cerca do século XVII a.C., reúnem histórias de prodígios contadas ao faraó. Da Índia vêm coletâneas de fábulas e histórias encaixadas, como o Panchatantra, enquanto o mundo árabe e persa legou As Mil e Uma Noites, compilação formada ao longo de vários séculos, com acréscimos de diferentes origens.

Na Europa medieval e renascentista, o Decameron, de Giovanni Boccaccio, escrito por volta de 1349 a 1353, organizou cem novelas narradas por dez jovens refugiados da peste. Os Contos de Cantuária, de Geoffrey Chaucer, do fim do século XIV, seguiram a estratégia da moldura narrativa. No século XVII, Charles Perrault publicou contos de fadas em 1697, e no XIX os irmãos Grimm reuniram histórias da tradição oral alemã, a partir de 1812.

Características

O conto moderno tem unidade de ação, de tempo e de espaço mais ou menos concentrada. A trama costuma ser enxuta, com início que já introduz o conflito, desenvolvimento rápido e desfecho que dá sentido ao conjunto. Poe, em sua resenha de 1842 sobre os Twice-Told Tales de Nathaniel Hawthorne, formulou a ideia de unidade de efeito, que influenciou gerações de contistas e teóricos.

Julio Cortázar comparou o conto à fotografia e o romance ao cinema: o conto precisaria escolher um fragmento de realidade capaz de irradiar sentidos para além de si. Muitos contos trabalham com o implícito, o não dito e a elipse, de modo que o leitor completa lacunas. Outro traço frequente é a presença de um narrador que condensa a perspectiva e, com isso, reforça a tensão.

A tradição crítica também discute o papel do desfecho. Em Tchekhov e em seus herdeiros, o final costuma ser aberto ou sugestivo, enquanto no conto de Maupassant ou de O. Henry a reviravolta final é um elemento central. Ambas as soluções convivem no gênero e mostram sua capacidade de variar dentro de uma mesma economia de meios.

Evolução

No século XIX, o conto ganhou prestígio com Poe, Hawthorne, Nikolai Gógol, Guy de Maupassant e Anton Tchekhov. Poe explorou o terror e o raciocínio dedutivo; Maupassant, o realismo cruel e irônico; Tchekhov, o cotidiano em que quase nada acontece e tudo se revela. No século XX, Jorge Luis Borges, em Ficções (1944), mesclou metafísica e invenção; Katherine Mansfield, Ernest Hemingway e Raymond Carver cultivaram uma prosa econômica; Cortázar e Clarice Lispector deram ao conto a face da ruptura do cotidiano.

No Brasil, Machado de Assis publicou contos de grande refinamento, entre eles os de Papéis Avulsos (1882). Mais tarde, Guimarães Rosa estreou com Sagarana (1946), Clarice Lispector com Laços de Família (1960), e Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles e Rubem Fonseca renovaram a forma. A internet e a revista digital abriram espaço para o miniconto e a microficção, formas de poucas linhas.

A circulação em revistas foi decisiva para a consolidação do gênero. Nos Estados Unidos, periódicos literários do século XIX abriram espaço regular para narrativas curtas, e na Rússia as chamadas revistas grossas serviram de vitrine para Tchekhov. Essa relação com a periodicidade favoreceu a brevidade, mas também gerou o hábito de reunir contos em coletâneas assinadas, que passaram a ser a principal forma de sua difusão em livro.

Subgêneros

O conto se divide em vários tipos. O conto popular ou folclórico circula pela oralidade e se adapta a cada contador. O conto de fadas e o conto maravilhoso envolvem magia. O conto fantástico trabalha a hesitação entre explicação natural e sobrenatural, e se relaciona de perto com a literatura fantástica. O conto policial, de que Poe é pioneiro, tem desdobramentos no romance policial. Há ainda o conto de terror, o psicológico, o realista, o de humor e o conto de costumes.

Em escala menor, o miniconto, a microficção e a chamada flash fiction exploram a concisão extrema, com alguns parágrafos ou até uma só frase. Essas variantes testam o limite da narrativa e dependem do que o leitor infere.

Diferenças em relação a gêneros próximos

Diferentemente do romance, o conto não se desdobra em muitos núcleos nem acompanha longas transformações de personagem; trabalha com um instante decisivo. A novela, de extensão intermediária, admite maior desenvolvimento de enredo sem chegar à complexidade do romance. A crônica, por sua vez, está ligada ao jornal e ao comentário do cotidiano, com tom mais leve e muitas vezes autoral, enquanto o conto assume claramente o pacto ficcional.

Na prática, os limites são fluidos: certas crônicas de Rubem Braga, por exemplo, aproximam-se do conto, e muitos contos de Machado de Assis circularam primeiro em periódicos. A distinção operacional é mais de intenção e de estrutura do que de local de publicação.

Conto × Novela × Romance × Crônica

CritérioContoNovelaRomanceCrônica
ExtensãoCurtaIntermediáriaLongaCurta
EstruturaUm conflito centralEnredo mais linear e desenvolvidoMúltiplas tramas e personagensComentário livre sobre o cotidiano
NaturezaFiccionalFiccionalFiccionalHíbrida, entre relato e ficção
Suporte típicoRevistas e coletâneasLivro ou revistaLivroJornal e revista
Efeito buscadoImpressão única e concentradaDesenvolvimento moderadoPanorama e transformaçãoReflexão leve e imediata

Cronologia

  1. c. séc. XVII a.C.Data aproximada do manuscrito do Papiro Westcar, com contos egípcios.
  2. c. 1349–1353Boccaccio escreve o Decameron.
  3. 1697Charles Perrault publica Histórias ou Contos do Tempo Passado.
  4. 1812Primeira edição dos contos dos irmãos Grimm.
  5. 1842Poe publica sua resenha sobre Hawthorne e formula a unidade de efeito.
  6. 1946Guimarães Rosa publica Sagarana.

Curiosidades verificáveis

  • O Papiro Westcar, que preserva contos egípcios, é conservado em Berlim e recebeu o nome de seu primeiro proprietário inglês, Henry Westcar.
  • O Decameron foi escrito depois da Peste Negra, que atingiu Florença em 1348, e usa a epidemia como pano de fundo da moldura narrativa.
  • Os Contos da Infância e do Lar, dos irmãos Grimm, tiveram a primeira edição em 1812 e foram revistos pelos autores ao longo de várias edições.
  • Jorge Luis Borges nunca escreveu um romance, e sua obra mais conhecida está em coletâneas de contos e ensaios breves.

Termos relacionados

Moldura narrativa
Estrutura em que uma história-base contém outras histórias, como no Decameron e nas Mil e Uma Noites.
Elipse
Omissão de trechos da ação que o leitor deve inferir.
Microconto
Conto de poucas linhas, às vezes de uma única frase.
Clímax
Ponto de maior tensão do conflito narrativo.
Conto de enigma
Narrativa em que a resolução de um mistério organiza a trama.
Antologia
Reunião de textos de vários autores, comum na difusão de contos.

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Leituras internas

Gêneros literários

Romance

Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.

GêneroVários períodos

Gêneros literários

Crônica

Gênero breve ligado à imprensa que comenta o cotidiano com subjetividade e estilo, consolidado no Brasil por Alencar, Machado de Assis e Rubem Braga.

GêneroSéculo XIX

Gêneros literários

Literatura fantástica

Conjunto de narrativas em que o sobrenatural irrompe no real ou cria mundos imaginários, do romance gótico a Kafka, Borges, Tolkien e à fantasia contemporânea.

GêneroVários períodos

Gêneros literários

Romance policial

Narrativa organizada em torno de um crime e de sua investigação, que nasceu no século XIX com Poe e se desdobrou em enigma, hard-boiled e thriller.

GêneroSéculo XIX

Movimentos e períodos literários

Modernismo brasileiro

Movimento iniciado com a Semana de Arte Moderna de 1922 que renovou a linguagem literária e a busca de identidade, de Mário e Oswald de Andrade a Guimarães Rosa.

MovimentoSéculo XX

Referências

  • Edgar Allan Poe. Resenha de Twice-Told Tales, de Nathaniel Hawthorne, 1842.
  • Julio Cortázar. Valise de cronópio (inclui “Alguns aspectos do conto”), 1993.
  • Charles E. May. The Short Story: The Reality of Artifice, 1995.
  • Encyclopaedia Britannica. Verbete “Short story”.
  • Antonio Candido. Formação da literatura brasileira, 1959.

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