Romance policial
Narrativa organizada em torno de um crime e de sua investigação, que nasceu no século XIX com Poe e se desdobrou em enigma, hard-boiled e thriller.
Contextualização histórica
O romance policial é a narrativa em que um crime, em geral um assassinato, é investigado e esclarecido por um detetive, profissional ou amador. Seu interesse nasce da tensão entre o enigma e a razão: o leitor acompanha pistas, suspeitos e falsas pistas até o desfecho. Muitas obras do gênero propõem uma espécie de jogo intelectual, no qual o autor deve fornecer os elementos necessários à solução.
O gênero está ligado à urbanização do século XIX, à criação de forças policiais modernas e ao crescimento da imprensa popular, que dava destaque a crimes e processos. Em Paris e Londres, a polícia profissional e a ideia de investigação racional transformaram o crime em objeto de curiosidade pública. A literatura captou esse interesse, e o romance policial tornou-se um dos gêneros mais lidos e traduzidos do mundo.
Conceitos essenciais
Whodunit
Do inglês “who done it”, designa o enigma que gira em torno de descobrir quem cometeu o crime.
Crime do quarto fechado
Variante do enigma em que o delito ocorre em local aparentemente inacessível.
Pista falsa
Indício plantado para desviar a atenção do leitor e do detetive, em inglês red herring.
Detetive amador
Investigador sem vínculo policial, figura frequente no romance de enigma.
Origem
A narrativa de crime tem antecedentes antigos, mas o romance policial moderno costuma ser datado de 1841, quando Edgar Allan Poe publicou Os Crimes da Rua Morgue, com o detetive C. Auguste Dupin. Poe ainda escreveu O Mistério de Marie Rogêt e A Carta Roubada, estabelecendo elementos que se tornaram convenções: o detetive de inteligência fora do comum, o narrador-amigo e a solução por dedução. Antes disso, as Memórias de Vidocq (1828), de um ex-criminoso que virou chefe de polícia na França, haviam alimentado o fascínio pelo tema.
Émile Gaboriau, na França, criou o policial Lecoq na década de 1860, e Wilkie Collins publicou A Pedra da Lua em 1868, frequentemente citado como um dos primeiros romances policiais ingleses. Mas a figura de maior influência foi Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, que estreou em Um Estudo em Vermelho (1887) e alcançou grande fama a partir das histórias na revista The Strand, na década de 1890.
Características
A estrutura clássica envolve um crime, uma série de suspeitos, uma investigação que combina observação, interrogatório e raciocínio, e uma revelação final. Em muitos casos, o detetive reúne todos os envolvidos para expor a solução. O narrador pode ser o próprio investigador ou um acompanhante, como o dr. Watson, que preserva o mistério do método.
No enigma clássico, a justiça é restaurada e a ordem social, reafirmada. Em outras vertentes, o crime revela corrupção, desigualdade e ambiguidade moral, de modo que o detetive já não restaura a ordem, apenas atravessa a desordem. O cenário urbano, a atmosfera e o diálogo ganham peso, como no romance noir.
A discussão sobre as regras do jogo limpo ocupou os autores da chamada Era de Ouro. Ronald Knox formulou, em 1929, os chamados Dez Mandamentos do romance policial, e S. S. Van Dine propôs regras semelhantes em 1928. Essas listas, em parte humorísticas, procuravam garantir ao leitor condições equivalentes às do detetive para resolver o caso, e são testemunho do caráter lúdico do enigma.
Evolução
Entre as guerras mundiais, floresceu a chamada Era de Ouro do romance de enigma, na Grã-Bretanha, com Agatha Christie, cuja estreia foi O Misterioso Caso de Styles (1920), Dorothy L. Sayers e outros. Nos Estados Unidos, a revista Black Mask, a partir de 1920, publicou a escola hard-boiled, com Dashiell Hammett e Raymond Chandler, em que detetives particulares enfrentam um mundo violento e corrupto. Georges Simenon criou o comissário Maigret em romances a partir de 1931.
Depois da Segunda Guerra Mundial, o gênero diversificou-se: surgiram o romance de procedimento policial, o thriller psicológico e a literatura nórdica de crime. No Brasil, autores como Rubem Fonseca (A Grande Arte, 1983), Luiz Alfredo Garcia-Roza, que criou o delegado Espinosa a partir de O Silêncio da Chuva (1996), e Jô Soares (O Xangô de Baker Street, 1995) deram feição local ao gênero.
Nos anos recentes, o romance policial tornou-se um dos gêneros mais vendidos em diversos países, e a ficção de crime nórdica, com autores suecos, noruegueses e dinamarqueses, ganhou projeção internacional. Séries de televisão e adaptações cinematográficas retroalimentam o interesse pelo gênero e renovam a circulação de clássicos.
Subgêneros
O romance de enigma, ou whodunit, privilegia o quebra-cabeça intelectual e a justiça final. O hard-boiled e o noir apostam em violência, ambiguidade moral e ambientes urbanos sombrios. O romance de procedimento policial acompanha o trabalho rotineiro de uma equipe. O thriller concentra-se no perigo e no ritmo, muitas vezes com a perspectiva da vítima ou do criminoso. O chamado cozy mystery, de tom ameno, ambienta crimes em comunidades pequenas.
Existem também o romance de espionagem, que desloca o conflito para a política internacional, o romance judicial e o policial histórico. O true crime, de base documental, é vizinho do gênero, mas pertence à não ficção.
Diferenças em relação a gêneros próximos
Diferentemente do thriller, em que o leitor muitas vezes sabe quem é o vilão e a tensão vem da perseguição e do risco, o enigma tem como motor a descoberta da verdade. Em relação ao romance em geral, o policial é fortemente orientado por trama, e isso exige que o desfecho respeite as pistas dadas. Com a ficção científica e a literatura fantástica, compartilha a lógica do mundo construído, mas o policial tende a se manter em um universo realista.
Com o conto, o gênero tem relação íntima, pois nasceu em narrativas curtas, e a forma breve segue forte em coletâneas e revistas especializadas.
Romance de enigma × Hard-boiled × Thriller
| Critério | Romance de enigma | Hard-boiled | Thriller |
|---|---|---|---|
| Pergunta central | Quem cometeu o crime? | Como sobreviver e agir num meio corrupto? | Como impedir a ameaça? |
| Protagonista | Detetive racional, amador ou profissional | Detetive particular cínico | Herói, agente ou vítima em perigo |
| Ambiente típico | Casas de campo, comunidades fechadas | Cidades violentas e sombrias | Cenários variados, de ritmo acelerado |
| Tom | Intelectual e ordenado | Realista e desencantado | Tenso e dinâmico |
| Autores associados | Christie, Conan Doyle | Hammett, Chandler | Autores de espionagem e suspense |
Cronologia
- 1828Publicadas as Memórias de Vidocq, na França.
- 1841Poe publica Os Crimes da Rua Morgue.
- 1868Wilkie Collins publica A Pedra da Lua.
- 1887Estreia de Sherlock Holmes em Um Estudo em Vermelho.
- 1920Estreia de Agatha Christie; fundação da revista Black Mask.
- 1983Rubem Fonseca publica A Grande Arte, no Brasil.
Curiosidades verificáveis
- Poe publicou as três histórias de Dupin entre 1841 e 1844, e criou a figura do detetive de gabinete que resolve o caso pelo raciocínio.
- Agatha Christie é frequentemente citada entre os autores mais traduzidos do mundo.
- Os leitores de The Strand chegaram a reagir com protestos quando Conan Doyle fez Sherlock Holmes morrer em 1893, e o autor acabou trazendo o personagem de volta em histórias publicadas a partir de 1903.
- A Detection Club, associação de autores de romance policial britânicos, foi fundada em Londres no início dos anos 1930.
Termos relacionados
- Noir
- Estilo sombrio de ficção de crime, associado à literatura e ao cinema do século XX.
- Procedimento policial
- Subgênero centrado nos métodos e na rotina da polícia.
- Dedução
- Raciocínio que parte de indícios para uma conclusão lógica, base da investigação clássica.
- Álibi
- Prova de que o suspeito estava em outro lugar quando o crime ocorreu.
- Cozy
- Romance policial de tom ameno, com violência discreta.
- Detetive particular
- Investigador independente, contratado por clientes, comum na tradição hard-boiled.
Leituras internas
Gêneros literários
Conto
Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.
GêneroVários períodos
Gêneros literários
Romance
Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.
GêneroVários períodos
Gêneros literários
Ficção científica
Ficção que explora consequências de mudanças científicas e tecnológicas e do futuro; de Frankenstein e Júlio Verne ao ciberpunk e à ficção especulativa.
GêneroSéculo XIX
Gêneros literários
Literatura fantástica
Conjunto de narrativas em que o sobrenatural irrompe no real ou cria mundos imaginários, do romance gótico a Kafka, Borges, Tolkien e à fantasia contemporânea.
GêneroVários períodos
Curiosidades do mundo dos livros
Best-sellers e listas de mais vendidos
Como surgiram as listas de mais vendidos, o que elas realmente medem e por que as estimativas de vendas históricas devem ser lidas com cautela.
ConceitoSéculo XX
Curiosidades do mundo dos livros
Pseudônimos literários
Escritores sempre adotaram nomes falsos por prudência, estratégia ou jogo. Veja como surgiram pseudônimos célebres e o que os distingue de heterônimos.
CuriosidadeVários períodos
Referências
- Julian Symons. Bloody Murder: From the Detective Story to the Crime Novel, 1972.
- Howard Haycraft. Murder for Pleasure: The Life and Times of the Detective Story, 1941.
- Tzvetan Todorov. Tipologia do romance policial.
- Martin Priestman (org.). The Cambridge Companion to Crime Fiction, 2003.
- Encyclopaedia Britannica. Verbete “Detective story”.
Veja como o conteúdo é produzido e corrigido na política editorial.