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Gêneros literários

Crônica

Gênero breve ligado à imprensa que comenta o cotidiano com subjetividade e estilo, consolidado no Brasil por Alencar, Machado de Assis e Rubem Braga.

  • TipoGênero
  • PeríodoSéculo XIX
  • PaísesBrasil, França, Portugal
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

A crônica é um texto curto, em prosa, ligado à imprensa, que trata de acontecimentos, cenas e reflexões do cotidiano com marca pessoal do autor. Situa-se entre o jornalismo e a literatura: parte do fato do dia, mas o filtra pela sensibilidade, pelo humor e pela linguagem. É por isso um gênero híbrido, difícil de enquadrar, e as classificações costumam variar conforme a ênfase.

A palavra tem origem no grego “khronos”, tempo, e antes de designar o gênero moderno nomeava a narração histórica de fatos em ordem cronológica. Na Idade Média, cronistas como Fernão Lopes, em Portugal, no século XV, registraram a história dos reis. O sentido literário atual se formou no século XIX, com a imprensa periódica, e tornou-se particularmente forte no Brasil, onde a crônica adquiriu prestígio e feição própria.

Conceitos essenciais

Folhetim

Seção de rodapé dos jornais do século XIX dedicada a variedades, crítica e ficção; está na raiz da crônica moderna.

Cronista

Autor de crônicas; na acepção histórica, o encarregado de registrar eventos de uma corte ou instituição.

Coloquialidade

Tom próximo da conversa, característico da crônica brasileira.

Efemeridade

Caráter ligado ao dia de publicação, que a crônica transcende quando reunida em livro.

Origem

O sentido histórico da crônica é antigo: registros anuais de acontecimentos, como as crônicas medievais e as dos cronistas régios. Fernão Lopes, nomeado cronista-mor do reino português na década de 1430, é considerado figura de destaque desse tipo de escrita. O gênero literário moderno surgiu com o feuilleton, o rodapé dos jornais franceses, cuja origem costuma ser situada no início do século XIX, no Journal des Débats.

Nesse espaço, escritores comentavam teatro, moda, política e vida urbana em tom leve, e o formato se difundiu pela Europa e pelas Américas. A imprensa, ao exigir texto regular, rápido e atraente, criou o ambiente em que a crônica se desenvolveu.

Em Portugal, o gênero moderno também teve cultivadores, como Eça de Queirós, que escreveu crônicas e folhetins para jornais, e Fialho de Almeida. A circulação transatlântica de jornais e livros fez com que modelos portugueses e franceses fossem lidos no Brasil, onde a crônica rapidamente encontrou público e autores que a adaptaram à vida local.

Características

A crônica caracteriza-se pela brevidade, pela linguagem acessível e pela subjetividade. Pode narrar, descrever, comentar ou dialogar com o leitor, e muitas vezes parte de um fato mínimo, como um encontro na rua ou uma notícia, para chegar a uma reflexão mais ampla. O humor, a ironia e o lirismo são recursos frequentes, e o tom costuma ser de conversa.

Antonio Candido, no ensaio “A vida ao rés-do-chão”, observou que a crônica, por ser feita para o jornal e não para a posteridade, aproxima-se da vida cotidiana e adquire uma qualidade de naturalidade que a torna, paradoxalmente, duradoura. A tensão entre a efemeridade do suporte e a permanência do texto é um dos traços definidores.

Para a crítica brasileira, a crônica é um gênero particularmente adequado à observação do cotidiano nacional. Ela registra modos de falar, festas, bairros, hábitos e problemas, e funciona como documento de época, ainda que seu valor literário esteja no modo como o autor transforma o episódio em reflexão. Em muitos casos, o texto é lido décadas depois com interesse que nada tem de efêmero.

Evolução

No Brasil, José de Alencar publicou a série Ao Correr da Pena em 1854, no Correio Mercantil, e Machado de Assis manteve crônicas regulares por décadas, entre elas as séries “Bons Dias!” (1888–89) e “A Semana” (1892–1900). Olavo Bilac e João do Rio levaram a crônica ao retrato da vida urbana carioca; este último reuniu textos em A Alma Encantadora das Ruas (1908).

No século XX, a crônica consolidou-se como gênero de prestígio nas mãos de Rubem Braga, que dedicou grande parte da carreira a ela, e de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Fernando Sabino, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e muitos outros. Mais recentemente, a crônica passou a circular também em blogs, newsletters e redes, e continua sendo um espaço de experimentação.

Também há cronistas que cultivaram o gênero como espaço de memória. Fernando Sabino, em O Encontro Marcado, escreveu romance, mas é muito lembrado por crônicas; Rubem Braga, em textos sobre mar, chuva e cidades, forjou um estilo que marcou gerações. Esse trânsito entre memória, observação e lirismo explica a identificação do público com o gênero.

Subgêneros

Distinguem-se, por predominância, a crônica lírica ou poética, voltada à emoção e à memória; a crônica humorística, de tom irônico; a crônica narrativa, que se aproxima do conto; a crônica jornalística ou de comentário, ligada a fatos e à opinião; a crônica histórica, que revisita eventos do passado; e a crônica esportiva, particularmente relevante no Brasil. A crônica de viagem e a de costumes formam outras vertentes.

Essa tipologia é flexível, e muitos textos combinam traços de mais de uma modalidade. Em livros como os de Rubem Braga, a lírica convive com a observação social e o humor.

Diferenças em relação a gêneros próximos

A crônica difere da notícia e da reportagem porque não tem compromisso de informar de modo neutro: seu valor está na perspectiva e no estilo. Diferencia-se do artigo de opinião pela liberdade formal e pelo tom mais literário. Em relação ao ensaio, é mais breve, menos sistemática e menos argumentativa, embora possa conter reflexão.

Em relação ao conto, a crônica não pressupõe pacto ficcional rígido e muitas vezes dialoga diretamente com o leitor; já o conto constrói uma trama autônoma. Na prática, o limite é tênue, e coletâneas de crônicas e contos coexistem sob o mesmo título.

Por fim, a crônica difere do diário e da carta por dirigir-se a um público amplo e desconhecido, ainda que adote tom íntimo, e por ter sido pensada para a publicação periódica desde o início.

Crônica × Conto × Ensaio × Reportagem

CritérioCrônicaContoEnsaioReportagem
NaturezaHíbrida, entre literatura e jornalismoFiccionalArgumentativa e reflexivaInformativa e documental
ExtensãoCurtaCurta a médiaVariávelVariável
TomPessoal, coloquial, irônico ou líricoVariável, centrado na tramaAnalíticoObjetivo
Suporte típicoJornal e revistaRevistas e coletâneasRevistas e livrosJornal e revista
CompromissoEstilo e perspectiva do autorEfeito narrativoTese e argumentoApuração dos fatos

Cronologia

  1. c. 1430Fernão Lopes é nomeado cronista-mor do reino português.
  2. início do séc. XIXO feuilleton surge na imprensa francesa.
  3. 1854José de Alencar publica Ao Correr da Pena, no Brasil.
  4. 1888Machado de Assis publica a série “Bons Dias!”.
  5. 1892–1900Machado de Assis publica a série “A Semana” na Gazeta de Notícias.
  6. 1908João do Rio reúne crônicas em A Alma Encantadora das Ruas.

Curiosidades verificáveis

  • A palavra “rodapé” vem do espaço inferior das páginas de jornal em que o feuilleton francês e, depois, o folhetim e a crônica eram publicados.
  • Machado de Assis escreveu para a Gazeta de Notícias a série “A Semana”, publicada entre 1892 e 1900.
  • Rubem Braga dedicou grande parte da carreira à crônica, e é frequentemente citado como um dos nomes centrais do gênero no Brasil.
  • Muitas das crônicas brasileiras famosas foram escritas sob prazo diário ou semanal, e só mais tarde reunidas em livro.

Termos relacionados

Feuilleton
Rodapé do jornal francês, origem do folhetim e da crônica moderna.
Cronista-mor
Título do oficial encarregado de escrever a crônica oficial do reino.
Rodapé
Espaço inferior das páginas de jornal, tradicionalmente destinado a crônicas e folhetins.
Coluna
Seção fixa de jornal assinada por um autor.
Pseudônimo
Nome fictício usado por um autor para assinar textos.
Miscelânea
Coletânea de textos variados, forma comum de reunir crônicas.

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Leituras internas

Gêneros literários

Conto

Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.

GêneroVários períodos

Gêneros literários

Romance

Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.

GêneroVários períodos

Movimentos e períodos literários

Modernismo brasileiro

Movimento iniciado com a Semana de Arte Moderna de 1922 que renovou a linguagem literária e a busca de identidade, de Mário e Oswald de Andrade a Guimarães Rosa.

MovimentoSéculo XX

Curiosidades do mundo dos livros

Pseudônimos literários

Escritores sempre adotaram nomes falsos por prudência, estratégia ou jogo. Veja como surgiram pseudônimos célebres e o que os distingue de heterônimos.

CuriosidadeVários períodos

Editoras e mercado editorial

Impressão Régia e a imprensa no Brasil

Criada por decreto de D. João em 1808, no Rio de Janeiro, a Impressão Régia inaugurou a imprensa oficial no Brasil, que até então proibia tipografias.

InstituiçãoSéculo XIX

Referências

  • Antonio Candido et al. A Crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Fundação Casa de Rui Barbosa / Editora da Unicamp, 1992.
  • Jorge de Sá. A Crônica. Editora Ática, 1985.
  • Massaud Moisés. A Criação Literária: Prosa. Cultrix.
  • Encyclopaedia Britannica. Verbete “Chronicle”.
  • Biblioteca Nacional. Acervo de periódicos da Hemeroteca Digital Brasileira.

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