Crônica
Gênero breve ligado à imprensa que comenta o cotidiano com subjetividade e estilo, consolidado no Brasil por Alencar, Machado de Assis e Rubem Braga.
Contextualização histórica
A crônica é um texto curto, em prosa, ligado à imprensa, que trata de acontecimentos, cenas e reflexões do cotidiano com marca pessoal do autor. Situa-se entre o jornalismo e a literatura: parte do fato do dia, mas o filtra pela sensibilidade, pelo humor e pela linguagem. É por isso um gênero híbrido, difícil de enquadrar, e as classificações costumam variar conforme a ênfase.
A palavra tem origem no grego “khronos”, tempo, e antes de designar o gênero moderno nomeava a narração histórica de fatos em ordem cronológica. Na Idade Média, cronistas como Fernão Lopes, em Portugal, no século XV, registraram a história dos reis. O sentido literário atual se formou no século XIX, com a imprensa periódica, e tornou-se particularmente forte no Brasil, onde a crônica adquiriu prestígio e feição própria.
Conceitos essenciais
Folhetim
Seção de rodapé dos jornais do século XIX dedicada a variedades, crítica e ficção; está na raiz da crônica moderna.
Cronista
Autor de crônicas; na acepção histórica, o encarregado de registrar eventos de uma corte ou instituição.
Coloquialidade
Tom próximo da conversa, característico da crônica brasileira.
Efemeridade
Caráter ligado ao dia de publicação, que a crônica transcende quando reunida em livro.
Origem
O sentido histórico da crônica é antigo: registros anuais de acontecimentos, como as crônicas medievais e as dos cronistas régios. Fernão Lopes, nomeado cronista-mor do reino português na década de 1430, é considerado figura de destaque desse tipo de escrita. O gênero literário moderno surgiu com o feuilleton, o rodapé dos jornais franceses, cuja origem costuma ser situada no início do século XIX, no Journal des Débats.
Nesse espaço, escritores comentavam teatro, moda, política e vida urbana em tom leve, e o formato se difundiu pela Europa e pelas Américas. A imprensa, ao exigir texto regular, rápido e atraente, criou o ambiente em que a crônica se desenvolveu.
Em Portugal, o gênero moderno também teve cultivadores, como Eça de Queirós, que escreveu crônicas e folhetins para jornais, e Fialho de Almeida. A circulação transatlântica de jornais e livros fez com que modelos portugueses e franceses fossem lidos no Brasil, onde a crônica rapidamente encontrou público e autores que a adaptaram à vida local.
Características
A crônica caracteriza-se pela brevidade, pela linguagem acessível e pela subjetividade. Pode narrar, descrever, comentar ou dialogar com o leitor, e muitas vezes parte de um fato mínimo, como um encontro na rua ou uma notícia, para chegar a uma reflexão mais ampla. O humor, a ironia e o lirismo são recursos frequentes, e o tom costuma ser de conversa.
Antonio Candido, no ensaio “A vida ao rés-do-chão”, observou que a crônica, por ser feita para o jornal e não para a posteridade, aproxima-se da vida cotidiana e adquire uma qualidade de naturalidade que a torna, paradoxalmente, duradoura. A tensão entre a efemeridade do suporte e a permanência do texto é um dos traços definidores.
Para a crítica brasileira, a crônica é um gênero particularmente adequado à observação do cotidiano nacional. Ela registra modos de falar, festas, bairros, hábitos e problemas, e funciona como documento de época, ainda que seu valor literário esteja no modo como o autor transforma o episódio em reflexão. Em muitos casos, o texto é lido décadas depois com interesse que nada tem de efêmero.
Evolução
No Brasil, José de Alencar publicou a série Ao Correr da Pena em 1854, no Correio Mercantil, e Machado de Assis manteve crônicas regulares por décadas, entre elas as séries “Bons Dias!” (1888–89) e “A Semana” (1892–1900). Olavo Bilac e João do Rio levaram a crônica ao retrato da vida urbana carioca; este último reuniu textos em A Alma Encantadora das Ruas (1908).
No século XX, a crônica consolidou-se como gênero de prestígio nas mãos de Rubem Braga, que dedicou grande parte da carreira a ela, e de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Fernando Sabino, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector, Nelson Rodrigues e muitos outros. Mais recentemente, a crônica passou a circular também em blogs, newsletters e redes, e continua sendo um espaço de experimentação.
Também há cronistas que cultivaram o gênero como espaço de memória. Fernando Sabino, em O Encontro Marcado, escreveu romance, mas é muito lembrado por crônicas; Rubem Braga, em textos sobre mar, chuva e cidades, forjou um estilo que marcou gerações. Esse trânsito entre memória, observação e lirismo explica a identificação do público com o gênero.
Subgêneros
Distinguem-se, por predominância, a crônica lírica ou poética, voltada à emoção e à memória; a crônica humorística, de tom irônico; a crônica narrativa, que se aproxima do conto; a crônica jornalística ou de comentário, ligada a fatos e à opinião; a crônica histórica, que revisita eventos do passado; e a crônica esportiva, particularmente relevante no Brasil. A crônica de viagem e a de costumes formam outras vertentes.
Essa tipologia é flexível, e muitos textos combinam traços de mais de uma modalidade. Em livros como os de Rubem Braga, a lírica convive com a observação social e o humor.
Diferenças em relação a gêneros próximos
A crônica difere da notícia e da reportagem porque não tem compromisso de informar de modo neutro: seu valor está na perspectiva e no estilo. Diferencia-se do artigo de opinião pela liberdade formal e pelo tom mais literário. Em relação ao ensaio, é mais breve, menos sistemática e menos argumentativa, embora possa conter reflexão.
Em relação ao conto, a crônica não pressupõe pacto ficcional rígido e muitas vezes dialoga diretamente com o leitor; já o conto constrói uma trama autônoma. Na prática, o limite é tênue, e coletâneas de crônicas e contos coexistem sob o mesmo título.
Por fim, a crônica difere do diário e da carta por dirigir-se a um público amplo e desconhecido, ainda que adote tom íntimo, e por ter sido pensada para a publicação periódica desde o início.
Crônica × Conto × Ensaio × Reportagem
| Critério | Crônica | Conto | Ensaio | Reportagem |
|---|---|---|---|---|
| Natureza | Híbrida, entre literatura e jornalismo | Ficcional | Argumentativa e reflexiva | Informativa e documental |
| Extensão | Curta | Curta a média | Variável | Variável |
| Tom | Pessoal, coloquial, irônico ou lírico | Variável, centrado na trama | Analítico | Objetivo |
| Suporte típico | Jornal e revista | Revistas e coletâneas | Revistas e livros | Jornal e revista |
| Compromisso | Estilo e perspectiva do autor | Efeito narrativo | Tese e argumento | Apuração dos fatos |
Cronologia
- c. 1430Fernão Lopes é nomeado cronista-mor do reino português.
- início do séc. XIXO feuilleton surge na imprensa francesa.
- 1854José de Alencar publica Ao Correr da Pena, no Brasil.
- 1888Machado de Assis publica a série “Bons Dias!”.
- 1892–1900Machado de Assis publica a série “A Semana” na Gazeta de Notícias.
- 1908João do Rio reúne crônicas em A Alma Encantadora das Ruas.
Curiosidades verificáveis
- A palavra “rodapé” vem do espaço inferior das páginas de jornal em que o feuilleton francês e, depois, o folhetim e a crônica eram publicados.
- Machado de Assis escreveu para a Gazeta de Notícias a série “A Semana”, publicada entre 1892 e 1900.
- Rubem Braga dedicou grande parte da carreira à crônica, e é frequentemente citado como um dos nomes centrais do gênero no Brasil.
- Muitas das crônicas brasileiras famosas foram escritas sob prazo diário ou semanal, e só mais tarde reunidas em livro.
Termos relacionados
- Feuilleton
- Rodapé do jornal francês, origem do folhetim e da crônica moderna.
- Cronista-mor
- Título do oficial encarregado de escrever a crônica oficial do reino.
- Rodapé
- Espaço inferior das páginas de jornal, tradicionalmente destinado a crônicas e folhetins.
- Coluna
- Seção fixa de jornal assinada por um autor.
- Pseudônimo
- Nome fictício usado por um autor para assinar textos.
- Miscelânea
- Coletânea de textos variados, forma comum de reunir crônicas.
Leituras internas
Gêneros literários
Conto
Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.
GêneroVários períodos
Gêneros literários
Romance
Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.
GêneroVários períodos
Movimentos e períodos literários
Modernismo brasileiro
Movimento iniciado com a Semana de Arte Moderna de 1922 que renovou a linguagem literária e a busca de identidade, de Mário e Oswald de Andrade a Guimarães Rosa.
MovimentoSéculo XX
Curiosidades do mundo dos livros
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CuriosidadeVários períodos
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Impressão Régia e a imprensa no Brasil
Criada por decreto de D. João em 1808, no Rio de Janeiro, a Impressão Régia inaugurou a imprensa oficial no Brasil, que até então proibia tipografias.
InstituiçãoSéculo XIX
Referências
- Antonio Candido et al. A Crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Fundação Casa de Rui Barbosa / Editora da Unicamp, 1992.
- Jorge de Sá. A Crônica. Editora Ática, 1985.
- Massaud Moisés. A Criação Literária: Prosa. Cultrix.
- Encyclopaedia Britannica. Verbete “Chronicle”.
- Biblioteca Nacional. Acervo de periódicos da Hemeroteca Digital Brasileira.
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