Literatura fantástica
Conjunto de narrativas em que o sobrenatural irrompe no real ou cria mundos imaginários, do romance gótico a Kafka, Borges, Tolkien e à fantasia contemporânea.
Contextualização histórica
A literatura fantástica reúne narrativas em que elementos impossíveis segundo as leis do mundo conhecido ocupam lugar central. A expressão é usada em dois sentidos. No sentido amplo, abrange a fantasia, o maravilhoso, o gótico e o sobrenatural em geral. No sentido estrito, formulado por Tzvetan Todorov na Introdução à Literatura Fantástica (1970), designa a narrativa em que o leitor e a personagem hesitam entre uma explicação natural e uma sobrenatural para os fatos.
Elementos fantásticos estão na base da literatura desde as origens: mitos, epopeias e contos populares são cheios de deuses, monstros e metamorfoses. O que a modernidade acrescentou foi a consciência de que o fantástico pode ser um modo de pensar o real. A literatura fantástica contemporânea abarca desde a alta fantasia, com mundos secundários completos, até o conto breve em que um detalhe estranho perturba o cotidiano.
Conceitos essenciais
Hesitação
Critério de Todorov: dúvida entre explicação natural e sobrenatural, que define o fantástico em sentido estrito.
Estranho
Categoria em que eventos aparentemente sobrenaturais recebem, no fim, explicação racional.
Maravilhoso
Categoria em que o sobrenatural é aceito como parte do mundo narrado, sem hesitação.
Mundo secundário
Expressão de J. R. R. Tolkien para um universo imaginário internamente coerente.
Sobrenatural
Tudo o que se coloca fora das leis conhecidas da natureza.
Origem
O marco costuma ser O Castelo de Otranto, de Horace Walpole, de 1764, que inaugurou o romance gótico, com castelos, maldições e aparições. A tradição foi continuada por Ann Radcliffe e Matthew Lewis, e depois por Mary Shelley, Edgar Allan Poe e Bram Stoker, autor de Drácula (1897). Na Alemanha, E. T. A. Hoffmann escreveu contos em que o real e o onírico se confundem. Na França, Charles Nodier e Théophile Gautier cultivaram o conto fantástico.
O século XIX viu também a literatura fantástica voltar-se à infância e ao nonsense: Lewis Carroll publicou As Aventuras de Alice no País das Maravilhas em 1865. A literatura tradicional, como os contos de fadas, forneceu repertório de motivos, e a fantasia moderna nasceu em parte da releitura dessas tradições por autores como William Morris e George MacDonald.
No século XX, a crítica passou a tratar o fantástico com mais seriedade. Além de Todorov, estudiosos como Irène Bessière e Rosemary Jackson discutiram o gênero em relação à psicanálise e à política, e H. P. Lovecraft, em O Horror Sobrenatural na Literatura, texto redigido em 1927, ofereceu um panorama histórico do tema a partir da perspectiva do terror.
Características
No fantástico estrito, a narrativa é construída para manter a ambiguidade. O narrador costuma ser de primeira pessoa, com testemunho duvidoso, e o texto apoia-se em detalhes realistas para dar credibilidade ao inexplicável. Em A Metamorfose, de Franz Kafka (1915), um homem acorda transformado em inseto, e o relato trata o fato com sobriedade, o que cria o efeito de estranheza.
Na fantasia de mundo secundário, o essencial é a coerência do universo criado, com geografia, línguas, história e sistemas de magia. Tolkien discutiu essa ideia na conferência “Sobre Histórias de Fadas”, proferida em 1939 e publicada em 1947. A literatura fantástica frequentemente opera com símbolos e metáforas, e tem sido usada para discutir poder, morte, identidade e desejo.
Evolução
No século XX, o fantástico alcançou prestígio na América Latina. Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Julio Cortázar renovaram a forma em contos que questionam o tempo, a identidade e a realidade. O Hobbit (1937) e O Senhor dos Anéis (1954–55), de Tolkien, estabeleceram o modelo da alta fantasia, e as Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis, ampliaram o público. Mais tarde, Ursula K. Le Guin, com a série Terramar, e outros autores diversificaram o campo.
No Brasil, Murilo Rubião, estreante com O Ex-Mágico (1947), e J. J. Veiga, autor de A Hora dos Ruminantes (1966), cultivaram um fantástico de tom absurdo e cotidiano. A literatura de fantasia teve forte expansão editorial nas décadas de 1990 e 2000, com sagas juvenis e adultas de enorme sucesso global.
A fantasia contemporânea também se tornou um fenômeno editorial e cultural, com séries de grande alcance, adaptações audiovisuais, jogos de interpretação e comunidades de fãs. Ao mesmo tempo, autores de diferentes tradições, da África, da Ásia e da América Latina, têm recuperado mitologias locais e ampliado o repertório do gênero, antes muito marcado por modelos europeus.
Subgêneros
O campo inclui o gótico, o terror sobrenatural, a alta fantasia (em mundos secundários), a fantasia heroica (espada e feitiçaria), a fantasia urbana, a fantasia sombria e a fábula moderna. O realismo mágico, ligado a Gabriel García Márquez e a outros autores latino-americanos, apresenta o extraordinário como parte natural da vida. O realismo fantástico e o absurdo kafkiano são vizinhos, mas não idênticos.
Há ainda o conto de fadas, o maravilhoso infantil e as reescritas contemporâneas de mitos. Cada vertente tem suas convenções de leitura, e a mesma obra pode ser lida de mais de um modo.
Na prática editorial, livrarias e prêmios costumam agrupar tudo isso sob rótulos amplos como fantasia ou ficção especulativa, o que facilita a divulgação, mas apaga diferenças importantes entre uma narrativa de ambiguidade como as de Henry James e uma saga de mundo secundário como as de Tolkien.
Diferenças em relação a gêneros próximos
Em relação à ficção científica, a literatura fantástica não precisa de justificativa racional para o impossível: a magia basta. O terror pode usar o fantástico, mas é definido pelo efeito de medo; a literatura fantástica pode ser lírica, humorística ou filosófica. O realismo mágico distingue-se por tratar o extraordinário sem estranheza, enquanto no fantástico de Todorov a hesitação é essencial.
A tipologia de Todorov distingue o estranho, o fantástico e o maravilhoso, conforme a explicação final dos eventos. Críticos posteriores questionaram o rigor da divisão, mas ela permanece ponto de partida do debate acadêmico.
Estranho × Fantástico × Maravilhoso (tipologia de Todorov)
| Critério | Estranho | Fantástico | Maravilhoso |
|---|---|---|---|
| Natureza dos eventos | Parecem sobrenaturais, mas têm explicação racional | Permanecem ambíguos | O sobrenatural é aceito |
| Reação do leitor | Alívio ou perplexidade, depois explicação | Hesitação sustentada | Aceitação do mundo narrado |
| Resolução final | Natural | Nenhuma explicação definitiva | Sobrenatural |
| Exemplo de tradição | Certos contos de Poe | Contos de Hoffmann e Henry James | Contos de fadas e narrativas de fantasia |
| Papel do real | Confirmado ao fim | Posto em dúvida | Reorganizado por leis próprias |
Cronologia
- 1764Horace Walpole publica O Castelo de Otranto.
- 1865Lewis Carroll publica Alice no País das Maravilhas.
- 1897Bram Stoker publica Drácula.
- 1915Kafka publica A Metamorfose.
- 1937Tolkien publica O Hobbit.
- 1970Todorov publica a Introdução à Literatura Fantástica.
Curiosidades verificáveis
- O Castelo de Otranto foi apresentado na primeira edição, em 1764, como tradução de um manuscrito italiano antigo; Walpole só assumiu a autoria na segunda edição.
- A Metamorfose de Kafka foi publicada em 1915, e o inseto nunca é descrito com precisão no texto original.
- Tolkien começou O Hobbit como história para os filhos, publicada em 1937.
- O Ex-Mágico, de Murilo Rubião, reúne contos em que o absurdo irrompe sem explicação, e o absurdo aparece ali sem explicação.
Termos relacionados
- Gótico
- Tradição de narrativas de mistério, ruína e terror surgida no século XVIII.
- Alta fantasia
- Fantasia ambientada em mundos inteiramente imaginários.
- Fantasia urbana
- Fantasia ambientada em cidades contemporâneas.
- Nonsense
- Literatura do absurdo lúdico, como a de Lewis Carroll.
- Realismo mágico
- Estilo que trata o extraordinário como natural no cotidiano.
- Metamorfose
- Transformação de um ser em outro, tema recorrente na literatura fantástica.
Leituras internas
Gêneros literários
Ficção científica
Ficção que explora consequências de mudanças científicas e tecnológicas e do futuro; de Frankenstein e Júlio Verne ao ciberpunk e à ficção especulativa.
GêneroSéculo XIX
Gêneros literários
Conto
Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.
GêneroVários períodos
Gêneros literários
Romance
Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.
GêneroVários períodos
Movimentos e períodos literários
Realismo mágico e o boom latino-americano
O realismo mágico e o boom projetaram a narrativa latino-americana nos anos 1960 e 1970, com García Márquez, Cortázar, Fuentes e Vargas Llosa.
MovimentoSéculo XX
Movimentos e períodos literários
Romantismo
Movimento do fim do século XVIII e do XIX que valorizou emoção, individualidade, natureza e identidade nacional, de Goethe e Byron a Alencar e Castro Alves.
MovimentoSéculo XIX
Gêneros literários
Epopeia
Longo poema narrativo em verso que celebra feitos heroicos e a identidade de um povo, da Ilíada e da Odisseia a Os Lusíadas e à épica moderna.
GêneroAntiguidade
Referências
- Tzvetan Todorov. Introdução à Literatura Fantástica (Introduction à la littérature fantastique), 1970.
- J. R. R. Tolkien. “On Fairy-Stories”, conferência de 1939, publicada em 1947.
- Rosemary Jackson. Fantasy: The Literature of Subversion, 1981.
- Farah Mendlesohn. Rhetorics of Fantasy. Wesleyan University Press, 2008.
- Encyclopaedia Britannica. Verbete “Fantasy”.
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