Ficção científica
Ficção que explora consequências de mudanças científicas e tecnológicas e do futuro; de Frankenstein e Júlio Verne ao ciberpunk e à ficção especulativa.
Contextualização histórica
A ficção científica é um gênero que especula sobre os efeitos de ciência, tecnologia e mudanças sociais, imaginando mundos distintos do real a partir de uma lógica que se pretende racional. Seu cenário pode ser o futuro, outros planetas ou realidades alternativas; sua pergunta central costuma ser “e se?”. O que a distingue da fantasia é, em geral, a justificativa que se apresenta como plausível dentro do universo científico, ainda que hipotética.
O gênero é produto da era industrial, em que a ciência e a técnica mudaram a vida cotidiana e levantaram esperanças e temores. Seus precedentes, porém, são mais antigos. Narrativas de viagens à Lua e a mundos imaginários circulam desde a Antiguidade, como a História Verdadeira, de Luciano de Samósata, do século II d.C. A questão de quando exatamente nasce a ficção científica é disputada, e a resposta depende do critério adotado pelo crítico.
Conceitos essenciais
Novum
Termo do crítico Darko Suvin para a novidade cognitiva, tecnológica ou social que estrutura a narrativa de ficção científica.
Estranhamento cognitivo
Ideia de Suvin de que o gênero cria um mundo estranho, mas explicável por lógica racional.
Distopia
Sociedade imaginária marcada por opressão, controle ou degradação, que serve de advertência sobre tendências do presente.
Ucronia
História alternativa em que um evento passado teve resultado diferente do real.
Ficção especulativa
Termo amplo que abrange ficção científica, fantasia e gêneros afins.
Origem
Muitos críticos, entre eles Brian Aldiss, apontam Frankenstein, de Mary Shelley, publicado em 1818, como o primeiro romance de ficção científica, por tratar de uma criação científica e de suas consequências morais. No século XIX, Júlio Verne, autor de Viagem ao Centro da Terra (1864) e Vinte Mil Léguas Submarinas (1870), popularizou o romance de aventuras científicas na França. Na Inglaterra, H. G. Wells publicou A Máquina do Tempo (1895) e A Guerra dos Mundos (1898), que exploravam viagem no tempo e invasão extraterrestre com forte carga social.
O termo “scientifiction” foi usado por Hugo Gernsback na revista Amazing Stories, lançada em 1926, e aos poucos cedeu lugar a “science fiction”. As revistas pulp norte-americanas dos anos 1920 e 1930 criaram um público fiel e uma comunidade de leitores e autores.
Características
A ficção científica constrói mundos coerentes, nos quais um elemento novo, como uma máquina, uma descoberta biológica, um contato alienígena ou uma mudança política, produz efeitos em cadeia. Costuma haver forte atenção à ambientação, à construção de universo (worldbuilding) e à explicação, ainda que simbólica, de como as coisas funcionam. As personagens muitas vezes representam tipos sociais ou posições éticas diante do novo.
Outro traço é a função crítica: ao deslocar a ação para o futuro ou para outro mundo, o gênero permite discutir temas contemporâneos, como guerra, colonialismo, poder, gênero, ecologia e inteligência artificial, com distanciamento. Exemplos muito citados são Fahrenheit 451 (Ray Bradbury, 1953), sobre censura, e A Mão Esquerda da Escuridão (Ursula K. Le Guin, 1969), sobre gênero e sociedade.
Há quem defenda que o gênero se define mais por um modo de ler do que por temas fixos. Por isso, obras de autores que não se identificam com o rótulo, como Margaret Atwood, em O Conto da Aia (1985), costumam ser discutidas na fronteira entre ficção científica e literatura geral, e a escolha do nome revela mais sobre quem fala do que sobre o texto.
Evolução
A chamada Era de Ouro, entre os anos 1930 e 1950, é associada à revista Astounding Science Fiction, dirigida por John W. Campbell a partir de 1937, e a autores como Isaac Asimov, Robert A. Heinlein e Arthur C. Clarke. Nos anos 1960, a Nova Onda (New Wave), ligada à revista britânica New Worlds, privilegiou o experimentalismo literário e temas psicológicos e sociais. Stanisław Lem, com Solaris (1961), e Frank Herbert, com Duna (1965), ampliaram o alcance do gênero.
Em 1984, William Gibson publicou Neuromancer, marco do ciberpunk, que combinava tecnologia de informação com atmosfera sombria. No Brasil, o gênero tem raízes no século XIX e na primeira metade do XX; André Carneiro destacou-se com Diário da Nave Perdida (1963), e nomes posteriores consolidaram uma produção contínua, muitas vezes com temas locais.
Nas décadas seguintes, a ficção científica ganhou espaço também no cinema e na televisão. Obras literárias foram adaptadas, e o gênero influenciou a imaginação científica e tecnológica do público em geral. Ao mesmo tempo, passou a contar com premiações próprias, como o Hugo, criado em homenagem a Gernsback e entregue desde 1953, e o Nebula, instituído em 1965 pelos autores norte-americanos de ficção científica.
Subgêneros
Costuma-se dividir o gênero em ficção científica hard, que prioriza o rigor das ciências físicas, e soft, que dá mais peso às ciências humanas e sociais. A space opera dramatiza conflitos épicos no espaço. A distopia, representada por Nós (Ievguêni Zamiátin, escrito em 1920–21), Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley, 1932) e 1984 (George Orwell, 1949), imagina sociedades opressivas. O ciberpunk lida com redes e corporações; o steampunk, com tecnologia a vapor em cenários vitorianos alternativos.
Há ainda a ficção pós-apocalíptica, a ucronia, a ficção de primeiro contato e o afrofuturismo, termo surgido nos anos 1990 para obras que unem ficção científica e experiência da diáspora africana.
Diferenças em relação a gêneros próximos
A fantasia, ou literatura fantástica em sentido amplo, aceita o sobrenatural sem explicação científica: magia, criaturas míticas e mundos encantados. Na ficção científica, ainda que o fenômeno seja improvável, sua justificativa apela a ciência, tecnologia ou lógica especulativa. A fronteira é porosa: obras como As Crônicas Marcianas, de Bradbury, ou a série Star Wars misturam elementos de ambos.
Em relação ao romance policial, que se organiza em torno da resolução de um crime, a ficção científica organiza-se em torno do impacto de uma novidade sobre mundo e personagens. Com o terror, partilha o interesse pelo desconhecido, mas o terror busca o medo, enquanto a ficção científica busca a especulação.
Ficção científica × Fantasia × Terror
| Critério | Ficção científica | Fantasia | Terror |
|---|---|---|---|
| Base do elemento irreal | Ciência, tecnologia ou especulação racional | Magia e mundos encantados | Sobrenatural ou monstruoso |
| Pergunta central | E se a realidade mudasse? | E se existisse um mundo mágico? | O que ameaça a segurança? |
| Efeito buscado | Estranhamento e reflexão | Encantamento e aventura | Medo e tensão |
| Marcos | Frankenstein, Wells, Verne | Tolkien, Carroll | Poe, Stoker |
| Cenário típico | Futuro, espaço, outras realidades | Reinos imaginários | Casas, cidades e lugares sinistros |
Cronologia
- c. séc. II d.C.Luciano de Samósata escreve a História Verdadeira, com viagem à Lua.
- 1818Mary Shelley publica Frankenstein.
- 1864Verne publica Viagem ao Centro da Terra.
- 1895H. G. Wells publica A Máquina do Tempo.
- 1926Hugo Gernsback lança Amazing Stories.
- 1984Neuromancer, de William Gibson, populariza o ciberpunk.
Curiosidades verificáveis
- Frankenstein foi publicado anonimamente em 1818, e o nome de Mary Shelley só aparece na segunda edição, em 1823.
- O termo “robô” entrou no vocabulário mundial com a peça R.U.R., do tcheco Karel Čapek, estreada em 1921.
- Herbert escreveu Duna a partir de pesquisas ecológicas; o livro foi rejeitado por várias editoras antes de ser publicado em 1965.
- 1984, de Orwell, foi publicado em 1949 e deu origem a expressões como “Grande Irmão”.
Termos relacionados
- Space opera
- Subgênero de aventuras épicas no espaço sideral.
- Worldbuilding
- Construção detalhada de um universo ficcional, com regras, história e cultura.
- Pulp
- Revistas populares impressas em papel barato, comuns nas primeiras décadas do século XX.
- Ciberpunk
- Subgênero que combina alta tecnologia e degradação social.
- Steampunk
- Subgênero que imagina tecnologia a vapor avançada em ambientes vitorianos.
- Primeiro contato
- Enredo em que humanos encontram uma inteligência extraterrestre.
Leituras internas
Gêneros literários
Literatura fantástica
Conjunto de narrativas em que o sobrenatural irrompe no real ou cria mundos imaginários, do romance gótico a Kafka, Borges, Tolkien e à fantasia contemporânea.
GêneroVários períodos
Gêneros literários
Romance
Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.
GêneroVários períodos
Gêneros literários
Romance policial
Narrativa organizada em torno de um crime e de sua investigação, que nasceu no século XIX com Poe e se desdobrou em enigma, hard-boiled e thriller.
GêneroSéculo XIX
Gêneros literários
Conto
Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.
GêneroVários períodos
Curiosidades do mundo dos livros
Best-sellers e listas de mais vendidos
Como surgiram as listas de mais vendidos, o que elas realmente medem e por que as estimativas de vendas históricas devem ser lidas com cautela.
ConceitoSéculo XX
Referências
- Brian W. Aldiss. Billion Year Spree: The True History of Science Fiction, 1973.
- Adam Roberts. The History of Science Fiction. Palgrave Macmillan, 2006.
- Darko Suvin. Metamorphoses of Science Fiction. Yale University Press, 1979.
- Edward James e Farah Mendlesohn (orgs.). The Cambridge Companion to Science Fiction, 2003.
- Encyclopaedia Britannica. Verbete “Science fiction”.
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