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História do livro e da leitura

Da leitura em voz alta à leitura silenciosa

A leitura silenciosa não surgiu de uma vez. Veja como a pontuação, os espaços entre palavras e o aumento do público leitor mudaram o modo de ler.

  • TipoConceito
  • PeríodoVários períodos
  • PaísesGlobal, Itália, Irlanda, Cuba
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

Hoje, ler costuma ser uma atividade silenciosa e individual. Durante muito tempo, porém, a leitura em voz alta, para si ou para um grupo, foi uma prática muito comum. Na Antiguidade, textos eram frequentemente declamados em recitações públicas, em banquetes e em escolas, e o escrito funcionava como um apoio à oralidade. Estudiosos da história da leitura, como Alberto Manguel e Roger Chartier, mostram que as maneiras de ler variam conforme a época, o suporte, o ambiente e o grupo social.

A história não é a de uma passagem simples e linear da voz ao silêncio. Existem testemunhos de leitura silenciosa na Antiguidade, e a leitura em voz alta persistiu durante todo o período moderno. O que se percebe é uma mudança de predominância, apoiada por transformações materiais, como a separação de palavras, a pontuação, o formato do códice e, mais tarde, o barateamento do livro impresso. O debate entre especialistas sobre datas e extensão dessas mudanças continua aberto.

Conceitos essenciais

Leitura em voz alta

Leitura em que o texto é pronunciado, para si ou para ouvintes, prática dominante em muitos contextos antigos e medievais.

Leitura silenciosa

Leitura feita sem pronunciar o texto, de modo individual e interior.

Scriptio continua

Escrita sem espaços entre palavras, que tornava a leitura mais exigente e frequentemente oralizada.

Lectio divina

Prática monástica de leitura meditada de textos sagrados, com repetição e reflexão.

A Antiguidade

Na Grécia e em Roma, ler era em grande parte um ato sonoro. Os textos eram escritos em scriptio continua, sem espaços entre palavras, o que exigia que o leitor reconhecesse as unidades de sentido, e ler em voz alta ajudava nessa tarefa. Escritores recitavam suas obras diante de amigos e do público, e escravos letrados, os lectores, liam para seus senhores. Mesmo quando um indivíduo lia sozinho, é provável que costumasse murmurar o texto.

O estudioso Bernard Knox, em artigo de 1968, mostrou, contudo, que a leitura silenciosa já era conhecida na Antiguidade, com exemplos em textos gregos. A passagem mais citada sobre o tema vem das Confissões de Agostinho de Hipona, escritas no final do século IV, em que ele conta ter observado Ambrósio, bispo de Milão, lendo sem mover a voz nem os lábios, e registra seu espanto. A cena indica que o hábito era notável, mas não impossível; as interpretações do trecho continuam divergentes.

O mundo monástico e a separação de palavras

Na Idade Média, a leitura monástica combinava a audição e a meditação. A Regra de São Bento, do século VI, organiza horas de leitura e prevê que, nas refeições, um monge leia em voz alta para os demais. A lectio divina envolvia ler, repetir e memorizar passagens, um processo muitas vezes descrito como “ruminar” o texto.

A partir do século VII, monges das ilhas britânicas e irlandesas, para quem o latim era língua aprendida, passaram a separar as palavras por espaços, o que facilitou a leitura de textos estrangeiros. Paul Saenger, em estudo de 1997, sustenta que essa mudança foi decisiva para a difusão da leitura silenciosa, que se tornou mais comum nos scriptoria e nas universidades dos séculos XII e XIII, onde o estudo individual e a consulta de textos passaram a ter mais peso. A pontuação, os títulos, as iniciais e os índices ajudaram a organizar a página.

Imprensa, alfabetização e novos leitores

Com a imprensa de tipos móveis, o livro passou a custar menos, e os leitores multiplicaram-se, ainda que a alfabetização variasse muito entre regiões, gêneros e classes. Formatos menores, como o in-oitavo, facilitaram o transporte e a leitura individual. Livros de devoção, almanaques, romances e jornais criaram novos públicos, entre eles mulheres, comerciantes e artesãos.

O historiador Rolf Engelsing propôs que, no século XVIII, teria ocorrido uma “revolução da leitura” na Alemanha, em que a leitura intensiva de poucos livros, relidos várias vezes, cedeu lugar à leitura extensiva de muitos textos. A tese é discutida e considerada simplificadora por outros autores, mas aponta mudanças reais na circulação de impressos, como as sociedades de leitura e as bibliotecas de empréstimo.

Sobrevivências e retornos da voz

A leitura em voz alta nunca desapareceu. No século XIX, era comum ler romances em serões familiares. Em Cuba, a partir de meados desse século, os “lectores” passaram a ler jornais e romances para operários em fábricas de charutos, enquanto estes trabalhavam, uma prática que durou décadas e é bem documentada. Na escola, a leitura em voz alta continua sendo método de alfabetização.

No século XX e XXI, o audiolivro e os podcasts reabilitam a escuta como forma de acesso ao texto, e a leitura em voz alta de histórias para crianças é considerada importante pela pedagogia. A história da leitura mostra, assim, uma convivência de modos de ler, em que o silêncio e a voz cumprem funções diferentes.

Implicações para a escrita e o livro

As formas de ler influenciaram a forma de escrever. Textos pensados para serem ouvidos apelam a ritmos, repetições e fórmulas fáceis de memorizar, o que é perceptível em poemas épicos e em sermões. À medida que a leitura individual e silenciosa se difundiu, tornaram-se mais viáveis estruturas complexas, argumentos longos, notas de rodapé e referências cruzadas, pois o leitor podia parar, voltar e comparar passagens.

A leitura silenciosa também abriu espaço para maior privacidade e para a leitura de textos considerados problemáticos pelas autoridades, o que alimentou, em diferentes épocas, preocupações com controle e censura. Ao mesmo tempo, bibliotecas, salas de leitura e, depois, a escola pública criaram ambientes próprios para a leitura individual, e o livro de bolso e o romance popular ampliaram o hábito entre grupos antes pouco alcançados pelo impresso. Os historiadores da leitura lembram, por fim, que as fontes são em geral escritas por leitores letrados, de modo que as práticas de camadas populares, em grande parte orais, deixaram menos vestígios.

Cronologia

  1. c. 380Agostinho, nas Confissões, registra a leitura silenciosa de Ambrósio em Milão.
  2. Século VIA Regra de São Bento prevê leitura em voz alta nas refeições monásticas.
  3. Século VIIMonges irlandeses difundem a separação de palavras por espaços.
  4. Séculos XII e XIIIUniversidades ampliam o estudo individual e a consulta de textos.
  5. c. 1455A imprensa de tipos móveis amplia o acesso aos livros.
  6. Século XIXLeitores profissionais passam a atuar em fábricas de charutos de Cuba.

Curiosidades verificáveis

  • Em suas Confissões, Agostinho comenta que Ambrósio lia em silêncio, sem mover a voz e a língua, e especula sobre os motivos, entre eles poupar a voz ou evitar perguntas de ouvintes.
  • Os monges irlandeses, ao aprender latim como língua estrangeira, estiveram entre os primeiros a adotar o espaço entre palavras de forma sistemática.
  • Nas fábricas de charutos de Cuba, os operários chegavam a escolher as obras lidas pelo leitor; o romance O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, é associado a essa tradição, e uma marca de charutos adotou seu nome.
  • Em latim, a palavra “lector” designava tanto o leitor quanto o escravo ou profissional encarregado de ler em voz alta.

Termos relacionados

Lector
Em Roma, escravo ou profissional que lia em voz alta para outras pessoas.
Pontuação
Sinais gráficos que indicam pausas e estruturas do texto.
Leitura intensiva
Leitura repetida de poucos textos, frequentemente religiosos, em geral associada ao passado.
Leitura extensiva
Leitura de grande número de textos diferentes, associada ao crescimento do mercado do impresso.
Oralidade
Predomínio da fala na transmissão de textos e saberes.
Ruminatio
Prática monástica de repetir mentalmente ou em voz baixa passagens lidas, para assimilá-las.

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Referências

  • Manguel, Alberto. Uma História da Leitura (A History of Reading). 1996.
  • Saenger, Paul. Space Between Words: The Origins of Silent Reading. Stanford University Press, 1997.
  • Knox, Bernard M. W. Silent Reading in Antiquity. Greek, Roman and Byzantine Studies, 1968.
  • Cavallo, Guglielmo; Chartier, Roger (orgs.). História da Leitura no Mundo Ocidental.
  • Encyclopaedia Britannica. Verbetes sobre história da leitura e da escrita.

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