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Gêneros literários

Epopeia

Longo poema narrativo em verso que celebra feitos heroicos e a identidade de um povo, da Ilíada e da Odisseia a Os Lusíadas e à épica moderna.

  • TipoGênero
  • PeríodoAntiguidade
  • PaísesGrécia, Índia, Itália, Portugal, Global
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

A epopeia, ou poema épico, é um longo poema narrativo em verso que conta as façanhas de um herói ou de uma comunidade, em tom elevado e com a presença do maravilhoso. Seus assuntos são guerras, viagens, fundações de cidades, conflitos com os deuses e provações que definem o destino coletivo. Mais do que entreter, a epopeia fixava uma memória compartilhada, valores e modelos de conduta.

Foi em grande parte um gênero de tradição oral antes de ser texto escrito. Poetas profissionais cantavam ou recitavam os versos diante de públicos, apoiados em fórmulas métricas e narrativas memorizadas. Esse caráter oral deixou marcas duradouras: epítetos fixos, repetições e estruturas ritmadas. Quando as epopeias passaram a ser fixadas por escrito, tornaram-se também alicerces da cultura literária de grandes civilizações.

Conceitos essenciais

In medias res

Começar a narração no meio da ação, recuperando depois os antecedentes; recurso clássico da epopeia.

Invocação

Pedido inicial de inspiração à musa ou a uma divindade para cantar o assunto do poema.

Epíteto

Adjetivo ou expressão fixa que acompanha um nome, como “Aquiles de pés ligeiros”.

Maravilhoso

Intervenção de deuses ou forças sobrenaturais na ação humana, comum na épica.

Fórmula oral

Unidade de expressão repetida que ajuda o poeta a compor e memorizar versos durante a performance.

Origem

A epopeia mais antiga que se conhece é a de Gilgamesh, da Mesopotâmia. Poemas sumérios sobre o rei de Uruk datam de cerca de 2100 a.C., e a versão babilônica mais completa, em acádio, é geralmente associada ao escriba Sîn-lēqi-unninni, por volta de 1200 a.C. Na Grécia, a Ilíada e a Odisseia, tradicionalmente atribuídas a Homero, foram fixadas por volta do século VIII a.C., após gerações de composição oral.

Na Índia surgiram o Mahabharata e o Ramayana, textos de grandes proporções cuja composição se estendeu por muitos séculos. Em Roma, Virgílio compôs a Eneida entre cerca de 29 e 19 a.C., imitando conscientemente os modelos homéricos e ao mesmo tempo celebrando a origem de Roma e a ordem imperial de Augusto.

O prestígio das epopeias fez delas matéria de ensino. Na Grécia antiga, a Ilíada e a Odisseia faziam parte da educação básica, e em Roma a Eneida foi estudada durante séculos nas escolas. Na Alexandria helenística, filólogos como Aristarco de Samotrácia editaram e comentaram os poemas homéricos, em trabalho ligado à Biblioteca de Alexandria, o que ajudou a fixar o texto que chegou até hoje.

Características

A epopeia clássica obedece a um conjunto de convenções. Começa com proposição do assunto e invocação à musa, tem um herói que condensa virtudes de sua comunidade, usa o verso longo, como o hexâmetro datílico no grego e no latim, e inclui catálogos de guerreiros e navios, descrições de armas, discursos e assembleias. A ação é entrecortada por intervenções divinas e por episódios de viagem ao mundo dos mortos.

Aristóteles, na Poética, tratou a epopeia como imitação de ações elevadas em verso narrativo e a comparou com a tragédia, destacando sua maior extensão e a possibilidade de narrar vários acontecimentos simultâneos. A teoria oral-formulaica, desenvolvida por Milman Parry e Albert Lord (The Singer of Tales, 1960), mostrou que os poetas compunham durante a performance, combinando fórmulas fixas.

Evolução

Na Idade Média, floresceram epopeias nas línguas vernáculas: Beowulf, em inglês antigo, a Canção de Rolando, em francês antigo, o Cantar de Mio Cid, em castelhano, e os Nibelungos, em alto-alemão médio, por volta de 1200. O Renascimento retomou a forma clássica com Orlando Furioso (Ariosto, 1516), Jerusalém Libertada (Tasso, 1581) e Os Lusíadas (Camões, 1572), que celebra a viagem de Vasco da Gama e o percurso português. Na Inglaterra, John Milton publicou o Paraíso Perdido em 1667.

Com o triunfo do romance, a epopeia perdeu centralidade, mas deixou herança. No Brasil, O Uraguai (Basílio da Gama, 1769) e Caramuru (Frei José de Santa Rita Durão, 1781) adaptam a tradição épica a temas coloniais. No século XX, Ezra Pound, com os Cantos, e Derek Walcott, em Omeros (1990), reinterpretaram o modelo. Elementos épicos migraram também para o cinema, as histórias em quadrinhos e a fantasia moderna.

Entre os séculos XVI e XVIII, a epopeia foi considerada por muitos teóricos o gênero mais elevado, e escrever uma delas era sinal de ambição literária e, não raro, de projeto nacional. Esse prestígio teórico, porém, coexistiu com o declínio prático: no século XIX, o poema longo de caráter épico cedeu lugar ao romance como principal forma narrativa.

Subgêneros

Costuma-se distinguir a epopeia primária, de tradição oral e de autoria coletiva ou incerta, como a Ilíada e Gilgamesh, da epopeia secundária, composta por autor identificado em consciente diálogo com tradições anteriores, como a Eneida e Os Lusíadas. Há a épica heroica, de guerra e de viagem, e a épica de fundação, que narra a origem de um povo.

Existem ainda as formas paródicas, como a épica heroico-cômica: A Batracomiomaquia, texto antigo de autoria incerta, e O Rapto da Madeixa, de Alexander Pope (1712), aplicam o tom elevado a temas banais. A épica religiosa, de que o Paraíso Perdido é exemplo, adapta temas sagrados ao modelo clássico.

Diferenças em relação a gêneros próximos

Em relação ao romance, a epopeia é em verso, trata de uma coletividade e de um passado exemplar e distante, e mantém uma relação reverente com a tradição. Já o romance trata de indivíduos no tempo presente, em prosa. Bakhtin e Lukács viram o romance como herdeiro problemático da epopeia numa época em que o sentido do mundo já não é dado.

Diante da tragédia, também em verso e também ligada a mitos, a epopeia é narrada, e não encenada, e abrange um tempo mais longo. Diante da poesia lírica, que exprime a subjetividade de um eu, a épica volta-se a ações externas e a uma voz de narrador.

Epopeia × Tragédia × Romance

CritérioEpopeiaTragédiaRomance
FormaVerso narrativoVerso dramáticoProsa
ModoNarradoEncenadoNarrado
ProtagonistaHerói exemplar ligado a um povoFigura nobre em conflito com o destinoIndivíduo em sociedade
Presença do sobrenaturalFrequente, com deuses atuantesPresente, como destino e oráculoVariável, em geral reduzida
OrigemTradição oral antigaAtenas, séculos VI a V a.C.Europa moderna

Cronologia

  1. c. 2100 a.C.Poemas sumérios sobre Gilgamesh, base das versões posteriores.
  2. c. séc. VIII a.C.Fixação tradicional da Ilíada e da Odisseia.
  3. c. 29–19 a.C.Virgílio compõe a Eneida.
  4. 1572Publicação de Os Lusíadas, de Camões.
  5. 1667Primeira edição do Paraíso Perdido, de Milton.
  6. 1769Basílio da Gama publica O Uraguai.

Curiosidades verificáveis

  • A Epopeia de Gilgamesh só foi redescoberta no século XIX, quando tabletes de argila da biblioteca de Assurbanípal, em Nínive, foram decifrados.
  • Os Lusíadas foram publicados em 1572 e têm dez cantos, em estrofes de oito versos decassílabos.
  • A questão homérica, debate sobre a autoria e a composição da Ilíada e da Odisseia, ocupa estudiosos desde a Antiguidade.
  • O Mahabharata é frequentemente descrito como um dos mais longos poemas já compostos, com cerca de cem mil dísticos na tradição.

Termos relacionados

Hexâmetro datílico
Verso de seis pés usado na épica grega e latina.
Canto
Divisão de um poema épico, equivalente a um capítulo.
Aedo
Poeta e cantor da Grécia arcaica que recitava epopeias.
Rapsodo
Recitador profissional de poemas homéricos na Grécia antiga.
Catábase
Descida de um herói ao mundo dos mortos.
Decassílabo
Verso de dez sílabas, usado em Os Lusíadas.

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Leituras internas

Gêneros literários

Romance

Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.

GêneroVários períodos

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Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.

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ObjetoAntiguidade

Referências

  • Aristóteles. Poética.
  • Albert B. Lord. The Singer of Tales. Harvard University Press, 1960.
  • C. M. Bowra. From Virgil to Milton, 1945.
  • Mikhail Bakhtin. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance.
  • Encyclopaedia Britannica. Verbete “Epic”.

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