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Movimentos e períodos literários

Realismo mágico e o boom latino-americano

O realismo mágico e o boom projetaram a narrativa latino-americana nos anos 1960 e 1970, com García Márquez, Cortázar, Fuentes e Vargas Llosa.

  • TipoMovimento
  • PeríodoSéculo XX
  • PaísesColômbia, Argentina, México, Peru, Cuba
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

Boom latino-americano é o nome dado ao fenômeno editorial e literário que, nos anos 1960 e 1970, tornou conhecidos em todo o mundo romancistas da América Latina. Realismo mágico, por sua vez, designa uma tendência estética em que o sobrenatural ou o improvável aparece naturalizado dentro de um enredo de aparência realista. Os dois conceitos se sobrepõem, mas não são idênticos: nem todo autor do boom escreveu realismo mágico, e esse modo narrativo existiu antes e depois daquele período.

A expressão “realismo mágico” foi usada em 1925 pelo crítico alemão Franz Roh para descrever uma tendência da pintura pós-expressionista. Na literatura, ganhou sentidos próprios. O cubano Alejo Carpentier propôs, no prólogo de O reino deste mundo, de 1949, a noção de “real maravilhoso” americano, e o venezuelano Arturo Uslar Pietri empregou o termo para a narrativa hispano-americana em 1948. O uso moderno consolidou-se depois do sucesso de Cem anos de solidão.

Conceitos essenciais

Real maravilhoso

Conceito de Carpentier segundo o qual a própria realidade americana, com sua história e mistura cultural, já é maravilhosa.

Realismo mágico

Modo narrativo que trata o extraordinário como parte natural do cotidiano, sem estranhamento do narrador.

Boom

Fenômeno de difusão internacional de romancistas latino-americanos a partir dos anos 1960.

Romance total

Ambição de abarcar uma sociedade inteira, em múltiplos planos, numa só obra.

Antecedentes

Antes do boom, escritores latino-americanos já renovavam a ficção. Jorge Luis Borges publicou Ficciones em 1944, reunindo contos que exploram labirintos, bibliotecas e paradoxos. Miguel Ángel Asturias, autor de Lendas da Guatemala (1930) e de Homens de milho (1949), levou mitos indígenas à prosa moderna e recebeu o Nobel de Literatura em 1967. Juan Rulfo publicou Pedro Páramo em 1955, romance de estrutura fragmentária sobre um povoado habitado por vozes de mortos.

No Brasil, Guimarães Rosa, com Grande sertão: veredas (1956), dialoga por afinidade com essas buscas, embora os estudiosos discutam sua inclusão no conjunto. As relações entre as literaturas de língua portuguesa e espanhola na América ainda eram, porém, limitadas na época.

Os contos do argentino Borges, sobretudo, mostraram que a ficção latino-americana podia dialogar com a filosofia, a matemática e a teologia, e serviram de ponte entre o ensaio e a narrativa.

O boom

O núcleo do boom costuma ser formado por Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez. Fuentes publicou A morte de Artemio Cruz em 1962; Vargas Llosa lançou A cidade e os cachorros em 1963, que recebeu o Prêmio Biblioteca Breve, da editora Seix Barral; Cortázar publicou O jogo da amarelinha também em 1963, romance cuja estrutura permite leituras em ordens diferentes. José Donoso, chileno, é frequentemente incluído, e escreveu uma Historia personal del boom, publicada em 1972.

A consagração veio com Cem anos de solidão, de García Márquez, publicado em Buenos Aires pela Editorial Sudamericana em 1967. A obra narra a história da família Buendía na cidade imaginária de Macondo, e seu sucesso internacional, em dezenas de línguas, é um dos símbolos do período. García Márquez recebeu o Nobel em 1982.

A Argentina e o Uruguai, com suas editoras, e o México, com o Fondo de Cultura Económica, fundado em 1934, ofereceram a infraestrutura para a circulação de livros em espanhol. A Espanha franquista, por sua vez, impunha censura, o que levou alguns autores a publicar em Buenos Aires ou na cidade do México antes de chegar ao mercado espanhol.

Mercado editorial e política

O boom foi também um fenômeno de mercado. Editoras de Buenos Aires, México, Barcelona e outras cidades ampliaram circulação e tradução, e a agente literária Carmen Balcells, em Barcelona, tornou-se figura central na profissionalização da carreira de vários autores. Prêmios como o Biblioteca Breve, de Seix Barral, e revistas como Mundo Nuevo ajudaram a formar uma rede de leitores e escritores.

O contexto político influenciou o debate: a Revolução Cubana, de 1959, entusiasmou muitos intelectuais, e a instituição Casa de las Américas, de Havana, tornou-se centro de intercâmbio, mas as divergências sobre o papel do escritor e a política cultural cubana dividiram o grupo, sobretudo após o chamado caso Padilla, em 1971. Algumas obras do período enfrentaram a censura de regimes militares em diferentes países.

Desdobramentos

Depois do boom, o chamado pós-boom reuniu autores como Isabel Allende, cujo A casa dos espíritos é de 1982, e outros que reagiram à grandiosidade do período. Críticos latino-americanos, por sua vez, apontam que o rótulo realismo mágico acabou virando estereótipo comercial, simplificando a diversidade da literatura da região. Ainda assim, a influência de seus procedimentos alcançou escritores de outras partes do mundo.

A ênfase na linguagem também marcou o período. Os autores exploraram estruturas fragmentadas, múltiplos narradores e jogos temporais, rompendo com a narrativa linear. Cortázar, por exemplo, combinou conto fantástico e experimentação, e Fuentes recorreu a vozes que se alternam, em consonância com as vanguardas do século XX.

Críticas e recepção

O termo realismo mágico foi criticado por parte dos próprios escritores e estudiosos. Alguns autores recusaram a etiqueta, e críticos como Ángel Rama chamaram atenção para os riscos de reduzir a literatura latino-americana a um exotismo atrativo ao público estrangeiro. Também se observou que a ênfase nos nomes masculinos do boom deixou na sombra escritoras importantes do período, como Clarice Lispector, no Brasil, Elena Garro, no México, e Armonía Somers, no Uruguai.

A recepção brasileira do boom foi marcada pelas traduções publicadas a partir dos anos 1960 e 1970, que aproximaram os leitores brasileiros de autores como García Márquez e Cortázar. Em escala mundial, o fenômeno mudou o lugar da literatura latino-americana nas livrarias e nos prêmios internacionais, e sua influência pode ser rastreada em escritores de língua inglesa, africanos e asiáticos que reconheceram dívida com essa tradição.

Real maravilhoso × Realismo mágico × Literatura fantástica

CritérioReal maravilhosoRealismo mágicoLiteratura fantástica
FormulaçãoCarpentier, 1949.Roh (pintura, 1925); Uslar Pietri (literatura, 1948).Tradição ampla, estudada por Todorov em 1970.
Relação com o realO maravilhoso nasce da própria realidade americana.O sobrenatural é aceito sem espanto.O sobrenatural gera hesitação e estranheza.
Postura do narradorDescritiva e histórica.Naturaliza o extraordinário.Questiona se o fato é real ou ilusório.
ExemplosO reino deste mundo.Cem anos de solidão.Contos de Borges e Cortázar.
Ligação com o boomPrecursor.Muito associado.Presente em parte dos autores.

Cronologia

  1. 1925Franz Roh usa o termo realismo mágico para a pintura.
  2. 1944Borges publica Ficciones.
  3. 1949Carpentier publica O reino deste mundo, com o prólogo sobre o real maravilhoso.
  4. 1955Publicação de Pedro Páramo, de Rulfo.
  5. 1962Carlos Fuentes publica A morte de Artemio Cruz.
  6. 1963Vargas Llosa e Cortázar publicam A cidade e os cachorros e O jogo da amarelinha.
  7. 1967Publicação de Cem anos de solidão.
  8. 1982García Márquez recebe o Nobel; Isabel Allende publica A casa dos espíritos.

Curiosidades verificáveis

  • Franz Roh usou a expressão “realismo mágico” em 1925 para falar de pintura, e não de literatura.
  • Cem anos de solidão foi publicado em 1967 em Buenos Aires, pela Editorial Sudamericana.
  • Mario Vargas Llosa recebeu o Nobel de Literatura em 2010; antes dele, Asturias (1967), Neruda (1971) e Octavio Paz (1990) haviam sido laureados.
  • Carmen Balcells ficou conhecida como a agente literária de vários autores do boom.

Termos relacionados

Pós-boom
Geração de autores latino-americanos posterior ao boom, com projeto mais íntimo e menos totalizante.
Macondo
Povoado imaginário onde se passa Cem anos de solidão.
Agente literário
Profissional que representa autores na negociação de contratos e direitos.
Nobel de Literatura
Prêmio concedido anualmente pela Academia Sueca, ao qual vários autores do período foram laureados.
Neobarroco
Estilo de linguagem exuberante, associado a autores como Severo Sarduy e Lezama Lima.

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Leituras internas

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Literatura fantástica

Conjunto de narrativas em que o sobrenatural irrompe no real ou cria mundos imaginários, do romance gótico a Kafka, Borges, Tolkien e à fantasia contemporânea.

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O Nobel de Literatura foi concedido pela primeira vez em 1901. Conheça as regras, os casos de recusa e as ausências que alimentam debates até hoje.

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Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.

GêneroVários períodos

Referências

  • Ángel Rama. La novela latinoamericana. Instituto Colombiano de Cultura.
  • José Donoso. Historia personal del “boom”. 1972.
  • Encyclopaedia Britannica. Verbetes “Magic realism” e “Latin American literature”.
  • Tzvetan Todorov. Introdução à literatura fantástica. 1970.

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