Movimentos e períodos literários
Barroco
Estilo do século XVII marcado por contrastes, jogos verbais e tensão entre o espiritual e o mundano, de Góngora e Quevedo a Vieira e Gregório de Matos.
Contextualização histórica
O Barroco é o estilo que predominou nas artes e nas letras da Europa e das colônias americanas durante o século XVII e parte do seguinte. Seu cenário foi um mundo em tensão: a Reforma protestante dividira a cristandade, a Igreja católica respondeu com a Contrarreforma e o Concílio de Trento (1545–1563), as monarquias absolutistas se consolidavam e a nova ciência abalava antigas certezas sobre o cosmos. A literatura barroca registra esse desassossego por meio de antíteses, paradoxos e imagens extremas.
A origem do nome é debatida. Uma hipótese tradicional liga o termo ao vocábulo ibérico usado para designar pérolas de forma irregular, e a palavra passou a significar algo torcido e excessivo. Durante muito tempo o rótulo teve sentido pejorativo, e só no fim do século XIX o historiador da arte Heinrich Wölfflin, em Renascença e Barroco, de 1888, e depois em outros estudos, ajudou a reabilitá-lo como categoria legítima de análise estética.
Conceitos essenciais
Cultismo
Vertente barroca que valoriza o refinamento formal, o vocabulário erudito, a sintaxe latinizante e a metáfora elaborada.
Conceptismo
Vertente que privilegia a agudeza do raciocínio, o jogo de ideias e o argumento engenhoso.
Antítese
Figura que opõe termos ou ideias contrárias, recurso central na expressão do conflito barroco.
Desengano
Consciência da transitoriedade dos bens do mundo, tema recorrente na literatura moral e religiosa do período.
Contexto religioso e político
A Contrarreforma estimulou uma arte que comovesse e persuadisse os fiéis, e a literatura participou desse esforço por meio do sermão, da poesia devocional e do teatro religioso. Em países católicos, ordens como a Companhia de Jesus cuidaram de colégios, missões e impressão de livros, e a oratória sacra tornou-se gênero de grande prestígio, com pregadores célebres que disputavam o público pela sofisticação retórica.
Nos Estados absolutistas, a corte funcionava como centro de produção e consumo de cultura. Poetas, dramaturgos e pintores dependiam de mecenas e de encomendas oficiais, o que favoreceu uma arte de aparato e de exibição. Ao mesmo tempo, circulavam obras de crítica social, em geral sob a forma de sátira, que também marca o período.
Cultismo e conceptismo na Espanha
A Espanha do chamado Século de Ouro forneceu as duas grandes vertentes do estilo. Luis de Góngora (1561–1627) é o nome ligado ao cultismo ou culteranismo, com poemas como Soledades, de sintaxe complexa e imagens sensoriais densas, que provocaram polêmica entre seus contemporâneos. Francisco de Quevedo (1580–1645) representa o conceptismo, com a sátira, o jogo de palavras e a meditação sobre a morte. Baltasar Gracián tratou da agudeza como teoria em Agudeza y arte de ingenio, de 1648.
No teatro, Lope de Vega e Pedro Calderón de la Barca renovaram a cena espanhola. De Calderón é a peça A vida é sonho, de c. 1635, que explora a fronteira entre realidade e ilusão. Na Nova Espanha, a freira Sor Juana Inés de la Cruz tornou-se uma das vozes mais notáveis da poesia barroca em língua espanhola.
Outras literaturas europeias
Na Itália, Giambattista Marino deu nome ao marinismo, estilo de metáforas exuberantes difundido por seu poema Adone, de 1623. Na Inglaterra, a chamada poesia metafísica, com John Donne e seus seguidores, combinou argumentação intelectual e imagens inesperadas, enquanto John Milton escreveu Paraíso Perdido, publicado em 1667, epopeia de tema bíblico que dialoga com a tradição clássica.
Em Portugal, o Barroco ficou associado ao nome do padre António Vieira e à poesia de autores reunidos em antologias do período, como a Fénix Renascida, publicada no início do século XVIII. O sermão vieirense, dirigido a plateias na Europa e nas colônias, é considerado ápice da prosa oratória da língua portuguesa.
Fora da Península Ibérica, o debate crítico sobre o estilo também foi intenso. Muitos autores do século XVIII, imbuídos de ideais iluministas, condenaram o excesso barroco como mau gosto, e só no século XX, com a atenção de poetas e críticos às metáforas de Góngora, essa literatura voltou a ser valorizada, em parte pela celebração do tricentenário de sua morte, em 1927, por poetas espanhóis da chamada Geração de 27.
O Barroco no Brasil
Tradicionalmente, o Barroco brasileiro é datado a partir de 1601, ano da publicação do poema Prosopopeia, de Bento Teixeira, embora a relação desse texto com o estilo seja discutida. Seus nomes centrais são Gregório de Matos (1636–1695), cuja obra poética, de caráter lírico, religioso e satírico, circulou sobretudo em cópias manuscritas na Bahia e foi impressa muito depois, e o padre António Vieira (1608–1697), nascido em Lisboa e criado na Bahia, autor de sermões como o Sermão da Sexagésima, de 1655, que trata da arte de pregar.
No campo das artes visuais e da arquitetura, o Barroco colonial deixou monumentos em Minas Gerais, na Bahia e em Pernambuco, entre eles as obras de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, no século XVIII. Algumas leituras da história literária estendem a presença do estilo, em seus resíduos, até o fim do período colonial.
A circulação dos textos barrocos no Brasil foi influenciada ainda pelo papel dos colégios jesuíticos, onde se formavam oradores e poetas, e pela vida das cortes e cidades coloniais, com festas religiosas, procissões e academias literárias, que serviam de palco para a poesia de ocasião e o discurso laudatório, forma típica do gosto barroco por encenação pública.
Livro, imprensa e circulação no século XVII
A cultura barroca dependeu de um sistema de circulação em que o manuscrito e o impresso conviviam. Muitos poemas, como os de Góngora e de Gregório de Matos, circularam em cópias manuscritas antes de ganhar edição em livro, o que explica variantes de texto e atribuições incertas. Os sermões, por sua vez, eram proferidos oralmente e depois organizados para impressão, em volumes que Vieira revisou e reuniu ao longo da vida.
O livro barroco também se destaca pela ornamentação. Frontispícios gravados em cobre, com alegorias e arquiteturas elaboradas, tornaram-se frequentes, e a literatura emblemática, que associa imagem, lema e comentário em verso, fez grande sucesso a partir da obra de Andrea Alciato, publicada em 1531 e reeditada inúmeras vezes. Nas colônias americanas, a imprensa chegou tarde, e boa parte dos textos coloniais dependeu de impressores europeus ou de cópias manuscritas, tema que se liga ao desenvolvimento da imprensa no Brasil só a partir de 1808.
Renascimento × Cultismo × Conceptismo
| Critério | Classicismo renascentista | Cultismo | Conceptismo |
|---|---|---|---|
| Ênfase | Clareza e equilíbrio. | Forma, som e ornamento. | Ideia, argumento e agudeza. |
| Linguagem | Simples e proporcional. | Latinismos, hipérbatos e metáforas densas. | Concisão, paradoxo e jogos de palavras. |
| Representante hispânico | Garcilaso de la Vega. | Luis de Góngora. | Francisco de Quevedo. |
| Representante luso-brasileiro | Camões. | Poemas barrocos de tom lírico. | Sermões de António Vieira. |
| Efeito buscado | Harmonia. | Deslumbramento sensorial. | Persuasão intelectual. |
Cronologia
- 1545–1563Realização do Concílio de Trento, ponto de partida da Contrarreforma.
- 1601Publicação da Prosopopeia, de Bento Teixeira, marco convencional do Barroco brasileiro.
- c. 1613Circulação das Soledades, de Góngora.
- 1623Publicação do Adone, de Marino.
- 1648Gracián publica Agudeza y arte de ingenio.
- 1655Vieira prega o Sermão da Sexagésima.
- 1667Publicação de Paraíso Perdido, de Milton.
Curiosidades verificáveis
- Os poemas de Gregório de Matos eram conhecidos pela sátira contra autoridades e costumes da Bahia, o que lhe rendeu a alcunha de “Boca do Inferno”, atribuída pela tradição.
- O Concílio de Trento durou, com interrupções, de 1545 a 1563 e orientou a produção artística católica nos séculos seguintes.
- Wölfflin contribuiu para fixar o termo “barroco” como conceito de história da arte em sua obra de 1888.
- A peça A vida é sonho, de Calderón, é citada com frequência como um dos textos mais representativos do teatro barroco espanhol.
Termos relacionados
- Contrarreforma
- Movimento de reação e reforma da Igreja católica diante do avanço protestante.
- Sermão
- Discurso religioso pregado em púlpito, gênero de grande prestígio na literatura barroca.
- Hipérbato
- Inversão da ordem normal das palavras na frase, comum no estilo culto.
- Gongorismo
- Outro nome do cultismo, derivado do poeta Góngora.
- Marinismo
- Estilo de imagens exuberantes derivado de Giambattista Marino.
- Auto
- Peça curta de tema religioso ou alegórico, comum no teatro ibérico.
Leituras internas
Movimentos e períodos literários
Classicismo e Renascimento
Retorno aos modelos greco-latinos e ao humanismo que, entre os séculos XIV e XVI, renovou a literatura europeia e se espalhou com a imprensa.
MovimentoSéculos XV–XVIII
Movimentos e períodos literários
Romantismo
Movimento do fim do século XVIII e do XIX que valorizou emoção, individualidade, natureza e identidade nacional, de Goethe e Byron a Alencar e Castro Alves.
MovimentoSéculo XIX
Gêneros literários
Epopeia
Longo poema narrativo em verso que celebra feitos heroicos e a identidade de um povo, da Ilíada e da Odisseia a Os Lusíadas e à épica moderna.
GêneroAntiguidade
Curiosidades do mundo dos livros
Livros proibidos e censura
Da lista de livros proibidos da Igreja aos processos por obscenidade e à censura no Brasil, a história de obras silenciadas e do debate sobre a leitura.
CuriosidadeVários períodos
Editoras e mercado editorial
Impressão Régia e a imprensa no Brasil
Criada por decreto de D. João em 1808, no Rio de Janeiro, a Impressão Régia inaugurou a imprensa oficial no Brasil, que até então proibia tipografias.
InstituiçãoSéculo XIX
Referências
- Heinrich Wölfflin. Renascença e Barroco. 1888.
- Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira. Cultrix.
- Antonio Candido. Formação da literatura brasileira. 1959.
- Encyclopaedia Britannica. Verbete “Baroque”.
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