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Movimentos e períodos literários

Modernismo brasileiro

Movimento iniciado com a Semana de Arte Moderna de 1922 que renovou a linguagem literária e a busca de identidade, de Mário e Oswald de Andrade a Guimarães Rosa.

  • TipoMovimento
  • PeríodoSéculo XX
  • PaísesBrasil
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

O Modernismo brasileiro reúne um conjunto de transformações nas artes e na literatura a partir das primeiras décadas do século XX. Seu marco simbólico é a Semana de Arte Moderna, realizada no Teatro Municipal de São Paulo em fevereiro de 1922, no ano do centenário da Independência. A Semana reuniu escritores, pintores, escultores e músicos em palestras, exposições e apresentações, em meio a protestos do público, e consolidou um grupo que já vinha formulando ideias renovadoras.

O movimento teve antecedentes. A exposição de Anita Malfatti, em 1917, foi alvo de crítica severa de Monteiro Lobato, no artigo “Paranoia ou mistificação?”, e provocou reação de jovens artistas. Havia também o contato com as vanguardas europeias, como o Futurismo, o Cubismo e o Surrealismo, e a urbanização e industrialização de São Paulo. Em linhas gerais, os modernistas defenderam a liberdade de criação, o verso livre, a linguagem coloquial e a pesquisa de elementos da cultura brasileira.

Conceitos essenciais

Verso livre

Verso sem metro regular nem rima obrigatória, adotado como ruptura com a métrica tradicional.

Antropofagia

Proposta de Oswald de Andrade de “devorar” criticamente influências estrangeiras para produzir algo próprio.

Língua brasileira

Defesa da fala coloquial do país como material literário, em lugar do português castiço.

Regionalismo de 30

Ficção que retrata problemas sociais do Nordeste e de outras regiões, na década de 1930.

A fase heroica (1922–1930)

A primeira fase foi de ruptura e experimentação. Mário de Andrade publicou Paulicéia desvairada em 1922, com um prefácio interessantíssimo que expõe sua teoria do verso, e dirigiu pesquisas sobre o folclore. Oswald de Andrade lançou o Manifesto da Poesia Pau-Brasil em 1924 e o Manifesto Antropófago em 1928, em que a deglutição cultural ganha forma de programa. Manuel Bandeira, autor de Carnaval (1919), participou da Semana por meio do poema “Os sapos”, lido por Ronald de Carvalho durante o evento.

A revista Klaxon, de 1922, divulgou as ideias do grupo. Divergências internas deram origem a correntes como o Verde-Amarelismo, nacionalista, e a Antropofagia. Em 1928, Macunaíma, de Mário de Andrade, publicou-se como “rapsódia” que mistura mitos e linguagens populares de várias regiões.

Entre os temas da fase inicial, a descoberta do Brasil por meio de viagens, como as de Mário de Andrade ao Norte e Nordeste em 1927 e 1928, e a viagem a Minas Gerais de 1924, com Blaise Cendrars e outros artistas, buscou reencontrar as raízes culturais do país no barroco mineiro e nas tradições populares.

A fase da consolidação (1930–1945)

Na década de 1930, o país vivia a Revolução de 1930, a crise econômica e o Estado Novo, e a literatura voltou-se para questões sociais. No romance, o chamado regionalismo nordestino teve em Rachel de Queiroz (O Quinze, 1930), José Lins do Rego, Jorge Amado e Graciliano Ramos, de Vidas secas (1938), alguns dos principais nomes. Na poesia, Carlos Drummond de Andrade estreou com Alguma poesia em 1930, e Cecília Meireles e Murilo Mendes construíram obras próprias, de tom lírico e metafísico.

Ao mesmo tempo, o ensaio de interpretação do Brasil floresceu, com autores como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, de modo que a reflexão sobre a identidade nacional ganhou espaço fora da ficção.

A geração de 1945 e a renovação da prosa

A partir de 1945, após a morte de Mário de Andrade e o fim do Estado Novo, surgem novas orientações. João Cabral de Melo Neto desenvolve uma poesia de construção rigorosa. Clarice Lispector, com Perto do coração selvagem (1943), introduz uma prosa de investigação interior, e João Guimarães Rosa publicou Sagarana em 1946 e Grande sertão: veredas em 1956, obra que reinventa a linguagem do sertão e é frequentemente apontada como uma das mais importantes do século.

Essa fase é por vezes tratada como pós-modernismo ou terceira fase do Modernismo, e se desdobra em experiências como o Concretismo, dos anos 1950, e em outras linhagens poéticas.

No campo teórico, a polêmica entre Mário e Oswald de Andrade, as cisões do grupo e a diversidade dos projetos estéticos mostram que o Modernismo não teve um programa único. Alguns defenderam nacionalismo político de tom conservador, outros se aproximaram da esquerda, e muitos artistas mudaram de posição ao longo das décadas, o que torna o movimento um campo de tensões e não um bloco homogêneo.

Impactos editoriais

O Modernismo coincidiu com a expansão do mercado editorial brasileiro. Monteiro Lobato reorganizou a edição de livros nos anos 1920, e editoras como a José Olympio, fundada na década de 1930, publicaram os autores da geração regionalista. O livro brasileiro passou a ter circulação mais ampla, com capas modernas assinadas por artistas plásticos.

A relação com a imprensa foi igualmente importante. A crônica, gênero que ganhou nome e estilo próprios no jornal brasileiro, recebeu contribuições de Rubem Braga, de Manuel Bandeira e de Carlos Drummond de Andrade, que a aproximaram do tom conversacional pregado pelos modernistas.

Legado e debates historiográficos

A historiografia literária costuma tratar a Semana de 1922 como marco simbólico, mas estudiosos lembram que a modernização das letras brasileiras foi processo mais amplo, com participantes e iniciativas em outras cidades, como Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife, onde o Manifesto Regionalista de Gilberto Freyre apareceu em 1926. A ideia de que tudo começou na Semana é, assim, uma simplificação que o próprio tempo ajudou a consagrar, e há quem veja nela mais um evento de divulgação do que o início de uma estética nova.

Apesar das controvérsias, o legado é duradouro. O Modernismo ampliou o repertório de temas e de registros da literatura brasileira, legitimou a fala coloquial e a pesquisa da cultura popular, e abriu caminho para a música, as artes plásticas e a arquitetura modernas. Muitos poemas e romances modernistas hoje são lidos nas escolas e fazem parte de listas de leitura obrigatória de exames de ingresso nas universidades, o que mostra seu lugar central no cânone nacional.

Fases do Modernismo brasileiro

CritérioPrimeira faseSegunda faseTerceira fase
Período1922 a 1930.1930 a 1945.A partir de 1945.
CaracterísticaRuptura e experimentação.Consolidação e engajamento social.Investigação interior e rigor formal.
PoesiaMário de Andrade, Oswald de Andrade, Bandeira.Drummond, Cecília Meireles, Murilo Mendes.João Cabral de Melo Neto.
ProsaMacunaíma, romances experimentais.Romance regionalista de 30.Clarice Lispector, Guimarães Rosa.
PautaLíngua e identidade nacional.Questão social e política.Linguagem e subjetividade.

Cronologia

  1. 1917Exposição de Anita Malfatti e crítica de Monteiro Lobato.
  2. 1922Semana de Arte Moderna e publicação de Paulicéia desvairada.
  3. 1924Oswald de Andrade lança o Manifesto da Poesia Pau-Brasil.
  4. 1928Manifesto Antropófago e publicação de Macunaíma.
  5. 1930Drummond publica Alguma poesia; Rachel de Queiroz, O Quinze.
  6. 1938Graciliano Ramos publica Vidas secas.
  7. 1946Guimarães Rosa publica Sagarana.
  8. 1956Publicação de Grande sertão: veredas.

Curiosidades verificáveis

  • A Semana de Arte Moderna ocorreu em três noites de fevereiro de 1922, nos dias 13, 15 e 17, no Teatro Municipal de São Paulo.
  • Monteiro Lobato criticou a exposição de Anita Malfatti em 1917, mas depois se tornou figura importante do mercado do livro.
  • Graciliano Ramos escreveu parte de sua obra em ambiente de perseguição política durante o Estado Novo e foi preso em 1936.
  • Macunaíma foi publicado em 1928 e traz como personagem central um herói sem nenhum caráter, expressão do subtítulo.

Termos relacionados

Futurismo
Vanguarda europeia que exaltava a velocidade, a máquina e a ruptura com o passado.
Manifesto
Texto programático em que um grupo expõe os princípios de sua estética.
Rapsódia
Termo usado por Mário de Andrade para Macunaíma, indicando obra de colagem de fontes.
Concretismo
Movimento de poesia visual e espacial surgido no Brasil nos anos 1950.
Regionalismo
Literatura que toma como matéria a vida de uma região específica.

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Leituras internas

Editoras e mercado editorial

Monteiro Lobato e a editoração brasileira

Escritor e empresário, Monteiro Lobato renovou a edição brasileira nas décadas de 1910 e 1920 ao ampliar pontos de venda, cuidar das capas e abrir espaço a novos autores.

PessoaSéculo XX

Movimentos e períodos literários

Parnasianismo e Simbolismo

Duas correntes poéticas do fim do século XIX: o Parnasianismo, da forma impecável, e o Simbolismo, da sugestão e da música, de Bilac a Cruz e Sousa.

MovimentoSéculo XIX

Gêneros literários

Romance

Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.

GêneroVários períodos

Gêneros literários

Conto

Narrativa breve em prosa, centrada em um episódio ou conflito, que se firmou como forma literária autônoma no século XIX com Poe, Gógol e Tchekhov.

GêneroVários períodos

Gêneros literários

Crônica

Gênero breve ligado à imprensa que comenta o cotidiano com subjetividade e estilo, consolidado no Brasil por Alencar, Machado de Assis e Rubem Braga.

GêneroSéculo XIX

Movimentos e períodos literários

Realismo mágico e o boom latino-americano

O realismo mágico e o boom projetaram a narrativa latino-americana nos anos 1960 e 1970, com García Márquez, Cortázar, Fuentes e Vargas Llosa.

MovimentoSéculo XX

Referências

  • Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira. Cultrix.
  • Antonio Candido. Literatura e sociedade. Companhia Editora Nacional.
  • Mário da Silva Brito. História do Modernismo brasileiro: antecedentes da Semana de Arte Moderna.
  • Biblioteca Nacional (Brasil). Acervos sobre a Semana de Arte Moderna de 1922.

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