História do livro e da leitura
Papiro e rolo
O rolo de papiro foi a forma dominante do livro no Mediterrâneo antigo. Veja como era feito, lido e guardado, e por que acabou cedendo lugar ao códice.
Contextualização histórica
O papiro foi o principal material de escrita do Egito faraônico e, depois, de grande parte do mundo grego e romano. Obtido da planta Cyperus papyrus, que crescia no delta do Nilo, ele era transformado em folhas que, coladas umas às outras, formavam longas tiras enroladas em torno de si mesmas. Esse objeto, o rolo, foi durante cerca de três mil anos a forma mais comum de livro no Mediterrâneo antigo. Os próprios termos relacionados à escrita guardam sua memória: “papel” vem de “papiro”, e a palavra latina “volumen”, da qual vem “volume”, designava o rolo e remete ao verbo “enrolar”.
Os papiros inscritos mais antigos que se conhecem datam do terceiro milênio a.C., e folhas em branco são documentadas ainda antes. Desde o Egito faraônico, o rolo servia a registros administrativos, cartas, contratos, textos religiosos e literários. O Livro dos Mortos, por exemplo, circulou em papiros ilustrados no Egito do Novo Império. Na época helenística e romana, o comércio do papiro sustentou a circulação de obras de Homero, de Platão e de inúmeros outros autores, e o rolo estruturou as primeiras grandes bibliotecas, como a de Alexandria.
Conceitos essenciais
Papiro
Material de escrita feito de tiras da medula do caule de Cyperus papyrus, dispostas em camadas cruzadas e prensadas.
Rolo (volumen)
Forma de livro composta por folhas coladas em uma faixa contínua, enrolada em torno de si mesma ou de um bastão.
Recto e verso
Na convenção moderna, o lado do papiro com fibras horizontais (recto) e o lado com fibras verticais (verso).
Papirologia
Disciplina que estuda, decifra e edita textos preservados em papiro.
Fabricação
O caule da planta era descascado e a medula cortada em tiras finas. Essas tiras eram dispostas lado a lado, formando uma camada, e sobre ela colocava-se outra com as tiras em sentido perpendicular. O conjunto era prensado ou martelado e secado; a seiva da própria planta contribuía para a adesão. A folha resultante era alisada e podia receber polimento. Descrições antigas, como a de Plínio, o Velho, na História Natural, tratam do processo e dos diferentes tipos de qualidade, embora os historiadores modernos discutam detalhes dessas explicações.
As folhas eram então coladas lateralmente, em geral com as fibras do mesmo sentido, para formar um rolo. O comprimento variava muito. O Grande Papiro Harris I, egípcio, ultrapassa quarenta metros, mas rolos literários gregos eram em geral bem menores, de poucos metros, e as obras mais longas eram divididas em vários rolos, que explicam a divisão tradicional em “livros” de obras como a Ilíada e a Odisseia.
Escrita e leitura do rolo
Escrevia-se com cálamo ou junco e com tinta, geralmente à base de carbono. O texto era disposto em colunas estreitas, lado a lado, no lado em que as fibras corriam horizontalmente, o que facilitava o traço. O leitor segurava o rolo com as duas mãos, desenrolando com uma e enrolando com a outra, e, ao terminar, precisava reenrolá-lo. Essa mecânica tornava incômoda a consulta de passagens específicas e impossibilitava ler e escrever ao mesmo tempo com facilidade, o que influenciou a organização das obras e os hábitos de leitura.
Os rolos eram identificados por uma etiqueta presa à extremidade e guardados em estantes, em caixas cilíndricas ou em cestos. O título aparecia com frequência apenas ao final do texto, em fórmulas de encerramento, pois o início, que ficava na parte mais externa do rolo, era a região mais exposta ao desgaste.
Preservação e descobertas
O clima seco do Egito permitiu que milhares de papiros chegassem até hoje, em especial os encontrados em sítios como Oxirrinco, onde expedições do final do século XIX e início do XX recuperaram grande quantidade de documentos e de textos literários. Em outros climas, o papiro se deteriora com facilidade. Uma exceção notável é a biblioteca de Herculano, soterrada na erupção do Vesúvio em 79 d.C. e redescoberta no século XVIII: seus rolos, carbonizados, vêm sendo estudados com técnicas de imagem modernas que permitem, em alguns casos, ler o texto sem desenrolar o material.
Muitos dos textos que sobreviveram em papiro são de natureza cotidiana, como cartas, recibos e petições, o que fez da papirologia uma fonte importante para a história social e econômica do Egito grego e romano, além de fonte para a história literária.
Declínio do rolo
A partir dos primeiros séculos da era cristã, o códice, que organiza o texto em páginas, passou a rivalizar com o rolo e, por volta do século IV, tornou-se dominante na produção de livros. O papiro continuou a ser usado no Mediterrâneo por séculos, inclusive para documentos oficiais; chancelarias papais empregaram-no até meados do século XI, de acordo com a tradição historiográfica. Com a difusão do papel e com a perda de importância do abastecimento egípcio, a produção declinou. O rolo sobrevive até hoje em usos específicos, como o rolo da Torá em contextos litúrgicos judaicos.
O rolo na vida intelectual antiga
O rolo condicionou a própria maneira de compor e citar obras. Como era difícil localizar uma passagem no meio de um rolo, os autores antigos costumavam citar de memória ou indicar o livro em que o trecho se encontrava, e as obras extensas eram segmentadas em unidades que cabiam num rolo de tamanho manejável. A divisão em livros de grandes poemas e de obras históricas nasceu, em boa medida, dessa limitação material.
O comércio de livros em Atenas, Alexandria e Roma também se apoiava no rolo. Havia livreiros que vendiam cópias feitas por escribas, e os autores recorriam a amigos e a copistas para difundir suas obras. Bibliotecas como a de Alexandria organizaram seus acervos em rolos, etiquetados e catalogados, e a qualidade das cópias e a presença de erros eram preocupações constantes dos estudiosos que trabalhavam na edição dos textos.
Rolo × Códice
| Critério | Rolo de papiro | Códice |
|---|---|---|
| Organização | Folhas coladas em faixa contínua | Folhas dobradas e costuradas em cadernos |
| Consulta | Sequencial, exige desenrolar | Acesso direto a qualquer página |
| Uso das faces | Normalmente um só lado | Os dois lados da folha |
| Armazenamento | Cestos, caixas e estantes | Estantes, com lombada ou corte à vista |
| Período de auge | Antiguidade, até c. século III | A partir do século IV |
Cronologia
- c. 3000 a.C.Uso do papiro é documentado no Egito, com folhas em branco já conhecidas da primeira dinastia.
- c. 2560 a.C.Papiros do diário de Merer registram o transporte de pedras para a pirâmide de Quéops.
- Século III a.C.A Biblioteca de Alexandria reúne grande acervo de rolos.
- 79 d.C.A erupção do Vesúvio soterra a biblioteca de Herculano.
- Século IVO códice torna-se a forma dominante do livro.
- Século XIFim do uso do papiro pelas chancelarias papais, segundo a tradição historiográfica.
Curiosidades verificáveis
- A palavra grega “biblíon”, que deu origem a prefixos como “biblio-” e à palavra “Bíblia”, está tradicionalmente associada ao porto fenício de Biblos, por onde se exportava papiro.
- O Papiro de Ani, um Livro dos Mortos do Novo Império conservado no Museu Britânico, tem mais de vinte metros de comprimento.
- Os papiros de Herculano, encontrados em uma villa identificada como a Villa dei Papiri, formam a única biblioteca greco-romana a ter chegado, em grande parte, intacta, embora carbonizada.
- O termo latino “umbilicus” designava a extremidade do bastão em que o rolo era enrolado, e a expressão “ad umbilicum” era usada para indicar que se chegara ao fim do texto.
Termos relacionados
- Cálamo
- Caniço cortado em ponta para escrever com tinta.
- Kollema
- Folha individual de papiro, antes de ser colada às demais para formar o rolo.
- Umbilicus
- Bastão ou núcleo em torno do qual o rolo era enrolado.
- Opistógrafo
- Rolo escrito dos dois lados, usado quando se reaproveitava o verso.
- Escriba
- Profissional treinado para escrever e copiar textos.
- Oxirrinco
- Sítio egípcio de onde provém um dos maiores conjuntos de papiros gregos.
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Referências
- Lewis, Naphtali. Papyrus in Classical Antiquity. Oxford: Clarendon Press, 1974.
- Casson, Lionel. Libraries in the Ancient World. Yale University Press, 2001.
- Cavallo, Guglielmo; Chartier, Roger (orgs.). História da Leitura no Mundo Ocidental.
- Encyclopaedia Britannica. Verbete “Papyrus”.
- British Library. Materiais de referência sobre papiros e escrita antiga.
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