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História do livro e da leitura

Códice: o livro em páginas

O códice, com folhas dobradas e costuradas em cadernos, substituiu o rolo e definiu o livro como o conhecemos: com páginas, índice e acesso direto ao texto.

  • TipoObjeto
  • PeríodoAntiguidade
  • PaísesRoma, Egito, Global
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

O códice é a forma de livro composta por folhas dobradas e reunidas em cadernos, presos por costura de um dos lados e, em geral, protegidos por capas. É o ancestral direto do livro moderno. A palavra latina “codex”, ligada a “caudex”, tronco de árvore ou bloco de madeira, passou a designar blocos de tabuletas de madeira ligadas entre si, que os romanos usavam para notas e contas, e depois os livros de folhas flexíveis. A mesma raiz explica por que “código”, em sentido jurídico, vem de “codex”: compilações legais foram das primeiras obras tratadas nesse formato.

A passagem do rolo para o códice foi gradual. Autores latinos do final do século I, como Marcial, mencionam obras literárias publicadas em pequenos códices de pergaminho, como novidade prática para viagem. Por muito tempo o rolo permaneceu o formato de prestígio para a literatura clássica, enquanto o códice se difundia entre cristãos, estudiosos de direito e usuários que precisavam consultar textos com frequência. Entre os séculos III e IV, o códice consolidou-se; por volta do século IV, tornou-se a forma predominante do livro.

Conceitos essenciais

Códice

Livro formado por folhas dobradas e costuradas, em oposição ao rolo.

Caderno

Conjunto de folhas dobradas em conjunto, que, costurado a outros, forma o corpo do códice.

Acesso aleatório

Possibilidade de abrir o livro diretamente em qualquer página, vantagem decisiva do códice sobre o rolo.

Paginação

Numeração das páginas ou das folhas, que permite remissões e índices.

Origens

O antecedente imediato do códice foram as tabuletas de madeira, às vezes cobertas de cera, ligadas por cordões ou dobradiças. Os romanos chamavam “pugillares” as pequenas tabuletas de mão. Substituir a madeira por folhas de pergaminho, mais leves e dobráveis, foi um passo natural, e as chamadas “membranae” aparecem em fontes latinas como cadernos de anotações. Assim, o códice nasceu primeiro como suporte de uso cotidiano, e apenas depois ganhou o prestígio de veículo da literatura.

Poucas questões da história do livro foram tão debatidas quanto as razões da vitória do códice. O estudo clássico de Colin Roberts e T. C. Skeat, publicado em 1983, destacou o papel das comunidades cristãs primitivas, cujos manuscritos de textos bíblicos aparecem, em proporção muito superior à dos textos pagãos, no formato de códice. Entre as hipóteses discutidas estão a praticidade, a economia de material e a vontade de distinguir os textos cristãos dos judaicos, que continuaram a usar o rolo na liturgia.

Vantagens materiais

O códice oferecia vantagens concretas. Em primeiro lugar, permitia consultar qualquer passagem sem desenrolar o texto inteiro. Em segundo, podia ser escrito nos dois lados das folhas, o que economizava material. Em terceiro, comportava volumes maiores em menor espaço: um único códice podia reunir obras que, no formato de rolo, ocupariam muitos exemplares, como os quatro evangelhos ou a Bíblia inteira. Por fim, o leitor podia apoiar o livro e escrever ao mesmo tempo, o que favoreceu a anotação e o estudo.

Essas características incentivaram instrumentos de navegação textual: numeração de páginas, divisão em capítulos, listas de conteúdo e, mais tarde, índices alfabéticos. Esses recursos se desenvolveram sobretudo na Idade Média, mas apoiam-se no formato do códice.

Do papiro ao pergaminho

Os primeiros códices literários e cristãos conhecidos eram frequentemente de papiro, como o fragmento do Evangelho de João do século II conservado em Manchester, o chamado P52, um dos mais antigos fragmentos conhecidos do Novo Testamento. Entretanto, o papiro mostrou-se mais frágil quando dobrado, e o pergaminho passou a predominar nos códices de maior ambição. Os grandes códices bíblicos do século IV, o Vaticano e o Sinaítico, são de pergaminho. Também são dessa época manuscritos de autores clássicos latinos, como o Virgílio Vaticano, de cerca do século IV ou V.

A descoberta, em 1945, de uma coleção de códices de papiro em Nag Hammadi, no Egito, mostrou como o formato já estava disseminado em contextos diversos no século IV, inclusive com encadernações em couro preservadas.

O códice na Idade Média e depois

Na Idade Média, o códice tornou-se o único formato de livro predominante no Ocidente. A organização do texto evoluiu: surgiram o espaço entre palavras, a pontuação, os títulos correntes e as iniciais decoradas. Os scriptoria monásticos produziram códices de enorme refinamento, tema tratado no verbete sobre manuscritos iluminados. Com a imprensa de Gutenberg, o formato foi mantido: o livro impresso é um códice produzido mecanicamente, e os formatos como o in-fólio, o in-quarto e o in-oitavo derivam do número de dobras da folha.

A permanência do formato por quase dois milênios mostra sua eficácia. Mesmo o livro digital incorpora a metáfora da página, virada com um toque, e os e-readers imitam a experiência do códice, em vez de reproduzir a do rolo, embora a rolagem contínua de textos em sites tenha reintroduzido, de certo modo, um formato semelhante ao do antigo volumen.

Consequências para a organização do texto

Ao permitir que o leitor percorresse o texto em qualquer ordem, o códice incentivou a criação de aparatos de consulta. Os copistas passaram a dividir os textos em seções numeradas, a acrescentar sumários e a inserir títulos correntes no alto das páginas. Mais tarde, na Idade Média, apareceram as concordâncias bíblicas e os índices alfabéticos, ferramentas decisivas para pregadores e professores universitários, que precisavam localizar rapidamente passagens.

O formato também alterou a relação entre texto e imagem. A página oferece um campo delimitado, em que ilustrações, ornamentos e comentários marginais podem ser distribuídos de forma planejada, algo que o rolo permitia com mais dificuldade. Essa característica foi explorada de maneira refinada pelos iluminadores medievais e se manteve nos livros impressos, nas quais a mancha de texto, as margens e os espaços em branco fazem parte do projeto gráfico.

Rolo × Códice × Livro digital

CritérioRoloCódiceLivro digital
Suporte típicoPapiroPergaminho ou papelTela eletrônica
NavegaçãoSequencialPor páginas, índices e capítulosBusca por palavras e links
CapacidadeLimitada pelo tamanho do roloVolumes extensos em um só objetoMilhares de títulos em um aparelho
CópiaManualManual e depois impressaArquivo reproduzível

Cronologia

  1. Século IMarcial menciona obras literárias em códices de pergaminho.
  2. Século IIFragmento P52 do Evangelho de João, em códice de papiro.
  3. Século IVCódices Vaticano e Sinaítico; o códice passa a ser o formato predominante.
  4. Século VIIMonges irlandeses difundem a separação de palavras por espaços.
  5. c. 1455A Bíblia de Gutenberg reproduz o formato do códice em tipos móveis.
  6. 1945Descoberta dos códices de Nag Hammadi.

Curiosidades verificáveis

  • Em seus Epigramas, Marcial recomenda livros em pequenos códices de pergaminho como companhia de viagem, e indica livrarias onde podiam ser comprados.
  • O Código Teodosiano, compilação de leis imperiais publicada no século V, recebeu o nome do formato em que as leis eram reunidas.
  • Os códices de Nag Hammadi foram encontrados em 1945 dentro de uma jarra de cerâmica, perto da cidade egípcia de Nag Hammadi.
  • O Códice Sinaítico, do século IV, foi em parte levado do mosteiro de Santa Catarina, no Sinai, no século XIX, e hoje suas partes estão em diferentes instituições, entre elas a British Library.

Termos relacionados

Pugillares
Pequenas tabuletas de mão, usadas pelos romanos para anotações.
Lombada
Parte do livro em que os cadernos são costurados e que fica visível na estante.
Fólio
Folha de um livro, que tem dois lados: frente e verso.
Colofão
Nota final do copista ou do impressor, com informações sobre a feitura do livro.
Scriptio continua
Escrita sem espaços entre as palavras, comum na Antiguidade.
Pergaminho
Pele animal preparada para escrita, suporte principal dos códices medievais.

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ConceitoVários períodos

Referências

  • Roberts, Colin H.; Skeat, T. C. The Birth of the Codex. Oxford University Press, 1983.
  • Cavallo, Guglielmo; Chartier, Roger (orgs.). História da Leitura no Mundo Ocidental.
  • Febvre, Lucien; Martin, Henri-Jean. O Aparecimento do Livro. 1958.
  • Encyclopaedia Britannica. Verbete “Codex”.
  • British Library. Materiais de referência sobre manuscritos antigos e códices bíblicos.

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