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História do livro e da leitura

Evolução dos suportes de escrita

Da argila mesopotâmica ao papel e às telas, a história dos materiais que receberam a escrita explica como o livro mudou de forma, custo e alcance.

  • TipoConceito
  • PeríodoVários períodos
  • PaísesGlobal, Iraque, Egito, China, Itália
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

Chama-se suporte de escrita a superfície material que recebe os signos gráficos: pedra, argila, madeira, folhas vegetais, peles animais, tecido, papel ou, mais recentemente, a tela. A escolha do suporte nunca é neutra. Ela determina o instrumento usado para escrever, a durabilidade do registro, o peso, o preço e a maneira de armazenar e consultar o texto. Boa parte da história do livro pode ser lida como uma sucessão de soluções para um mesmo problema: como registrar a linguagem de modo que ela possa ser guardada, transportada e copiada.

Os primeiros sistemas de escrita desenvolvidos de forma independente, como o cuneiforme da Mesopotâmia, os hieróglifos egípcios e os caracteres chineses, nasceram associados a materiais disponíveis em cada região. Em vez de uma linha reta de progresso, a evolução dos suportes mostra coexistências longas: tabuletas de cera continuaram em uso para anotações cotidianas muito depois da difusão do pergaminho, e o pergaminho conviveu com o papel por séculos. Cada novo material ampliou possibilidades, mas raramente eliminou de imediato os anteriores.

Conceitos essenciais

Suporte

Material físico que recebe a escrita, como argila, papiro, pergaminho ou papel. Influencia o formato do livro e a forma de leitura.

Instrumento de escrita

Ferramenta ligada ao suporte: estilete de junco na argila, cálamo e tinta no papiro, pena de ave no pergaminho e no papel.

Rolo e códice

As duas grandes formas de organizar o texto em suportes flexíveis: folhas coladas e enroladas, ou folhas dobradas e costuradas em cadernos.

Palimpsesto

Manuscrito cujo texto original foi raspado ou lavado para reaproveitar o material, prática frequente com o pergaminho.

Argila, pedra e madeira

Na Mesopotâmia, a escrita proto-cuneiforme aparece em tabuletas de argila em Uruk, por volta de 3300 a.C., inicialmente para registros administrativos e contábeis. A argila era abundante e barata; o escriba imprimia os signos com um estilete de junco cortado, e a tabuleta podia ser secada ao sol ou cozida. Muitos desses registros chegaram até nós justamente por serem resistentes ao fogo e à umidade, o que explica por que o repertório textual conhecido da Mesopotâmia é tão extenso.

A pedra servia a inscrições monumentais, como estelas e leis gravadas, e a madeira aparece em tabuletas revestidas de cera, usadas na Grécia e em Roma para rascunhos, lições escolares e contas. A cera permitia apagar e reescrever com a ponta chata do estilete. Na China antiga, tiras de bambu e de madeira, amarradas em feixes, foram suportes importantes antes da difusão do papel, e a seda também foi empregada para textos de maior valor.

Papiro e pergaminho

No Egito, o papiro, fabricado com tiras da haste de uma planta aquática, está documentado em uso desde o terceiro milênio a.C. e tornou-se o principal suporte do mundo mediterrâneo antigo, geralmente na forma de rolo. Era leve e flexível, mas frágil à umidade, e seu abastecimento dependia do Egito. Esse tema é desenvolvido no verbete sobre o papiro e o rolo.

O pergaminho, feito de pele de animais como ovelha, cabra e bezerro, tratada, esticada e raspada, tem uma tradição antiga de uso. Autores antigos associavam seu desenvolvimento à cidade de Pérgamo, de onde viria o nome, mas a técnica de escrever em peles é anterior. Mais resistente e reaproveitável que o papiro, e adequado à dobra em cadernos, o pergaminho tornou-se o suporte dominante do livro na Europa medieval, em especial a partir da consolidação do códice.

O papel e sua difusão

O papel, feito de fibras vegetais maceradas e depois secas em folhas finas, é tradicionalmente atribuído ao oficial chinês Cai Lun, que o teria apresentado à corte em 105 d.C. Achados arqueológicos indicam que materiais semelhantes existiam antes, de modo que a tradição registra um aperfeiçoamento ou uma oficialização, e não necessariamente o início absoluto. A técnica chegou ao mundo islâmico por volta do século VIII, com produção documentada em Samarcanda, e se espalhou por Bagdá, pelo Cairo e pelo norte da África.

Na Europa, a produção de papel aparece na península Ibérica, em Xàtiva, no século XII, e na Itália, em Fabriano, no século XIII. Feito de trapos de linho e cânhamo, o papel era mais barato que o pergaminho, e essa diferença de custo foi um dos fatores materiais que tornaram viável a expansão da imprensa de tipos móveis no século XV. Em meados do século XIX, a produção industrial de polpa de madeira reduziu ainda mais o custo e permitiu tiragens e jornais de massa.

Do papel às telas

No século XX e início do XXI, a escrita passou a ser registrada também em meios magnéticos, ópticos e eletrônicos. O livro digital e os e-readers deslocam o suporte da página impressa para a tela, com tinta eletrônica ou cristal líquido, e trazem novas questões de preservação, pois formatos de arquivo e aparelhos tornam-se obsoletos com rapidez. Diferentemente da argila, que sobrevive milênios, o registro digital exige manutenção contínua.

Essa trajetória mostra que a história do livro é também uma história de materiais e de custos. A cada mudança relevante, como a passagem do rolo ao códice, do manuscrito ao impresso e do papel à tela, alteraram-se os modos de ler, de copiar, de armazenar e de vender textos.

Efeitos sobre a leitura e a cultura escrita

Cada suporte moldou práticas sociais. A argila e a pedra favoreciam registros duráveis, ligados ao poder, à administração e à lei. O papiro e o rolo, leves e transportáveis, permitiram a formação de bibliotecas e a circulação de obras literárias pelo Mediterrâneo. O pergaminho, mais resistente, possibilitou o códice, com suas páginas, índices e anotações marginais, e foi a base da cultura manuscrita medieval.

O papel, ao baratear a matéria-prima, tornou possível ampliar o público leitor e deu à imprensa de tipos móveis a base econômica de que ela precisava. Os historiadores do livro insistem, porém, em evitar explicações puramente técnicas: preços, políticas, instituições religiosas e demanda de leitores também pesaram em cada mudança. A materialidade do texto, isto é, o modo como ele é fisicamente apresentado, é parte do seu sentido, e por isso editores e bibliotecários dedicam atenção à forma original das obras que preservam.

Argila × Papiro × Pergaminho × Papel

CritérioArgilaPapiroPergaminhoPapel
Matéria-primaBarroHaste de planta aquáticaPele de animalFibras vegetais, como trapos
Região de origemMesopotâmiaEgitoMediterrâneo orientalChina
Instrumento típicoEstilete de juncoCálamo e tintaPena e tintaPena, depois prensa tipográfica
Forma de livroTabuletasRoloCódiceCódice
Ponto fracoPeso e volumeFragilidade à umidadeCusto elevadoSensibilidade à acidez e à umidade

Cronologia

  1. c. 3300 a.C.Surgem as tabuletas proto-cuneiformes de argila em Uruk, na Mesopotâmia.
  2. c. 2560 a.C.Data aproximada dos papiros do diário de Merer, no Egito.
  3. Século II a.C.Tradição antiga associa o desenvolvimento do pergaminho a Pérgamo.
  4. 105 d.C.Data tradicional da apresentação do papel por Cai Lun à corte chinesa.
  5. Século VIIIA fabricação de papel é documentada no mundo islâmico, em Samarcanda.
  6. Século XIIProdução de papel documentada em Xàtiva, na península Ibérica.
  7. c. 1455A Bíblia de Gutenberg é impressa sobre papel e sobre pergaminho.
  8. Século XIXIndustrialização da polpa de madeira barateia o papel.

Curiosidades verificáveis

  • O diário de Merer, escrito em papiro durante o reinado de Quéops (c. 2560 a.C.), está entre os papiros inscritos mais antigos conhecidos e foi encontrado no Wadi al-Jarf, no Egito.
  • A palavra “papel” deriva de “papiro”, embora os dois materiais sejam fabricados de maneiras totalmente diferentes: o primeiro com fibras maceradas, o segundo com tiras de planta sobrepostas.
  • Palimpsestos permitiram recuperar textos antigos por baixo de escritas posteriores. O palimpsesto de Arquimedes, do século X, foi reutilizado no século XIII como livro de orações.
  • A tradição atribui a batalha de Talas, em 751, como o momento da transmissão da técnica papeleira ao mundo islâmico, mas os historiadores consideram a difusão um processo gradual e debatido.

Termos relacionados

Cuneiforme
Escrita em forma de cunha, feita com estilete em argila mole.
Cálamo
Caniço ou junco cortado em ponta, usado para escrever com tinta.
Velino
Pergaminho de qualidade superior, geralmente feito de pele de bezerro.
Filigrana
Marca d’água de desenho próprio, deixada no papel pelo arame da forma.
Trapo
Retalho de tecido de linho ou cânhamo usado como matéria-prima do papel até o século XIX.
Tabuleta de cera
Placa de madeira com superfície de cera que podia ser apagada e reescrita.

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Referências

  • Febvre, Lucien; Martin, Henri-Jean. O Aparecimento do Livro (L’apparition du livre). 1958.
  • Tsien, Tsuen-Hsuin. Paper and Printing, em Science and Civilisation in China, vol. 5, parte 1, de Joseph Needham. Cambridge University Press, 1985.
  • Lyons, Martyn. Books: A Living History. 2011.
  • Encyclopaedia Britannica. Verbetes “Writing” e “Paper”.
  • Bloom, Jonathan M. Paper Before Print: The History and Impact of Paper in the Islamic World. Yale University Press, 2001.

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