História do livro e da leitura
Gutenberg e os tipos móveis
Em Mainz, por volta de 1450, Johannes Gutenberg desenvolveu a impressão com tipos móveis metálicos. Entenda a técnica, a Bíblia e o alcance dessa mudança.
Contextualização histórica
Johannes Gutenberg, nascido em Mainz, na atual Alemanha, por volta de 1400, é reconhecido como o responsável pela introdução da impressão com tipos móveis de metal na Europa. Sabe-se pouco de sua vida, e boa parte do que se conhece vem de documentos jurídicos, entre eles processos por dívidas. Atuou em Estrasburgo nos anos 1430 e 1440, e de volta a Mainz, por volta de 1448, obteve empréstimos do financista Johann Fust para montar uma oficina. O principal produto desse empreendimento foi a Bíblia de 42 linhas, concluída por volta de 1455.
Gutenberg não inventou a impressão nem os tipos móveis em si. A xilogravura, em que um bloco de madeira entalhado transfere o texto para o papel, já era usada na Ásia e, na Europa, para imagens e pequenos textos. Na China, Bi Sheng desenvolveu, por volta de 1040, tipos móveis de cerâmica, segundo o relato de Shen Kuo. Na Coreia, o Jikji, de 1377, é o mais antigo livro conhecido impresso com tipos móveis de metal. A contribuição atribuída a Gutenberg é um sistema integrado de produção em larga escala, adaptado ao alfabeto latino, que combinava molde de fundição, liga metálica, tinta apropriada e prensa.
Conceitos essenciais
Tipo móvel
Peça individual, com um caractere em relevo invertido, que pode ser combinada com outras para compor páginas e reutilizada.
Incunábulo
Livro impresso na Europa antes de 1501, das palavras latinas para “berço”.
Molde de fundição
Instrumento manual que permitia fundir muitos tipos idênticos a partir de uma matriz.
Prensa tipográfica
Máquina que pressiona o papel contra os tipos entintados, adaptada de prensas de uva e azeitona.
A técnica
O processo começava com a gravação de uma matriz em metal duro, que era usada para formar um molde. Nele, uma liga de chumbo, estanho e antimônio, escolhida por derreter a baixa temperatura e endurecer sem deformar, era vertida, produzindo grande número de tipos iguais. O compositor selecionava as letras e as organizava em linhas, depois em páginas, presas em uma forma. Concluída a impressão, os tipos eram desmontados e reaproveitados.
Gutenberg adaptou também a prensa, derivada das prensas de vinho e de azeite, e desenvolveu uma tinta a óleo, mais aderente ao metal do que as tintas aquosas usadas na escrita manual. Esses elementos, combinados, tornaram possível produzir muitas cópias idênticas de um mesmo texto, em escala impossível para os copistas.
A Bíblia de 42 linhas
A Bíblia de Gutenberg, assim chamada por ter quarenta e duas linhas por coluna, é o primeiro grande livro europeu impresso com tipos móveis. Em março de 1455, uma carta do futuro papa Pio II, então Enea Silvio Piccolomini, descrevia a visão de volumes dessa Bíblia, o que ajuda a situar sua produção. Estima-se que a tiragem tenha sido de cerca de 180 exemplares, parte em papel e parte em pergaminho, mas é número aproximado e debatido. Pouco menos de cinquenta exemplares, completos ou parciais, sobrevivem hoje.
O aspecto da obra imita o dos manuscritos de luxo: letra gótica de forma semelhante à caligrafia, ligaduras e abreviaturas, margens amplas e espaços para iniciais e decorações pintados à mão depois da impressão. Isso mostra que os primeiros impressores buscavam reproduzir, em maior escala, o produto que o mercado já conhecia, não criar um objeto novo.
Disputa, dispersão e difusão
Em 1455, Fust moveu uma ação judicial contra Gutenberg para recuperar os valores emprestados, e a oficina passou em grande parte para Fust e para seu genro Peter Schöffer. Esses dois imprimiram em 1457 o Saltério de Mainz, o primeiro livro impresso com data e nomes dos impressores. Gutenberg continuou envolvido com a impressão, mas faleceu em 1468 sem grande fortuna.
Em 1462, a tomada de Mainz em conflito local dispersou os trabalhadores, e a técnica se espalhou pelo continente. Em 1465, Sweynheym e Pannartz instalaram uma prensa em Subiaco, na Itália; Veneza tornou-se, no final do século, um centro de primeira ordem; e William Caxton imprimiu na Inglaterra a partir de 1476. A expansão foi rápida: em poucas décadas, dezenas de cidades europeias tinham oficinas tipográficas, e milhões de livros circularam antes de 1500, segundo estimativas dos historiadores.
Impactos e debates
A imprensa baixou o custo da produção de textos, ampliou a circulação de ideias e contribuiu para a padronização de línguas, para a Reforma protestante e para a ciência moderna. A historiadora Elizabeth Eisenstein, em estudo de 1979, defendeu que a imprensa foi um “agente de mudança” de longo alcance, tese que foi debatida e matizada por outros autores, que apontam continuidades com a cultura manuscrita e diferenças regionais.
A impressão com tipos móveis também gerou novas profissões, como a de impressor, de tipógrafo e de revisor, e novas figuras editoriais, como a de Aldo Manúcio, em Veneza. Direitos de cópia e censura surgiram como respostas políticas ao poder de reprodução, tema que mais tarde conduziria a leis como o Estatuto da Rainha Ana.
Mudanças no trabalho e no mercado do livro
A tipografia exigia capital para comprar prensas, metal e papel, o que levou impressores a se associarem a financistas, como no caso de Gutenberg e Fust, e a produzir obras com demanda comprovada, como Bíblias, livros litúrgicos, gramáticas e textos universitários. Ao longo do século XV surgiram práticas que hoje se associam à edição: a página de rosto, a numeração de páginas, os índices e a divulgação de catálogos de obras à venda.
Impressores como Aldo Manúcio, em Veneza, experimentaram formatos menores e novos desenhos de tipos, e o texto passou a depender também de revisores e de corretores de provas. A estabilidade do texto impresso, em que as cópias de uma mesma tiragem eram em princípio iguais, favoreceu a citação precisa e a construção de cânones. Isso não eliminou erros, que continuaram a ocorrer e a ser corrigidos em novas edições.
Xilogravura × Tipos móveis asiáticos × Tipos de Gutenberg
| Critério | Xilogravura | Tipos móveis asiáticos | Sistema de Gutenberg |
|---|---|---|---|
| Unidade de impressão | Bloco entalhado para cada página | Caracteres individuais de cerâmica ou metal | Tipos fundidos em liga metálica |
| Reutilização | Limitada à mesma página | Peças reaproveitáveis | Peças reaproveitáveis em escala |
| Escrita atendida | Qualquer, incluindo chinesa | Caracteres chineses e coreanos | Alfabeto latino, com poucos caracteres |
| Fabricação dos tipos | Entalhe manual | Cerâmica ou fundição em areia | Fundição em molde manual |
| Registro conhecido | Séculos anteriores na Ásia | c. 1040 e 1377 | c. 1455 |
Cronologia
- c. 1040Bi Sheng desenvolve tipos móveis de cerâmica na China, segundo Shen Kuo.
- 1377Impressão do Jikji, na Coreia, com tipos móveis de metal.
- c. 1448Gutenberg retorna a Mainz e obtém financiamento de Johann Fust.
- c. 1455Conclusão da Bíblia de 42 linhas.
- 1457Fust e Schöffer imprimem o Saltério de Mainz.
- 1465Primeira prensa na Itália, em Subiaco.
- 1476William Caxton imprime na Inglaterra.
Curiosidades verificáveis
- O Jikji, impresso na Coreia em 1377 com tipos metálicos, é o mais antigo livro conhecido impresso dessa forma e está conservado na Biblioteca Nacional da França.
- O termo “incunábulo” vem do latim e significa “berço”, em referência aos primeiros anos da imprensa; o período vai até o final de 1500.
- A Bíblia de Gutenberg foi impressa em duas colunas, com 42 linhas por página na maioria dos exemplares, e distribuída em dois volumes.
- Há exemplares da Bíblia de Gutenberg na Biblioteca Britânica, na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e na Biblioteca Nacional da França, entre outras instituições.
Termos relacionados
- Forma
- Moldura de ferro onde as linhas de tipos são travadas para a impressão.
- Tipógrafo
- Profissional que compõe o texto com tipos móveis.
- Caixa tipográfica
- Gaveta com compartimentos onde os tipos são organizados por caractere.
- Capitular
- Letra inicial ornamentada, frequentemente acrescentada à mão nos primeiros impressos.
- Colofão
- Nota final com dados do impressor, local e data.
- Liga tipográfica
- Mistura metálica, em geral de chumbo, estanho e antimônio, usada para fundir tipos.
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Referências
- Eisenstein, Elizabeth L. The Printing Press as an Agent of Change. Cambridge University Press, 1979.
- Febvre, Lucien; Martin, Henri-Jean. O Aparecimento do Livro. 1958.
- Man, John. The Gutenberg Revolution. 2002.
- Tsien, Tsuen-Hsuin. Paper and Printing, em Science and Civilisation in China, vol. 5, parte 1, de Joseph Needham. Cambridge University Press, 1985.
- Encyclopaedia Britannica. Verbete “Johannes Gutenberg”.
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