Gladpress

Formatos e processos de publicação

Formatos in-fólio, in-quarto e in-oitavo

Os formatos in-fólio, in-quarto e in-oitavo designam o número de dobras dadas à folha de papel e, por extensão, o tamanho aproximado do livro impresso.

  • TipoConceito
  • PeríodoSéculos XV–XVIII
  • PaísesGlobal
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

Durante séculos, o papel usado na impressão não era fabricado em rolos, mas em folhas de dimensões limitadas pelo tamanho do molde e pela capacidade do papeleiro que as formava, uma a uma. Cada folha impressa em ambos os lados era então dobrada para formar um caderno, e os cadernos eram reunidos e costurados para compor o livro. Daí nasceu uma terminologia que mede o livro não em centímetros, mas pelo número de vezes que a folha original foi dobrada.

Os nomes vêm do latim: in folio significa “em folha”, in quarto, “em quarto”, e in octavo, “em oitavo”. A mesma lógica aparece nas notações abreviadas da bibliografia, como 2º, 4º e 8º. Como as folhas de papel variavam de tamanho conforme a região e a época, os termos indicam uma proporção de dobra, e não uma medida fixa. Um in-quarto feito com papel grande podia ser maior do que um in-fólio feito com papel pequeno.

Esses formatos já existiam no tempo dos manuscritos em pergaminho, mas se tornaram vocabulário técnico de livreiros, tipógrafos e bibliógrafos com a difusão da imprensa a partir de meados do século XV. Para quem estuda livros antigos, identificar o formato é uma das primeiras operações de descrição, pois revela como a folha foi impressa, como o livro foi concebido e, muitas vezes, a que público ele se destinava.

Conceitos essenciais

In-fólio

Formato obtido dobrando a folha uma única vez, o que produz duas folhas (quatro páginas) por folha impressa. É o maior dos formatos tradicionais.

In-quarto

Formato em que a folha é dobrada duas vezes, resultando em quatro folhas (oito páginas) por folha impressa.

In-oitavo

Formato em que a folha é dobrada três vezes, resultando em oito folhas (dezesseis páginas) por folha impressa, e um volume de tamanho manejável.

Caderno

Conjunto de folhas dobradas e encaixadas entre si, unidade básica de costura do livro.

Linhas de água

Marcas paralelas e perpendiculares deixadas no papel de forma pela trama do molde, cuja orientação ajuda a identificar o formato.

Como a dobra define o formato

O princípio é simples. Uma folha dobrada ao meio uma vez forma o in-fólio: cada folha da dobra tem duas faces, e a folha inteira rende quatro páginas. Dobrando-se novamente a folha, obtém-se o in-quarto, com oito páginas por folha. Uma terceira dobra produz o in-oitavo, com dezesseis páginas. Existem ainda formatos menores, como o in-duodécimo, em que a folha rende doze folhas, e o in-dezesseis, mas os três primeiros permanecem como a tríade clássica.

Na oficina, o impressor não imprimia páginas isoladas. Compunha uma forma de tipos contendo as páginas na ordem de imposição, isto é, dispostas de tal modo que, depois de impressas e dobradas, a sequência de leitura ficasse correta. A imposição de um in-fólio é bastante direta; a de um in-oitavo exige que algumas páginas fiquem de cabeça para baixo na forma, para que se endireitem depois da dobra. Era um trabalho que exigia método e atenção, pois um erro de imposição inutilizava a tiragem do caderno.

Reconhecendo o formato em um exemplar

Os bibliógrafos usam diversos indícios para identificar o formato de um livro antigo. O mais importante é a direção das linhas de água, que marcam o papel feito à mão. Em geral, num in-fólio elas correm na vertical em cada folha; no in-quarto aparecem na horizontal; no in-oitavo voltam a ser verticais. A posição da marca-d’água também ajuda, bem como o número de folhas por caderno e as chamadas de assinatura impressas no pé das páginas. Esses métodos foram sistematizados na bibliografia material do século XX, em obras como as de Fredson Bowers e Philip Gaskell.

Esse tipo de análise tem consequências práticas: permite distinguir edições, detectar folhas substituídas e compreender como uma obra foi produzida. Num livro moderno, impresso em papel de bobina ou em grandes folhas que rendem muitas páginas, os nomes tradicionais perderam o sentido técnico exato, embora ainda sejam usados de modo aproximado por livreiros e colecionadores.

Usos e público de cada formato

O in-fólio era o formato da solenidade e da autoridade. Bíblias de altar, obras de direito, grandes atlas, edições de luxo e coletâneas prestigiosas costumavam sair nesse tamanho. A Bíblia de Gutenberg, produzida em Mainz por volta de 1455, e o célebre First Folio de Shakespeare, publicado em 1623, são exemplos conhecidos. Era um livro caro, pesado, feito para ser consultado sobre uma mesa ou um atril, não carregado na mão.

O in-quarto era um formato intermediário, comum em peças de teatro, obras científicas e literatura de circulação mais ampla. O in-oitavo, por sua vez, tornou-se o formato do livro portátil. As edições de bolso de textos clássicos publicadas em Veneza por Aldo Manúcio, a partir de cerca de 1501, adotaram o in-oitavo, tornando possível ler fora da biblioteca e baratear o custo. A relação entre formato e uso de leitura é, assim, um tema recorrente na história do livro.

Permanência da terminologia

Com a mecanização da fabricação de papel no século XIX e, depois, com a impressão em grandes máquinas, a ligação direta entre formato e dobras se afrouxou. Hoje os livros são descritos por suas dimensões em milímetros, e as gráficas trabalham com formatos de papel padronizados. Ainda assim, os termos permanecem na linguagem de sebos, leilões e catálogos de livros raros, e continuam indispensáveis para quem descreve edições antigas com rigor.

Formato, texto e mercado

A escolha do formato nunca foi apenas técnica. Cada dobra altera o número de páginas por folha, e, portanto, o custo de papel e de trabalho do impressor. Um livro volumoso em in-fólio consumia muitas folhas grandes, exigia prensas robustas e resultava em um volume caro, que só instituições e leitores ricos podiam adquirir. O in-oitavo, ao contrário, rendia mais páginas por folha, usava papel em quantidade menor por página impressa e permitia tiragens destinadas a um público mais amplo.

Também havia convenções de gênero. Dramaturgos ingleses do período elisabetano frequentemente viam suas peças circularem em in-quarto, edições avulsas e baratas, enquanto a reunião em in-fólio indicava a consagração de um autor. Na bibliografia moderna, o formato é um dado básico da descrição de uma edição, ao lado da folha de rosto, da colação dos cadernos e das informações de impressão. Quem cataloga um livro antigo registra o formato porque ele ajuda a distinguir edições, a localizar exemplares incompletos e a reconstituir a forma como o livro foi pensado e vendido em sua época.

Hoje, o leitor comum raramente encontra esses nomes fora de catálogos de leilões, mas a herança permanece em expressões do cotidiano editorial. Falar em livro de formato in-quarto, por exemplo, evoca uma obra de tamanho médio e grande, e o termo in-fólio ainda sugere solenidade. A própria noção de que o livro nasce de uma folha dobrada ajuda a compreender por que as páginas de um volume são organizadas em múltiplos de quatro, oito ou dezesseis, regra que continua a orientar a paginação de livros impressos em offset.

In-fólio × in-quarto × in-oitavo

CritérioIn-fólioIn-quartoIn-oitavo
Dobras da folhaUmaDuasTrês
Páginas por folha impressaQuatroOitoDezesseis
Folhas por folha impressaDuasQuatroOito
Linhas de água (em geral)VerticaisHorizontaisVerticais
Uso típicoBíblias, atlas, edições de prestígioTeatro, obras científicas, literatura em geralLivro portátil e de leitura corrente

Cronologia

  1. c. 1455A Bíblia de Gutenberg, impressa em formato in-fólio, é produzida em Mainz.
  2. c. 1501Aldo Manúcio inicia em Veneza a série de clássicos em in-oitavo, de formato portátil.
  3. 1623Publicação do First Folio das peças de Shakespeare.
  4. Século XIXA fabricação mecânica do papel e as máquinas de impressão diminuem o vínculo entre dobras e dimensões do livro.
  5. 1949Fredson Bowers publica Principles of Bibliographical Description, obra de referência para a descrição de livros antigos.

Curiosidades verificáveis

  • O nome “First Folio” refere-se ao formato in-fólio da primeira coletânea das peças de Shakespeare, publicada em 1623, depois da morte do dramaturgo.
  • Na imposição de um in-oitavo, parte das páginas é composta de cabeça para baixo na forma, de modo que se endireitem quando a folha é dobrada.
  • As edições aldinas em in-oitavo, a partir de cerca de 1501, são lembradas como marco do livro portátil de textos clássicos.
  • Um in-quarto feito com papel de grandes dimensões podia superar em tamanho um in-fólio feito com papel pequeno, pois o termo indica a dobra, e não uma medida fixa.

Termos relacionados

Imposição
Disposição das páginas na forma de impressão para que, após a dobra, fiquem em ordem de leitura.
Forma
Armação com os tipos compostos de um lado da folha, pronta para ser entintada e impressa.
Assinatura
Letra ou número impresso no pé da página para orientar o encadernador na ordem dos cadernos.
Marca-d’água
Desenho presente no papel feito à mão, formado por arame no molde, útil para identificar papel e formato.
In-duodécimo
Formato em que a folha rende doze folhas, menor que o in-oitavo.
Bibliografia material
Ramo de estudo que analisa o livro como objeto físico, incluindo papel, formato e processo de produção.

Ver glossário completo →

Leituras internas

História do livro e da leitura

Gutenberg e os tipos móveis

Em Mainz, por volta de 1450, Johannes Gutenberg desenvolveu a impressão com tipos móveis metálicos. Entenda a técnica, a Bíblia e o alcance dessa mudança.

EventoSéculos XV–XVIII

Editoras e mercado editorial

Aldo Manúcio e a editora Aldina

Humanista e impressor, Aldo Manúcio fundou em Veneza, por volta de 1495, a oficina aldina, ligada ao grego, ao tipo itálico e ao livro de formato pequeno.

PessoaSéculos XV–XVIII

Formatos e processos de publicação

Encadernação

A encadernação reúne as técnicas de costurar, proteger e revestir os cadernos de um livro, do ofício artesanal em couro à produção industrial em tecido e cola.

TécnicaVários períodos

Formatos e processos de publicação

Composição tipográfica: do chumbo à linotipia

Da composição manual com tipos móveis de chumbo à Linotype e à Monotype, a composição tipográfica mecanizou-se entre o fim do século XIX e o século XX.

TécnicaVários períodos

História do livro e da leitura

Códice: o livro em páginas

O códice, com folhas dobradas e costuradas em cadernos, substituiu o rolo e definiu o livro como o conhecemos: com páginas, índice e acesso direto ao texto.

ObjetoAntiguidade

Referências

  • Philip Gaskell. A New Introduction to Bibliography. Oxford University Press, 1972.
  • Fredson Bowers. Principles of Bibliographical Description. Princeton University Press, 1949.
  • Lucien Febvre e Henri-Jean Martin. L’apparition du livre. Albin Michel, 1958.
  • John Carter. ABC for Book Collectors.
  • Encyclopaedia Britannica. Verbetes sobre bookbinding e printing.

Veja como o conteúdo é produzido e corrigido na política editorial.