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História do livro e da leitura

Manuscritos iluminados e scriptoria

Nos scriptoria medievais, monges e artesãos copiaram e decoraram livros à mão. Entenda os materiais, as técnicas e a transição para ateliês laicos.

  • TipoObjeto
  • PeríodoIdade Média
  • PaísesIrlanda, França, Reino Unido, Itália
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

Durante grande parte da Idade Média, todo livro era um manuscrito, isto é, copiado à mão sobre pergaminho, e cada exemplar era único, com variações de texto, de letra e de decoração. A cópia de textos estava concentrada, na Europa ocidental, em mosteiros, onde um espaço de trabalho dedicado à escrita, o scriptorium, reunia copistas, corretores, iluminadores e encadernadores. Esses centros foram decisivos para conservar parte da literatura latina clássica, os textos patrísticos e a produção litúrgica.

O termo “iluminura” refere-se à decoração de manuscritos com cores e metais preciosos. Vem do latim “illuminare”, iluminar, em alusão ao brilho do ouro e das cores sobre a página. A palavra “miniatura”, por sua vez, deriva de “minium”, o pigmento vermelho usado nas letras iniciais, e só mais tarde passou a significar “pequeno”. Um manuscrito iluminado combina texto, ornamento e imagem, e foi sinal de prestígio de seus encomendantes, fossem abadias, bispos, reis ou nobres.

Conceitos essenciais

Scriptorium

Sala ou oficina, em geral monástica, destinada à cópia de manuscritos.

Iluminura

Decoração de manuscritos com cores, ouro ou prata, incluindo letras iniciais ornamentadas e ilustrações.

Minúscula carolina

Escrita clara e regular difundida na época de Carlos Magno, base das letras minúsculas modernas.

Livro de horas

Livro de orações para uso de leigos, muito copiado e ilustrado nos séculos XIV e XV.

Os scriptoria monásticos

A tradição de copiar livros em comunidades religiosas remonta aos séculos finais da Antiguidade. Cassiodoro, estadista que se tornou monge, fundou por volta de 540 o mosteiro de Vivarium, no sul da Itália, e incentivou a cópia de textos como parte do trabalho monástico. Outros centros importantes foram Bobbio, Monte Cassino, Fulda e, nas ilhas britânicas, Lindisfarne, Jarrow e Iona. Nem todo mosteiro mantinha um scriptorium de grande porte, e muitos copiavam apenas o necessário para a liturgia e a vida comunitária.

A organização do trabalho variava. Em alguns casos, um mesmo monge escrevia e decorava o livro; em outros, havia divisão entre copistas, rubricadores, que acrescentavam títulos em vermelho, e artistas. Os copistas deixaram por vezes notas nas margens ou no colofão, pedindo orações ou queixando-se do frio e do cansaço, o que humaniza uma tarefa de resto anônima.

Materiais e técnicas

O suporte era o pergaminho, preparado com peles de ovelha, cabra ou bezerro, que eram depuradas, raspadas e cortadas em folhas. Estas eram dobradas em cadernos, riscadas com linhas-guia e preenchidas com tinta, em geral de galha de carvalho misturada a sulfato de ferro, ou à base de carbono. As penas eram de ave, geralmente de ganso.

Os pigmentos incluíam o vermelhão e o mínio para o vermelho, o azul de lápis-lazúli, cujo uso era dispendioso por ser importado do atual Afeganistão, e o azul de azurita, além de verdes de origem mineral. O ouro era aplicado em folha, sobre uma base preparatória, e depois polido. A combinação de materiais caros tornava certos manuscritos objetos de extraordinário valor, usados em cerimônias e guardados em tesouros.

Estilos e obras famosas

O estilo insular, desenvolvido na Irlanda e na Nortúmbria, produziu obras como os Evangelhos de Lindisfarne, de cerca de 700, hoje na British Library, e o Livro de Kells, de cerca de 800, conservado no Trinity College, em Dublin, notáveis pelos motivos entrelaçados e pelas páginas-tapete. Na corte de Carlos Magno, a reforma cultural carolíngia promoveu a minúscula carolina, difundida por centros como Tours, onde atuou o estudioso Alcuíno de York, e cuja legibilidade influenciou a escrita humanista e, depois, os tipos de imprensa.

Nos séculos finais da Idade Média, a iluminura gótica alcançou grande refinamento, em especial nos livros de horas. Um dos mais célebres é o Très Riches Heures do duque de Berry, produzido no início do século XV pelos irmãos Limbourg e conservado em Chantilly, na França. Nesses livros, as cenas do calendário e a vida cotidiana ganham lugar ao lado de temas religiosos.

Do mosteiro à oficina laica

A partir do século XII e sobretudo no XIII, o crescimento das cidades e das universidades, como Paris e Bolonha, aumentou a procura por livros. Surgiram livreiros e oficinas laicas que copiavam e iluminavam sob encomenda. Nas universidades, adotou-se o sistema da pecia, em que o texto autorizado era dividido em cadernos alugados a estudantes para cópia, o que acelerava a reprodução de obras de estudo.

A chegada da imprensa de tipos móveis em meados do século XV não encerrou de imediato a produção de manuscritos. Livros de luxo continuaram a ser copiados e iluminados por algum tempo, e os primeiros impressos imitaram o aspecto dos manuscritos, deixando espaços para letras capitulares e decorações feitas à mão. A Bíblia de Gutenberg é um exemplo dessa continuidade entre os dois mundos.

Preservação e importância para a história

Os manuscritos medievais são hoje fonte indispensável para o estudo da literatura, da religião, do direito, da ciência e da vida cotidiana. A maior parte das obras clássicas latinas que conhecemos chegou até nós por cópias carolíngias ou posteriores, o que faz dos scriptoria agentes centrais da transmissão cultural. Ao mesmo tempo, a seleção do que se copiava dependia de interesses religiosos, de recursos e de gostos locais, e muitas obras se perderam por falta de cópias.

Atualmente, bibliotecas e museus conservam esses livros em condições controladas de luz, umidade e temperatura, e muitos foram digitalizados para consulta pública. A codicologia, que estuda o livro manuscrito como objeto material, e a paleografia, que estuda as escritas antigas, são disciplinas voltadas a datar e localizar esses códices, examinando tipos de letra, pigmentos, composição dos cadernos e características do pergaminho. Estudar esses livros exige também atenção às suas encadernações e a marcas de uso, como anotações de leitores, que revelam como cada exemplar circulou e foi lido ao longo dos séculos.

Cronologia

  1. c. 540Cassiodoro funda o mosteiro de Vivarium e promove a cópia de textos.
  2. c. 700Produção dos Evangelhos de Lindisfarne, na Nortúmbria.
  3. c. 800Livro de Kells e difusão da minúscula carolina no império de Carlos Magno.
  4. Século XIIICrescimento de oficinas laicas e do sistema da pecia nas universidades.
  5. Início do século XVTrès Riches Heures do duque de Berry, pelos irmãos Limbourg.
  6. c. 1455Bíblia de Gutenberg, com espaços para iniciais decoradas à mão.

Curiosidades verificáveis

  • A palavra “miniatura” vem de “minium”, pigmento vermelho de chumbo, e não do tamanho pequeno das imagens, associação que surgiu depois por confusão com “minus”.
  • Alguns copistas anotaram nas margens frases como queixas sobre o frio, a má pena ou o cansaço, um dos testemunhos mais diretos da vida nos scriptoria.
  • O azul de lápis-lazúli era importado de minas da região do atual Afeganistão e chegava à Europa por rotas comerciais, sendo um dos pigmentos mais caros disponíveis.
  • O Livro de Kells é guardado no Trinity College, em Dublin, e suas páginas são exibidas em rodízio, para limitar a exposição à luz.

Termos relacionados

Rubricador
Profissional que acrescentava títulos e iniciais em vermelho ao texto copiado.
Capitular
Letra inicial de destaque, frequentemente decorada, no começo de um texto ou capítulo.
Pecia
Caderno de um texto autorizado, alugado por universidades para cópia.
Colofão
Nota final do copista com informações sobre a cópia.
Margem
Espaço em torno do texto, usado para glosas, anotações e ornamentos.
Folha de ouro
Lâmina finíssima de ouro aplicada sobre uma base adesiva nas iluminuras.

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Referências

  • de Hamel, Christopher. A History of Illuminated Manuscripts. Phaidon, 1986.
  • Reynolds, L. D.; Wilson, N. G. Scribes and Scholars: A Guide to the Transmission of Greek and Latin Literature. Oxford University Press, 1968.
  • Bischoff, Bernhard. Latin Palaeography: Antiquity and the Middle Ages. Cambridge University Press, 1990.
  • British Library. Catalogue of Illuminated Manuscripts.
  • Encyclopaedia Britannica. Verbete “Illuminated manuscript”.

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