Movimentos e períodos literários
Parnasianismo e Simbolismo
Duas correntes poéticas do fim do século XIX: o Parnasianismo, da forma impecável, e o Simbolismo, da sugestão e da música, de Bilac a Cruz e Sousa.
Contextualização histórica
Parnasianismo e Simbolismo foram correntes poéticas que se desenvolveram na França e depois se difundiram por outras literaturas, durante as décadas finais do século XIX. Surgiram em contexto de reação ao sentimentalismo romântico e, ao mesmo tempo, de distanciamento em relação ao cientificismo do Realismo. Ambas defendem a autonomia da arte, mas por caminhos opostos: os parnasianos buscam a perfeição formal e a objetividade, e os simbolistas apostam na sugestão, no mistério e na musicalidade.
O nome Parnasianismo deriva da antologia Le Parnasse contemporain, publicada em fascículos a partir de 1866, que reuniu poetas como Leconte de Lisle, Théodore de Banville e José-Maria de Heredia. O termo Simbolismo foi lançado por Jean Moréas, num manifesto publicado no jornal Le Figaro em 18 de setembro de 1886, embora seus principais poetas, como Charles Baudelaire, já escrevessem antes disso.
Conceitos essenciais
Arte pela arte
Princípio segundo o qual a arte vale por si mesma, sem finalidade moral ou política.
Correspondências
Ideia, associada a Baudelaire, de que sons, cores e perfumes se respondem e revelam realidades ocultas.
Sinestesia
Cruzamento de sensações de sentidos diferentes numa mesma imagem.
Poesia pura
Aspiração a uma poesia depurada de explicações e narrativa, voltada à música verbal.
O Parnasianismo
A estética parnasiana tem antecedentes em Théophile Gautier, que defendeu a arte pela arte e publicou em 1852 a coletânea Émaux et camées. Os parnasianos cultivaram a descrição de objetos, paisagens e temas da Antiguidade, com versificação rigorosa, rimas ricas, vocabulário seletivo e preferência por formas fixas, em especial o soneto. Admiravam o trabalho do escultor e do ourives, comparando a criação poética a um ofício paciente.
O ideal de impessoalidade levou a poesia a evitar a confissão direta das emoções, ainda que muitos poemas parnasianos deixem transparecer sentimentos. A crítica posterior frequentemente os acusou de frieza e de culto exagerado à forma, embora reconheça a importância técnica do movimento para a renovação do verso.
Entre os parnasianos franceses, Leconte de Lisle foi o nome de maior autoridade, com poemas de inspiração clássica e oriental, e seu prefácio aos Poèmes antiques, de 1852, serviu de manifesto. José-Maria de Heredia, nascido em Cuba, ficou célebre pela coleção de sonetos Les Trophées, de 1893, tida como exemplo acabado do ideal parnasiano.
O Simbolismo
Charles Baudelaire, com As flores do mal, de 1857, é visto como precursor, e Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé como os grandes nomes da geração seguinte. Verlaine reuniu perfis de poetas em Os poetas malditos, de 1884; Rimbaud publicou Uma temporada no inferno em 1873; Mallarmé levou a experimentação a um extremo com Um lance de dados, de 1897, cuja disposição tipográfica no espaço da página foi inovadora.
O Simbolismo prefere sugerir a nomear. Recorre a metáforas, alegorias, sinestesias e a uma sonoridade cuidadosamente trabalhada, e trata de temas como o mistério, o sonho, a morte, o inconsciente e a espiritualidade. Em vez da descrição exata, valoriza o vago, o nebuloso e o transcendente, e por isso se aproxima da música, que Verlaine exaltou em sua Arte poética.
Entre os simbolistas, a influência do poeta norte-americano Edgar Allan Poe, traduzido por Baudelaire para o francês, foi marcante, e o compositor Richard Wagner exerceu fascínio sobre o grupo, pela ideia de obra de arte total. A música de Claude Debussy ficou ligada ao ambiente simbolista, e sua ópera Pelléas et Mélisande, de 1902, baseia-se em peça do belga Maurice Maeterlinck.
Brasil
No Brasil, a introdução do Parnasianismo é associada, na história literária, à publicação de Fanfarras, de Teófilo Dias, em 1882, e à atuação de Alberto de Oliveira, Raimundo Correia e Olavo Bilac, a chamada tríade parnasiana. Bilac publicou Poesias em 1888 e tornou-se o poeta mais popular do período, além de ativo em campanhas cívicas e na imprensa. Alberto de Oliveira lançou Meridionais, em 1884, e Vicente de Carvalho teve presença marcante no litoral paulista em sua poesia.
O Simbolismo brasileiro é convencionalmente aberto em 1893 com Missal (prosa poética) e Broquéis (poesia), de João da Cruz e Sousa, poeta catarinense e descendente de africanos escravizados. Alphonsus de Guimaraens, radicado em Mariana, Minas Gerais, desenvolveu uma poesia mística e litúrgica, de tom fúnebre e de devoção mariana.
A convivência entre as duas correntes no Brasil gerou polêmicas na imprensa e disputas pela Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897, que acolheu com maior facilidade os poetas parnasianos. Cruz e Sousa nunca integrou a instituição, e sua obra só alcançou reconhecimento amplo depois de sua morte, quando críticos como Roger Bastide, no século XX, destacaram a originalidade de sua linguagem.
Portugal
Em Portugal, o Simbolismo é associado a Eugénio de Castro, cujo livro Oaristos, de 1890, é considerado marco, a António Nobre, autor de Só, de 1892, e a Camilo Pessanha, que reuniu seus poemas em Clepsidra, publicada em 1920. A recepção do movimento se fez em polêmica com os realistas, e a revista Orpheu, em 1915, abriria o caminho para o Modernismo português.
Revistas, pequenos círculos e livros de poesia
As correntes de fim de século tiveram vida intensa em revistas e círculos literários. O Parnasianismo organizou-se em torno de antologias coletivas, e o Simbolismo em torno de pequenas revistas e cenáculos, como as terças-feiras de Mallarmé em Paris, reunião semanal em sua casa. Essas publicações tinham tiragens modestas, destinadas a um público restrito, e muitos livros simbolistas foram impressos em edições limitadas, com cuidado gráfico e capas simbólicas.
No Brasil, jornais e revistas como a Revista Ilustrada, a Gazeta de Notícias e, mais tarde, periódicos simbolistas do Paraná e de Santa Catarina deram espaço aos poetas. O Simbolismo teve circulação mais restrita e foi, durante décadas, obscurecido pela popularidade parnasiana, mas passou a ser revalorizado no século XX, quando críticos e poetas modernos reconheceram nele uma ponte para a poesia contemporânea. Esse processo de reavaliação ilustra como a posteridade pode inverter o prestígio de um movimento.
Parnasianismo × Simbolismo
| Critério | Parnasianismo | Simbolismo |
|---|---|---|
| Ideal | Perfeição formal e objetividade. | Sugestão, mistério e musicalidade. |
| Linguagem | Precisa, descritiva e culta. | Sinestésica, vaga e simbólica. |
| Temas | Antiguidade, arte, natureza, objetos. | Morte, sonho, espiritualidade, inconsciente. |
| Forma | Soneto e métrica rigorosa. | Maior liberdade de ritmo e de sintaxe. |
| Brasil | Bilac, Alberto de Oliveira, Raimundo Correia. | Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens. |
Cronologia
- 1857Baudelaire publica As flores do mal.
- 1866Início da publicação de Le Parnasse contemporain.
- 1882Teófilo Dias publica Fanfarras, tida como porta de entrada do Parnasianismo no Brasil.
- 1886Jean Moréas publica o manifesto do Simbolismo.
- 1888Olavo Bilac publica Poesias.
- 1890Eugénio de Castro publica Oaristos.
- 1893Cruz e Sousa publica Missal e Broquéis.
- 1897Mallarmé publica Um lance de dados.
Curiosidades verificáveis
- Mallarmé publicou Um lance de dados em 1897, poema em que a posição das palavras na página faz parte do sentido.
- Olavo Bilac é autor da letra do Hino à Bandeira, musicado por Francisco Braga.
- Cruz e Sousa morreu em 1898, aos 36 anos, em Minas Gerais, e seu legado foi valorizado sobretudo após sua morte.
- A antologia Le Parnasse contemporain teve três séries, publicadas em 1866, 1871 e 1876.
Termos relacionados
- Soneto
- Poema de quatorze versos, em dois quartetos e dois tercetos.
- Chave de ouro
- Verso final do soneto que fecha o poema com efeito marcante.
- Alexandrino
- Verso de doze sílabas poéticas, comum na poesia francesa e parnasiana.
- Aliteração
- Repetição de sons consoantes semelhantes ao longo do verso.
- Poetas malditos
- Expressão de Verlaine para poetas marginalizados em seu tempo.
Leituras internas
Movimentos e períodos literários
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Correntes da segunda metade do século XIX que trocaram o ideal romântico pela observação da sociedade, com Flaubert, Zola, Eça de Queirós e Machado de Assis.
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CuriosidadeVários períodos
Referências
- Hugo Friedrich. Estrutura da lírica moderna. 1956.
- Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira. Cultrix.
- Antonio Candido. Formação da literatura brasileira. 1959.
- Encyclopaedia Britannica. Verbetes “Parnassian” e “Symbolism”.
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