Impressão Régia e a imprensa no Brasil
Criada por decreto de D. João em 1808, no Rio de Janeiro, a Impressão Régia inaugurou a imprensa oficial no Brasil, que até então proibia tipografias.
Contextualização histórica
Durante o período colonial, a Coroa portuguesa não autorizou a instalação regular de tipografias no Brasil. Livros e papéis oficiais eram impressos em Lisboa, e os exemplares que circulavam na colônia dependiam do comércio por mar, sujeito a licenças e à vigilância da censura. Houve tentativas isoladas: em 1747, o impressor Antônio Isidoro da Fonseca montou uma oficina no Rio de Janeiro, mas ela foi fechada por ordem régia pouco depois. A política de proibição fazia parte do controle metropolitano sobre a circulação de ideias.
A situação mudou com a vinda da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, em razão da invasão de Portugal pelas tropas napoleônicas. Em 13 de maio daquele ano, o príncipe regente D. João assinou o decreto que criava a Impressão Régia, destinada a imprimir toda a legislação e papéis diplomáticos da administração e, em seguida, obras de outros autores. A oficina aproveitou o equipamento que havia sido encomendado na Inglaterra para uma tipografia de Estado.
A Impressão Régia teve papel central no começo da vida impressa do Brasil. Foi ali que, em 10 de setembro de 1808, circulou o primeiro número da Gazeta do Rio de Janeiro, periódico oficial do governo. A casa também publicou livros de literatura, ciência, medicina, direito e economia, além de traduções, formando o embrião do mercado editorial do país.
Em termos de vocabulário, vale distinguir três coisas que a expressão imprensa no Brasil costuma reunir: a técnica de imprimir, a atividade editorial de produzir livros e a imprensa periódica, ou jornalismo. A Impressão Régia atuou nas três frentes ao mesmo tempo, o que explica seu papel como instituição fundadora. A importância dessa origem estatal ainda é lembrada em estudos sobre a formação da esfera pública no país, em que a circulação de textos impressos aparece ao lado da vida urbana e das instituições da corte como fator de mudança cultural no início do século XIX.
Conceitos essenciais
Imprensa oficial
Tipografia mantida pelo Estado, encarregada de imprimir leis, atos administrativos e documentos governamentais.
Censura prévia
Exame de um texto por autoridade antes de sua publicação, que podia autorizar, suprimir ou vetar o conteúdo.
Gazeta do Rio de Janeiro
Primeiro periódico impresso no Brasil, de caráter oficial, publicado a partir de setembro de 1808.
Tipografia
Oficina em que se compõem e imprimem textos com tipos móveis.
Organização e funcionamento
A oficina foi instalada no Rio de Janeiro e ficou subordinada à administração do reino. Os textos a imprimir passavam por uma junta encarregada de examinar o que seria publicado, de modo que a casa funcionava ao mesmo tempo como gráfica e como instrumento de controle. Nenhum original era impresso sem aprovação, e a pauta da produção refletia as prioridades do governo: decretos, alvarás, relatórios e documentos de Estado.
Apesar desse caráter oficial, a Impressão Régia imprimiu também obras de interesse intelectual e didático, o que lhe dá lugar relevante na história do livro brasileiro. Seu catálogo inclui traduções e textos escritos por autores que viviam no Rio de Janeiro, e passou a atrair escritores, tradutores e revisores que antes não tinham onde publicar na colônia.
Para entender o peso da data de 1808, convém lembrar que, nas colônias espanholas da América, as primeiras tipografias haviam surgido séculos antes: a Cidade do México teve prelo já no século XVI, e outras capitais vice-reais o tiveram nos séculos seguintes. A ausência de tipografia regular no Brasil, portanto, não decorria de limitações técnicas, e sim de uma decisão política da metrópole portuguesa, preocupada com o controle do que circulava na colônia e com a manutenção do monopólio comercial. Quando a corte se instalou no Rio de Janeiro, a manutenção dessa proibição tornou-se inviável: a sede do governo precisava imprimir leis, ordens e correspondência oficial na própria cidade.
Imprensa fora do controle da Coroa
Em paralelo, o jornalista brasileiro Hipólito José da Costa publicava em Londres, desde junho de 1808, o Correio Braziliense, jornal mensal impresso fora do alcance da censura portuguesa. A circulação desse periódico no Brasil mostrou que a questão do controle da informação já não se resolvia só por decreto. A coexistência entre uma imprensa oficial no Rio de Janeiro e uma imprensa de opinião no exterior marcou os anos iniciais da imprensa brasileira.
Outras tipografias foram aparecendo. Na Bahia, a oficina de Manuel Antônio da Silva Serva, autorizada em 1811, publicou o jornal Idade d'Ouro do Brasil. Com a abolição da censura prévia, em 1821, e a independência, em 1822, a atividade tipográfica se multiplicou e deu lugar a jornais políticos em várias províncias.
A Impressão Régia também formou profissionais. Compositores, impressores e revisores trabalharam na casa e levaram o ofício para outras oficinas que surgiram depois, no Rio e em outras províncias. A impressão de periódicos, folhetos e livros de autores locais criou, ainda que lentamente, o hábito de ler e discutir textos publicados no país. A trajetória posterior da editoração brasileira, passando pelas casas que se multiplicaram no século XIX e pela renovação promovida por Monteiro Lobato no século XX, deve muito a essa fase inicial, em que o Estado foi o primeiro grande editor.
Da Impressão Régia à Imprensa Nacional
Após a Independência, a instituição passou a se chamar Tipografia Nacional e, mais tarde, Imprensa Nacional, nome pelo qual continua a existir como órgão responsável pela publicação do Diário Oficial da União e de outros atos da administração federal. A continuidade institucional é um dos marcos que os historiadores usam para vincular a imprensa oficial contemporânea ao ato de 1808.
O significado de 1808 é duplo. De um lado, a data põe fim à proibição de tipografias que vigorava na colônia. De outro, mostra a imprensa nascendo no Brasil atrelada ao Estado, com controles que só seriam flexibilizados nos anos seguintes. A história posterior do livro, dos jornais e das editoras privadas, como a que Monteiro Lobato impulsionaria no século XX, parte desse ponto de partida.
Cronologia
- 1747Antônio Isidoro da Fonseca monta uma oficina no Rio de Janeiro, logo fechada por ordem régia.
- 1808Chegada da corte portuguesa ao Rio de Janeiro e criação da Impressão Régia, em 13 de maio.
- 1808Primeiro número da Gazeta do Rio de Janeiro, em 10 de setembro.
- 1811Autorização da tipografia de Silva Serva, na Bahia.
- 1821Fim da censura prévia no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
- 1822Independência do Brasil; a oficina passa a se chamar Tipografia Nacional.
Curiosidades verificáveis
- O decreto de criação da Impressão Régia é de 13 de maio de 1808.
- A Gazeta do Rio de Janeiro começou a circular em 10 de setembro de 1808.
- O Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa, era impresso em Londres e entrava no Brasil sem passar pela censura da Impressão Régia.
- A tipografia de Silva Serva, na Bahia, foi autorizada em 1811 e publicou o primeiro jornal baiano, Idade d'Ouro do Brasil.
Termos relacionados
- Corte portuguesa
- Conjunto de membros da família real e da administração que se transferiu para o Rio de Janeiro em 1808.
- Alvará
- Documento oficial por meio do qual a autoridade concedia autorização ou fixava uma norma.
- Periódico
- Publicação editada em intervalos regulares, como jornal ou revista.
- Real Mesa Censória
- Órgão português criado no século XVIII para examinar e licenciar livros antes da impressão.
- Prelo
- Máquina de imprimir; por extensão, a própria atividade de impressão.
- Imprensa Nacional
- Órgão federal brasileiro herdeiro da Impressão Régia, responsável pela publicação oficial.
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Referências
- Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling. Brasil: uma biografia. Companhia das Letras, 2015.
- Laurence Hallewell. O livro no Brasil: sua história. EDUSP.
- Biblioteca Nacional (Brasil). Acervo de obras raras e periódicos do período joanino.
- Nelson Werneck Sodré. História da imprensa no Brasil.
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