Curiosidades do mundo dos livros
Pseudônimos literários
Escritores sempre adotaram nomes falsos por prudência, estratégia ou jogo. Veja como surgiram pseudônimos célebres e o que os distingue de heterônimos.
Contextualização histórica
Usar um nome que não é o do registro civil é prática tão antiga quanto a própria autoria. Na Antiguidade, muitos textos circulavam sem assinatura ou eram atribuídos a figuras de prestígio, e na Idade Média o anonimato era comum nos manuscritos copiados em scriptoria, onde o copista raramente se identificava como criador da obra. O pseudônimo, no sentido moderno, ganha importância quando a impressão e o mercado editorial tornam o nome do autor um elemento público, sujeito a censura, a preconceito e a valor comercial.
As razões para escolher outro nome são variadas e raramente excludentes. Há o desejo de proteger-se de perseguição política ou religiosa, de preservar a vida privada ou a carreira em outra profissão, de contornar o preconceito contra autoras mulheres, de separar gêneros diferentes produzidos pelo mesmo escritor ou simplesmente de adotar um nome considerado mais sonoro. Em alguns casos o pseudônimo supera o nome de batismo na memória do público, a ponto de o segundo tornar-se nota de rodapé biográfica.
Convém distinguir três figuras próximas. O pseudônimo é um nome fictício que o autor assume para assinar a obra, mantendo uma só personalidade literária. O anonimato é a ausência de nome na publicação. O heterônimo, termo associado ao poeta português Fernando Pessoa, designa um autor imaginário com biografia, estilo e visão de mundo próprios, e não apenas uma assinatura alternativa. Já o ghostwriter escreve em nome de terceiros por acordo, sem que seu nome apareça.
Conceitos essenciais
Pseudônimo
Nome fictício adotado por um autor para assinar suas obras, em lugar do nome civil. Também é chamado de nome de pena ou, em francês, nom de plume.
Anonimato
Publicação sem indicação de autoria. Pode ser permanente ou desfeito quando a identidade do autor se torna conhecida.
Heterônimo
Autor fictício com personalidade, estilo e trajetória próprios, criado por um escritor real. O caso mais conhecido é o de Fernando Pessoa.
Ghostwriter
Profissional que redige textos publicados sob o nome de outra pessoa, mediante acordo prévio.
Nomes de autoras em tempos de preconceito
Um dos motivos mais documentados para o uso de pseudônimos no século XIX foi a resistência a escritoras. Em 1846, as irmãs Charlotte, Emily e Anne Brontë publicaram um volume de poemas sob os nomes Currer, Ellis e Acton Bell, que conservavam as iniciais de cada uma e não revelavam o sexo das autoras. Charlotte explicou mais tarde que as irmãs preferiam evitar o rótulo de autoras, por suspeitarem de que a crítica tratava as mulheres com outros critérios.
Mary Ann Evans adotou o nome George Eliot a partir da década de 1850, e Amantine Aurore Lucile Dupin, na França, tornou-se George Sand. Em ambos os casos, o nome masculino ajudou a obra a ser lida sem o filtro do gênero, embora a identidade verdadeira tenha acabado conhecida, e Sand tenha construído notoriedade pública com o nome escolhido. Jane Austen, por sua vez, publicou Razão e Sensibilidade em 1811 com a indicação “por uma dama”, forma de anonimato muito frequente na época para autoras.
Pseudônimos que viraram nomes de glória
Muitos pseudônimos tornaram-se mais familiares do que os nomes reais. François-Marie Arouet adotou Voltaire, e Jean-Baptiste Poquelin tornou-se Molière, nome de cena que passou a nome de autor. Henri Beyle assinou como Stendhal, Samuel Langhorne Clemens como Mark Twain, expressão associada ao jargão dos barqueiros do rio Mississippi para medir a profundidade da água, e Charles Lutwidge Dodgson como Lewis Carroll, separando o professor de matemática do autor de Alice. Neftalí Ricardo Reyes Basoalto passou a assinar Pablo Neruda, nome que ele próprio adotou ainda jovem e depois oficializou.
Eric Arthur Blair escolheu George Orwell para publicar, em 1933, Na Pior em Paris e Londres, e o nome que ele tomou de um rio inglês e de um santo padroeiro tornou-se sinônimo de uma obra inteira. No Brasil, a poeta Anna Lins Guimarães Peixoto Bretas ficou conhecida como Cora Coralina, e o cronista Paulo Barreto assinava João do Rio. O crítico Alceu Amoroso Lima assinou boa parte de sua obra como Tristão de Athayde, caso ilustrativo de um pseudônimo que corre em paralelo ao nome civil por décadas.
Pseudônimos como estratégia editorial
No mercado contemporâneo, o pseudônimo também é ferramenta de marketing e de organização de carreira. Autores de gêneros diferentes costumam separar suas assinaturas para não confundir leitores. Stephen King publicou um conjunto de romances nas décadas de 1970 e 1980 como Richard Bachman, identidade revelada em 1985. Joanne Rowling publica como J. K. Rowling, com iniciais sugeridas, segundo relatos amplamente divulgados, para não afastar leitores meninos, e em 2013 lançou o romance policial O Chamado do Cuco sob o nome Robert Galbraith, autoria que se tornou pública meses depois.
A autora italiana que assina Elena Ferrante é um caso extremo de anonimato deliberado: a escritora mantém sua identidade civil fora do debate público, e a escolha é discutida como parte da própria recepção da obra. Esses episódios mostram que o pseudônimo, antes defesa contra o preconceito ou a perseguição, pode ser hoje escolha estética e comercial, sem a necessidade de esconder a pessoa por trás do nome.
Em todos os casos, a bibliografia do autor depende de pesquisa para reunir obras assinadas com nomes diferentes. Catálogos de bibliotecas, como os da Biblioteca Nacional e da Library of Congress, adotam o chamado controle de autoridade: um registro unifica as várias formas de nome do mesmo autor, de modo que o leitor encontre todas as obras sob uma única entrada, remetendo as demais por referências cruzadas.
Heterônimos e a autoria como criação
Fernando Pessoa levou a ideia de nome alternativo a outro patamar com seus heterônimos, entre os quais Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Cada um tem biografia imaginada, estilo poético e posição filosófica próprios, e o próprio Pessoa, em cartas, discutiu a diferença entre heterônimos e pseudônimos. Em lugar de assinar diferentes textos com um nome falso, ele construiu poetas distintos que dialogam e discordam entre si.
O fenômeno mostra por que o tema interessa à história do livro: a autoria não é um dado natural, mas uma função social e editorial que se organiza em torno de nomes. Capas, fichas catalográficas, contratos e direitos autorais dependem de uma identidade estável, e o pseudônimo, ao separar nome público de nome civil, obriga editoras e legisladores a lidar com essa distinção.
Pseudônimo × Anonimato × Heterônimo
| Critério | Pseudônimo | Anonimato | Heterônimo |
|---|---|---|---|
| Nome na obra | Nome fictício | Nenhum nome | Nome de autor imaginário |
| Personalidade literária | Do próprio autor | Indefinida | Própria, com biografia e estilo |
| Objetivo comum | Proteção, estratégia ou estilo | Prudência ou convenção | Criação artística |
| Exemplo | George Eliot | Frankenstein, em 1818 | Álvaro de Campos |
| Pode ser revelado | Sim, com frequência | Sim, por pesquisa ou declaração | Já é conhecido como criação |
Cronologia
- 1811Jane Austen publica Razão e Sensibilidade com a indicação de autoria “por uma dama”.
- 1846As irmãs Brontë publicam poemas sob os nomes Currer, Ellis e Acton Bell.
- 1933Eric Blair publica Na Pior em Paris e Londres sob o nome George Orwell.
- 1985Torna-se pública a identidade de Richard Bachman, pseudônimo de Stephen King.
- 2013O Chamado do Cuco é publicado sob o nome Robert Galbraith, depois associado a J. K. Rowling.
Curiosidades verificáveis
- Em 1846, Charlotte, Emily e Anne Brontë publicaram poemas como Currer, Ellis e Acton Bell, mantendo as iniciais de seus próprios nomes.
- Mark Twain, nome de Samuel Clemens, vem de uma expressão do vocabulário dos barqueiros do Mississippi ligada à medição da profundidade do rio.
- Stephen King publicou romances como Richard Bachman, identidade que se tornou pública em 1985.
- J. K. Rowling lançou O Chamado do Cuco em 2013 como Robert Galbraith, e a autoria foi revelada meses depois.
- Fernando Pessoa criou heterônimos com biografias e estilos distintos, entre eles Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.
Termos relacionados
- Nome de pena
- Expressão equivalente a pseudônimo literário, tradução do francês nom de plume.
- Controle de autoridade
- Procedimento de catalogação que reúne sob uma entrada única as diferentes formas do nome de um autor.
- Apócrifo
- Texto de autoria falsamente atribuída ou de origem duvidosa.
- Alógrafo
- Obra escrita por uma pessoa e publicada com assinatura de outra.
- Anônimo
- Diz-se da obra cuja autoria não consta na publicação.
- Ficha catalográfica
- Registro bibliográfico impresso no verso da folha de rosto, com dados de autoria e edição.
Leituras internas
Curiosidades do mundo dos livros
Livros proibidos e censura
Da lista de livros proibidos da Igreja aos processos por obscenidade e à censura no Brasil, a história de obras silenciadas e do debate sobre a leitura.
CuriosidadeVários períodos
Gêneros literários
Romance
Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.
GêneroVários períodos
Editoras e mercado editorial
Estatuto da Rainha Ana e o direito autoral
Em vigor desde 1710, o Estatuto da Rainha Ana foi a primeira lei de copyright do mundo, deslocando o controle das cópias dos livreiros para os autores.
EventoSéculos XV–XVIII
Formatos e processos de publicação
Processo editorial: do original ao livro
O processo editorial reúne as etapas pelas quais um original se torna livro: avaliação, contrato, edição, revisão, projeto gráfico, impressão e distribuição.
ConceitoVários períodos
Gêneros literários
Romance policial
Narrativa organizada em torno de um crime e de sua investigação, que nasceu no século XIX com Poe e se desdobrou em enigma, hard-boiled e thriller.
GêneroSéculo XIX
Referências
- Encyclopaedia Britannica. Verbete “Pseudonym”.
- Library of Congress. Name Authority File (NAF), registros de autoridade de nomes.
- Fernando Pessoa. Carta a Adolfo Casais Monteiro sobre a gênese dos heterônimos, 1935.
- Robert Darnton. O Beijo de Lamourette: mídia, cultura e revolução. Companhia das Letras.
Veja como o conteúdo é produzido e corrigido na política editorial.