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Movimentos e períodos literários

Classicismo e Renascimento

Retorno aos modelos greco-latinos e ao humanismo que, entre os séculos XIV e XVI, renovou a literatura europeia e se espalhou com a imprensa.

  • TipoMovimento
  • PeríodoSéculos XV–XVIII
  • PaísesItália, Portugal, França, Inglaterra, Espanha
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

O Renascimento literário nasceu nas cidades italianas do século XIV, quando estudiosos passaram a procurar, copiar e comentar textos da Antiguidade grega e latina com um interesse novo: não apenas conservá-los, mas aprender com eles a pensar, escrever e viver. Francesco Petrarca (1304–1374) é tradicionalmente apontado como a figura inaugural desse humanismo, por sua busca de manuscritos latinos e por seus sonetos em italiano; Giovanni Boccaccio, seu contemporâneo, uniu a erudição clássica à narrativa em prosa vernácula, e Dante Alighieri é visto como precursor, ainda com raízes medievais.

O movimento ganhou escala no século XV. A queda de Constantinopla, em 1453, levou ao Ocidente estudiosos e códices gregos, e por volta de 1455 os tipos móveis de Gutenberg começaram a baratear a circulação de textos. Editores como Aldo Manúcio, em Veneza, imprimiram clássicos em formatos portáteis, e a leitura erudita deixou de depender exclusivamente de cópias manuscritas. O termo “classicismo” designa, nesse quadro, a adoção consciente de modelos antigos como padrão de equilíbrio, clareza e proporção, ideal que se estendeu até o século XVI e, em certos países, além dele.

Conceitos essenciais

Humanismo

Programa intelectual que valoriza o estudo das letras clássicas e a dignidade do ser humano como centro da reflexão, em contraste com a escolástica medieval.

Imitação dos antigos

Princípio estético segundo o qual a boa obra se forma ao emular, e não ao copiar, a retórica e os gêneros da Antiguidade.

Vernáculo

Língua falada de cada região, como italiano, português ou francês, que passa a ser cultivada literariamente ao lado do latim.

Verossimilhança

Critério herdado da Poética de Aristóteles pelo qual a ficção deve parecer plausível dentro de suas próprias regras.

Origem e difusão do humanismo

O humanismo renascentista foi antes um método do que uma doutrina. Seus praticantes, os humanistas, dedicavam-se aos studia humanitatis: gramática, retórica, poesia, história e filosofia moral. A filologia, isto é, a comparação criteriosa de manuscritos para fixar um texto fiel, tornou-se prática central, e com ela a consciência de que a língua latina medieval se afastara do latim de Cícero e Virgílio.

Desde a Itália, o movimento irradiou-se por correspondência, viagens e livros. Erasmo de Roterdã, figura-chave do humanismo do Norte, publicou o Elogio da Loucura em 1511, e Thomas More lançou Utopia em 1516, ambos escritos em latim e voltados a um público letrado internacional. Na mesma época, Nicolau Maquiavel compôs O Príncipe, redigido em 1513 e impresso apenas em 1532, depois de sua morte.

Características literárias

A estética clássica prefere a harmonia à exuberância, a clareza à obscuridade e a medida à desmesura. Valorizam-se gêneros codificados pela tradição antiga: a epopeia, a ode, a écloga, a elegia, a comédia e a tragédia. O soneto, de origem italiana, consolidou-se como forma preferida da lírica amorosa e reflexiva, difundido a partir de Petrarca, e o verso decassílabo tornou-se o grande metro da poesia culta em várias línguas.

A mitologia greco-romana serve de repertório de imagens, e o amor é tratado frequentemente sob a influência do platonismo, com a mulher idealizada como via de elevação espiritual. Ao mesmo tempo, o período produziu obras que dialogam com o cânone antigo sem submissão, como a prosa satírica de François Rabelais, os Ensaios de Michel de Montaigne, publicados a partir de 1580, e o romance Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, cuja primeira parte saiu em 1605.

Vale notar que o classicismo não foi homogêneo. Em cada país, a imitação dos antigos conviveu com tradições locais, como as formas medievais de verso na Península Ibérica, e a própria noção de equilíbrio foi lida de modos diversos, o que explica que um mesmo período abrigue obras tão distintas quanto a lírica de Petrarca e a sátira de Rabelais.

Epopeia e teatro

A epopeia renascentista procurou rivalizar com Homero e Virgílio, adaptando o modelo às glórias modernas. Ludovico Ariosto publicou o Orlando Furioso em 1516, e Torquato Tasso deu a público Jerusalém libertada em 1581. Em Portugal, Luís de Camões publicou Os Lusíadas em 1572, narrando a viagem de Vasco da Gama à Índia com maquinaria mitológica clássica e versos em oitava rima.

No teatro, a Inglaterra elisabetana de William Shakespeare e Christopher Marlowe, em geral classificada como Renascimento inglês, combinou fontes antigas com liberdade formal que o preceptismo mais estrito recusaria. Já na França do século XVII, o chamado classicismo francês, de Corneille, Racine e Molière, impôs com rigor as unidades de tempo, lugar e ação, inspiradas em leitura da Poética aristotélica.

O classicismo em Portugal e no Brasil

Em Portugal, o Classicismo é associado ao regresso de Francisco de Sá de Miranda da Itália, por volta de 1527, trazendo o soneto e o decassílabo ao uso culto, em contraste com a medida velha das redondilhas. Camões é o nome maior, com a lírica e a epopeia, e António Ferreira teorizou a imitação dos antigos em português. Entre os historiadores, João de Barros e outros cronistas registraram a expansão ultramarina.

No Brasil, a produção do século XVI costuma ser chamada de literatura de informação ou quinhentismo: a carta de Pero Vaz de Caminha, de 1500, os relatos de viajantes e os escritos jesuíticos, como os do padre José de Anchieta, que cultivou poesia, teatro e catequese. Trata-se de textos de natureza colonial, anteriores a uma literatura brasileira autônoma, mas que dialogam com o ambiente cultural do humanismo ibérico.

Livro, leitura e circulação

A relação do Renascimento com o livro foi decisiva. Os humanistas formaram bibliotecas particulares, trocaram cartas sobre achados de manuscritos e passaram a cuidar da apresentação dos textos, com letra mais legível do que a gótica, inspirada nos manuscritos carolíngios e conhecida como letra humanística. Os primeiros impressores italianos adotaram tipos romanos e itálicos que derivaram dessa escrita, e o livro ganhou um desenho mais arejado, com folha de rosto, índices e paginação cada vez mais regulares.

O formato também mudou. Edições pequenas, de bolso para os padrões da época, permitiram ler poetas e historiadores fora do gabinete de estudo, e a circulação internacional de impressos fez com que um autor como Erasmo fosse lido por toda a Europa em vida. Ao mesmo tempo, a imprensa acirrou disputas religiosas e políticas, e governos e igrejas passaram a vigiar a produção, criando listas de obras proibidas, como o Índice de livros proibidos da Igreja católica, cuja primeira versão romana é de 1559.

Classicismo × Barroco × Romantismo

CritérioClassicismo renascentistaBarrocoRomantismo
Ideal estéticoEquilíbrio, proporção e clareza.Contraste, tensão e ornamentação.Expressão individual e emoção.
Modelo principalAntiguidade greco-latina.Tradição clássica reelaborada com excesso retórico.Idade Média, folclore e natureza.
Visão do mundoAntropocentrismo e racionalidade.Conflito entre fé e mundo, efêmero e eterno.Subjetividade, nacionalismo e liberdade.
Forma preferidaSoneto, epopeia, ode e écloga.Soneto, sermão, auto e poesia emblemática.Verso livre de regras rígidas, romance e drama.
Recorte aproximadoSéculos XIV a XVI.Séculos XVII e início do XVIII.Fins do século XVIII a meados do XIX.

Cronologia

  1. 1304Nascimento de Petrarca, figura inaugural do humanismo.
  2. c. 1349–1353Boccaccio compõe o Decameron, marco da prosa narrativa em vernáculo.
  3. 1453Queda de Constantinopla e chegada de eruditos e códices gregos ao Ocidente.
  4. c. 1455Gutenberg imprime a Bíblia com tipos móveis em Mogúncia.
  5. 1516Publicação de Utopia, de Thomas More, e do Orlando Furioso, de Ariosto.
  6. c. 1527Sá de Miranda introduz as formas italianas em Portugal.
  7. 1572Publicação de Os Lusíadas, de Camões.
  8. 1605Primeira parte de Dom Quixote, de Cervantes.

Curiosidades verificáveis

  • A palavra “Renascimento” foi consagrada como conceito historiográfico no século XIX, sobretudo pela obra do historiador suíço Jacob Burckhardt, A cultura do Renascimento na Itália, de 1860.
  • O Príncipe, de Maquiavel, circulou em manuscrito e só foi impresso em 1532, cerca de cinco anos após a morte do autor.
  • Dom Quixote teve segunda parte publicada em 1615, em parte como resposta a uma continuação apócrifa lançada por outro autor em 1614.
  • Os Lusíadas foram impressos em Lisboa em 1572, e existem duas edições com variações no texto atribuídas a esse mesmo ano.

Termos relacionados

Studia humanitatis
Conjunto de disciplinas do currículo humanista: gramática, retórica, poesia, história e filosofia moral.
Écloga
Poema de tema pastoril, em geral dialogado, de tradição virgiliana.
Oitava rima
Estrofe de oito versos decassílabos, forma da epopeia renascentista.
Dolce stil nuovo
Escola poética italiana do século XIII que influenciou a lírica amorosa renascentista.
Filologia
Estudo crítico de textos antigos para estabelecer sua forma mais fiel.
Quinhentismo
Designação convencional da produção escrita no Brasil durante o século XVI.

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Leituras internas

História do livro e da leitura

Gutenberg e os tipos móveis

Em Mainz, por volta de 1450, Johannes Gutenberg desenvolveu a impressão com tipos móveis metálicos. Entenda a técnica, a Bíblia e o alcance dessa mudança.

EventoSéculos XV–XVIII

Editoras e mercado editorial

Aldo Manúcio e a editora Aldina

Humanista e impressor, Aldo Manúcio fundou em Veneza, por volta de 1495, a oficina aldina, ligada ao grego, ao tipo itálico e ao livro de formato pequeno.

PessoaSéculos XV–XVIII

Gêneros literários

Epopeia

Longo poema narrativo em verso que celebra feitos heroicos e a identidade de um povo, da Ilíada e da Odisseia a Os Lusíadas e à épica moderna.

GêneroAntiguidade

Movimentos e períodos literários

Barroco

Estilo do século XVII marcado por contrastes, jogos verbais e tensão entre o espiritual e o mundano, de Góngora e Quevedo a Vieira e Gregório de Matos.

MovimentoSéculos XV–XVIII

Movimentos e períodos literários

Romantismo

Movimento do fim do século XVIII e do XIX que valorizou emoção, individualidade, natureza e identidade nacional, de Goethe e Byron a Alencar e Castro Alves.

MovimentoSéculo XIX

Gêneros literários

Romance

Narrativa longa em prosa que se consolidou na Europa moderna e passou a dominar a ficção literária, com personagens, tempo e espaço desenvolvidos em extensão.

GêneroVários períodos

Referências

  • Jacob Burckhardt. A cultura do Renascimento na Itália. 1860.
  • Elizabeth L. Eisenstein. The Printing Press as an Agent of Change. Cambridge University Press, 1979.
  • Encyclopaedia Britannica. Verbetes “Renaissance” e “Humanism”.
  • Alfredo Bosi. História concisa da literatura brasileira. Cultrix.

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