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Curiosidades do mundo dos livros

Bibliofilia e livros raros

A bibliofilia une paixão pelo livro, colecionismo e conservação. Veja o que torna um livro raro, de incunábulos a leilões e coleções brasileiras.

  • TipoConceito
  • PeríodoVários períodos
  • PaísesGlobal, Brasil, Reino Unido
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

A bibliofilia é o amor aos livros e, em sentido mais preciso, o hábito de colecioná-los por seu valor histórico, material, estético ou de raridade. O bibliófilo se distingue do leitor comum por atentar a aspectos como edição, estado de conservação, encadernação, proveniência e tiragem. Desde a Antiguidade, governantes e eruditos reuniram coleções, e a Biblioteca de Alexandria é a imagem clássica desse impulso, mas o colecionismo individual de livros como objetos de desejo ganhou forma mais clara na Europa baixo-medieval e renascentista.

Um texto frequentemente lembrado nessa história é o Philobiblon, atribuído ao bispo inglês Richard de Bury e datado de c. 1345. Escrito em latim, o tratado é uma defesa do amor aos livros e do cuidado com sua guarda. No século XIX, a bibliomania, termo difundido pelo clérigo inglês Thomas Frognall Dibdin em sua obra de 1809, designava o entusiasmo, por vezes excessivo, por edições raras. Em 1812, a venda da biblioteca do duque de Roxburghe, em Londres, teve preços muito elevados para um exemplar de Boccaccio impresso em 1471, e naquele ano fundou-se o Roxburghe Club, sociedade de bibliófilos ainda existente.

Raridade não é sinônimo de antiguidade nem de valor. Um livro pode ser antigo e comum, ou recente e escasso. O que conta é a combinação de fatores: poucas cópias sobreviventes, importância do texto ou do autor, estado físico, presença de anotações ou dedicatórias, histórico de proprietários e a demanda do mercado. O valor, portanto, é fruto de avaliação por especialistas, não de uma tabela fixa.

Conceitos essenciais

Bibliofilia

Amor pelos livros e prática de colecioná-los segundo critérios de raridade, beleza ou interesse histórico.

Incunábulo

Livro impresso na Europa desde a invenção dos tipos móveis até o fim de 1500.

Proveniência

Histórico de proprietários de um exemplar, comprovado por ex-libris, anotações ou registros de venda.

Edição princeps

Primeira edição impressa de um texto, geralmente muito procurada por colecionadores.

O que torna um livro raro

Os livreiros de antiquariado costumam avaliar vários elementos. O primeiro é a edição: primeiras edições de obras importantes tendem a ser mais procuradas. O segundo é a tiragem e a sobrevivência, já que livros de uso corrente, como almanaques, manuais escolares e livros infantis, foram descartados em larga escala, e poucos exemplares chegaram a nossos dias. O terceiro é o estado do exemplar, incluindo encadernação original, margens, folhas completas e ausência de restauros extensos.

Há ainda o valor associado ao exemplar individual. Uma dedicatória do autor, notas de um leitor célebre, um ex-libris de coleção ilustre ou a presença em um catálogo de leilão histórico podem multiplicar o interesse. A encadernação artística, por sua vez, pode ser o principal atrativo de um volume cujo texto é comum, ligando o tema à história da encadernação e dos processos de manufatura do livro.

Incunábulos e livros que marcaram o mercado

A Bíblia de Gutenberg, impressa em Mainz por volta de 1455, é o exemplo mais evocado de livro raro. Conhece-se pouco menos de cinquenta exemplares, alguns completos e outros parciais, guardados sobretudo em bibliotecas e museus. O termo incunábulo, do latim para ‘berço’, designa os livros impressos até 1500, e as bibliotecas nacionais mantêm catálogos específicos para eles, devido ao valor documental dessas primeiras décadas da imprensa.

O Bay Psalm Book, impresso em Cambridge, em Massachusetts, em 1640, é considerado o primeiro livro impresso nas colônias inglesas da América do Norte. Um exemplar foi vendido em leilão em Nova York, em 2013, por mais de 14 milhões de dólares, um recorde para livro impresso na ocasião. Já o Codex Leicester, manuscrito de Leonardo da Vinci, foi adquirido por Bill Gates em 1994 em leilão, por valor superior a 30 milhões de dólares, o que ilustra que manuscritos também compõem o universo dos grandes objetos de coleção. Os Birds of America, de John James Audubon, publicados entre 1827 e 1838, tiveram um exemplar vendido por mais de 7 milhões de libras em 2010.

Esses números mostram o teto do mercado, mas não o seu cotidiano. A maior parte da bibliofilia ocorre em escala modesta, com colecionadores que reúnem primeiras edições de autores contemporâneos, livros de uma região, de um gênero ou de uma editora, sem precisar de grandes somas.

Para quem começa, bibliotecas e livreiros recomendam definir um foco, aprender a descrever um exemplar com vocabulário técnico, como formato, colação e estado, e comprar de vendedores que ofereçam descrição detalhada e política de devolução. A conservação doméstica também importa: evitar umidade, luz direta e variações bruscas de temperatura, manter os livros em pé e sem aperto nas estantes e não usar fitas adesivas para consertos são cuidados básicos que preservam o valor histórico e material do acervo.

Bibliófilos e coleções no Brasil

No Brasil, a Biblioteca Nacional tem origem na Real Biblioteca portuguesa, transportada ao Rio de Janeiro com a corte, a partir de 1808. A chegada da corte também antecedeu a criação da Impressão Régia, marco da história da imprensa no país. Entre os grandes colecionadores particulares, destaca-se José Mindlin (1914–2010), que reuniu uma biblioteca com dezenas de milhares de volumes dedicada à literatura brasileira e a obras sobre o Brasil. A Brasiliana Guita e José Mindlin foi doada à Universidade de São Paulo, em ato anunciado em 2006, e passou a integrar o acervo da instituição em edifício próprio.

A bibliofilia também enfrenta desafios. Roubos e mutilações de livros antigos, a conservação de papel ácido e a compra e venda sem documentação de origem são preocupações constantes de bibliotecas e livreiros. Organizações como a Association Internationale de la Librairie Ancienne, no cenário internacional, e associações locais de livreiros adotam códigos de conduta e catálogos de livros furtados para dificultar o comércio ilícito.

Cronologia

  1. c. 1345Atribui-se a Richard de Bury a redação do Philobiblon.
  2. c. 1455Impressão da Bíblia de Gutenberg, em Mainz.
  3. 1640Impressão do Bay Psalm Book, em Massachusetts.
  4. 1809Thomas Frognall Dibdin publica Bibliomania.
  5. 1812Fundação do Roxburghe Club, em Londres.
  6. 2006Anunciada a doação da Brasiliana Guita e José Mindlin à USP.

Curiosidades verificáveis

  • O Philobiblon, atribuído a Richard de Bury e datado de c. 1345, é um dos primeiros tratados sobre o amor aos livros.
  • O Roxburghe Club, sociedade de bibliófilos, foi fundado em 1812, após a venda da biblioteca do duque de Roxburghe.
  • Um exemplar do Bay Psalm Book, de 1640, foi vendido em 2013 por mais de 14 milhões de dólares.
  • Bill Gates comprou o Codex Leicester, de Leonardo da Vinci, em 1994.
  • José Mindlin doou a Brasiliana Guita e José Mindlin à Universidade de São Paulo, em ato anunciado em 2006.

Termos relacionados

Ex-libris
Etiqueta ou marca colocada em um livro para indicar seu proprietário.
Antiquário
Livreiro especializado em obras antigas, raras e de segunda mão.
Colofão
Nota final que registra dados da produção do livro, como impressor, local e data.
Exemplar completo
Volume que contém todas as folhas previstas na edição original.
Restauro
Intervenção para estabilizar ou reparar um livro danificado.
Bibliomania
Termo do século XIX para o entusiasmo, por vezes excessivo, pelo colecionismo de livros.

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Referências

  • John Carter. ABC for Book Collectors. Oak Knoll Press.
  • Richard de Bury. Philobiblon, c. 1345.
  • British Library. Incunabula Short Title Catalogue (ISTC).
  • Encyclopaedia Britannica. Verbetes “Bibliophile” e “Incunabulum”.
  • Biblioteca Nacional do Brasil. Informações institucionais sobre a história do acervo.

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