Curiosidades do mundo dos livros
Erros de impressão e edições famosas
Gralhas célebres, como a Bíblia Perversa de 1631, e edições marcantes mostram como erros de composição entraram para a história do livro impresso.
Contextualização histórica
Antes da composição eletrônica, cada página impressa nascia de letras de chumbo dispostas à mão, linha a linha, em um trabalho sujeito a lapsos. Trocar, omitir ou inverter caracteres, pular uma linha ou repetir uma palavra eram falhas previsíveis num processo artesanal e rápido. Por isso, as oficinas dispunham de revisores e de listas de correções, as erratas, impressas no fim do livro ou em folhas avulsas. Em português, o erro tipográfico é conhecido como gralha, e o livro corrigido na tipografia dá origem a variantes que os especialistas chamam de estados de uma edição.
A história de tais erros interessa por duas razões. De um lado, mostra como o trabalho de composição e de revisão evoluiu, do século XV à linotipia e ao offset, passando pelos cuidados de oficinas como a de Aldo Manúcio. De outro, mostra que erros podem ter consequências concretas, sobretudo em textos sagrados e jurídicos, onde a letra tem peso especial. Alguns erros se tornaram tão famosos que deram nome à edição em que apareceram e valorizaram exemplares sobreviventes no mercado de livros raros.
A bibliografia material, disciplina que estuda o livro como objeto físico, usa essas variações para reconstituir o processo de impressão. Comparar exemplares de uma mesma tiragem revela correções feitas durante a impressão, pois era comum que o tipógrafo detectasse um erro com a máquina já em funcionamento e corrigisse a forma sem descartar as folhas anteriores. O resultado são exemplares da mesma edição com pequenas diferenças.
Conceitos essenciais
Errata
Lista de erros encontrados em um livro e das respectivas correções, impressa no próprio volume ou em folha separada.
Gralha
Erro tipográfico, como letra trocada, omitida ou repetida.
Estado de edição
Variante de uma mesma edição, resultante de correções feitas durante a impressão.
Edição princeps
Primeira edição impressa de uma obra, de grande interesse para estudiosos e colecionadores.
A Bíblia Perversa e outras Bíblias com erros
O erro mais citado da história da impressão em língua inglesa é o da chamada Wicked Bible, também conhecida como Bíblia Perversa ou Bíblia do Adúltero. Publicada em Londres em 1631 pelos impressores reais Robert Barker e Martin Lucas, ela omitiu a palavra “not” no sétimo mandamento, de modo que a frase em inglês passou a dizer “cometerás adultério”. Segundo a tradição amplamente registrada, as autoridades ordenaram o recolhimento dos exemplares, e os impressores foram multados e perderam a licença. Poucos exemplares sobrevivem e são muito valorizados por colecionadores.
Outras Bíblias ganharam apelidos por defeitos semelhantes. A chamada Bíblia dos Calções, ou Breeches Bible, é a edição de Genebra de 1560, assim chamada porque, em Gênesis 3:7, Adão e Eva fazem para si calções, tradução própria daquela versão e não um erro de impressão. A Bíblia do Vinagre, impressa em Oxford em 1717, trouxe no cabeçalho de uma página a ‘parábola do vinagre’ em lugar da parábola da vinha. A chamada Bíblia do Impressor, de começo do século XVIII, traz no Salmo 119 a frase ‘impressores me perseguiram’, onde se esperava ‘príncipes’. Esses episódios são lembrados como curiosidades, mas mostram o cuidado exigido do texto bíblico.
Edições que mudaram a história do livro
Algumas edições são célebres por seu papel e não por seus defeitos. A Bíblia de Gutenberg, impressa em Mainz por volta de 1455, é o primeiro grande livro europeu impresso com tipos móveis, e hoje se conhece pouco menos de meia centena de exemplares, em graus variados de integridade. O Primeiro Fólio de Shakespeare, de 1623, reuniu 36 peças pouco depois da morte do dramaturgo, em 1616, por iniciativa dos atores John Heminges e Henry Condell, e preservou cerca de metade das peças que, segundo os estudiosos, talvez não tivessem chegado até nós de outro modo.
Em 1922, a edição original de Ulisses, de James Joyce, foi publicada em Paris pela livraria Shakespeare and Company, de Sylvia Beach, depois de recusas e problemas legais em países de língua inglesa. A composição foi feita por tipógrafos que não dominavam o inglês, e a obra, de enorme complexidade, circulou com numerosas falhas. A discussão sobre qual deveria ser o texto correto levou, em 1984, à edição crítica organizada por Hans Walter Gabler, que provocou controvérsia entre especialistas sobre os critérios de reconstituição.
O inglês Joseph Moxon, em seu manual Mechanick Exercises, de 1683, descreveu o ofício do tipógrafo e do corretor de provas, deixando um retrato precioso das práticas de oficina. A partir do século XIX, com a mecanização da composição, os erros mudaram de natureza, e hoje o mais comum é o descuido na revisão de arquivos digitais, em vez da troca de tipos.
Como os erros são tratados pela crítica textual
A crítica textual e a bibliografia estudam como um texto se transmite e se altera em cada impressão. Pesquisadores comparam exemplares, identificam variantes e decidem se uma lição é erro ou escolha autoral. Esse trabalho é indispensável para edições críticas, usadas em estudos acadêmicos, e para a datação e a identificação de impressores quando a folha de rosto não traz informações completas.
Para o leitor comum, a lição é de humildade: o texto impresso, mesmo o de livros clássicos, resulta de uma cadeia de etapas humanas, da cópia do original à revisão final. O processo editorial moderno, com revisão em várias fases, procura reduzir falhas, mas não as elimina, e as editoras ainda recorrem a erratas e a correções em reimpressões.
Na prática, o leitor atento encontra com alguma frequência pequenas falhas em livros de qualquer época, e muitas delas são sanadas silenciosamente quando uma obra é reimpressa. Em livros técnicos, jurídicos e de receitas, o erro pode ter consequências práticas, o que justifica a atenção redobrada na revisão de números, citações e referências. Em contrapartida, certas gralhas se perpetuam por décadas, repetidas de edição em edição porque cada nova composição parte da anterior, fenômeno que os estudiosos de transmissão de textos conhecem bem.
Cronologia
- c. 1455A Bíblia de Gutenberg é impressa em Mainz.
- 1560Publicada a Bíblia de Genebra, depois apelidada de Bíblia dos Calções.
- 1623Publicação do Primeiro Fólio de Shakespeare.
- 1631Publicada em Londres a Bíblia Perversa, com omissão do ‘not’ no sétimo mandamento.
- 1683Joseph Moxon publica Mechanick Exercises.
- 1717Impressão da Bíblia do Vinagre, em Oxford.
- 1922Primeira edição de Ulisses, em Paris.
Curiosidades verificáveis
- A Bíblia Perversa de 1631 omitiu o ‘not’ do sétimo mandamento, e os impressores foram multados e perderam a licença.
- A Bíblia de Genebra de 1560 é chamada de Bíblia dos Calções por causa de Gênesis 3:7.
- Uma Bíblia impressa em Oxford em 1717 ficou conhecida como Bíblia do Vinagre por causa de um erro de cabeçalho.
- O Primeiro Fólio de Shakespeare, de 1623, reúne 36 peças e foi organizado pelos atores Heminges e Condell.
- Em 1683, Joseph Moxon descreveu em Mechanick Exercises o trabalho do tipógrafo e do corretor de provas.
Termos relacionados
- Prova tipográfica
- Folha impressa para conferência antes da tiragem final.
- Corretor de provas
- Profissional que revisa as provas e assinala erros a serem corrigidos.
- Forma
- Conjunto de tipos travados em um quadro, pronto para imprimir uma face da folha.
- Variante textual
- Diferença de redação entre exemplares ou testemunhos de um mesmo texto.
- Edição crítica
- Edição preparada com comparação de testemunhos e justificativa das escolhas textuais.
- Folha de rosto
- Página inicial com título, autoria e dados de publicação.
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Referências
- Joseph Moxon. Mechanick Exercises on the Whole Art of Printing, 1683.
- Philip Gaskell. A New Introduction to Bibliography. Oxford University Press, 1972.
- British Library. Materiais sobre a Bíblia de Gutenberg e sobre o Primeiro Fólio de Shakespeare.
- Encyclopaedia Britannica. Verbetes “Bible” e “First Folio”.
- Elizabeth Eisenstein. A Revolução da Cultura Impressa. Ática.
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