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Curiosidades do mundo dos livros

Livrarias históricas

Algumas livrarias tornaram-se patrimônio cultural: da Bertrand, em Lisboa, à Shakespeare and Company, em Paris, e às livrarias do Rio de Janeiro.

  • TipoCuriosidade
  • PeríodoVários períodos
  • PaísesFrança, Portugal, Argentina, Brasil
  • Leitura5 min

Contextualização histórica

Durante séculos, a livraria foi o ponto em que o livro encontrava o leitor. Nos primeiros tempos da imprensa, impressor, editor e vendedor muitas vezes eram a mesma pessoa, e a loja era também oficina e espaço de encontro de eruditos. Com a especialização das funções, a livraria passou a ser um negócio próprio, ligado à cidade, às universidades e à vida intelectual. Algumas se tornaram lugares de memória por sua longevidade, por sua arquitetura ou por seu papel na história da literatura.

Quando se fala em livrarias históricas, três critérios costumam aparecer: a antiguidade do negócio, o valor do edifício e a importância cultural, como a publicação de obras decisivas ou a frequentação por escritores. Nem sempre os três coincidem. Há lojas muito antigas de aspecto discreto e edifícios deslumbrantes de fundação recente, e a própria ideia de livraria histórica convive com a transformação do comércio de livros pelas grandes redes e pelas vendas pela internet.

Este verbete reúne exemplos documentados, sem pretender oferecer um ranking. A lista deixa de fora muitas casas importantes, e a seleção prioriza livrarias cujas datas e papéis são amplamente registrados em fontes de referência.

Conceitos essenciais

Livraria histórica

Estabelecimento reconhecido por sua antiguidade, por seu edifício ou por seu papel na vida literária.

Livreiro-editor

Profissional que combina a venda de livros com a edição de títulos, comum desde os primórdios da imprensa.

Sebo

Livraria de livros usados, nome corrente no Brasil.

Livraria independente

Loja que não pertence a uma grande rede e tem curadoria própria de títulos.

Lisboa e Porto: a mais antiga e a mais fotografada

A Livraria Bertrand, em Lisboa, tem origem em 1732, quando foi aberta pelo livreiro Pedro Faure. Hoje a loja do Chiado integra a rede que leva o sobrenome da família que a assumiu mais tarde. O Guinness World Records reconheceu a Bertrand, em 2011, como a livraria em funcionamento mais antiga do mundo, um título que depende de critérios de continuidade e que tem sido objeto de debate, mas que a casa divulga com destaque.

No Porto, a Livraria Lello foi fundada em 1881 pelos irmãos Lello, e seu edifício atual, de 1906, destaca-se pela fachada neogótica e por uma escadaria interna de grande efeito visual. A loja tornou-se atração turística de grande procura, com controle de entrada, e o aumento do público levanta debates sobre a convivência entre turismo e comércio local de livros.

Paris: Shakespeare and Company e a edição de Ulisses

A Shakespeare and Company foi aberta em Paris em 1919 pela americana Sylvia Beach, inicialmente na rue Dupuytren, e mudou-se em 1921 para a rue de l’Odéon. A livraria emprestava e vendia livros em inglês e foi ponto de encontro de escritores anglófonos que viviam na capital francesa nos anos 1920. Em 1922, Beach editou o Ulisses, de James Joyce, depois de a obra enfrentar dificuldades de publicação em países de língua inglesa, feito que associa a livraria ao tema da censura.

A casa original fechou durante a ocupação alemã, em 1941. A atual Shakespeare and Company, na margem esquerda do Sena, perto de Notre-Dame, foi aberta em 1951 pelo americano George Whitman com o nome Le Mistral e rebatizada em 1964, em homenagem à antecessora. Embora a livraria atual não seja a mesma instituição de Beach, ela se apresenta como herdeira de sua tradição de acolher escritores e leitores.

Em San Francisco, outra casa marcou a história da edição: a City Lights, fundada em 1953 por Lawrence Ferlinghetti e Peter D. Martin, passou a publicar livros e editou, em 1956, Uivo, de Allen Ginsberg, o que levou ao julgamento por obscenidade ocorrido em 1957.

Buenos Aires, Maastricht e a reconversão de edifícios

Alguns dos espaços de livraria mais admirados nasceram da adaptação de edifícios que serviam a outras funções. Em Buenos Aires, a livraria El Ateneo Grand Splendid ocupa um antigo teatro inaugurado em 1919, e funciona como livraria desde 2000, mantendo o palco, os camarotes e o teto pintado. Em Maastricht, na Holanda, uma igreja dominicana do século XIII foi convertida em livraria em 2006, com estantes de vários andares instaladas na nave, solução citada com frequência em publicações de arquitetura.

Esses casos mostram uma tendência de reaproveitar edifícios históricos como estratégia para manter lojas físicas atraentes diante da concorrência do comércio eletrônico, em um cenário em que o livro digital e as vendas on-line passaram a disputar o leitor.

Livrarias do Brasil

No Brasil, a história das livrarias está ligada à chegada da corte, em 1808, e à abertura dos portos. No Rio de Janeiro do século XIX, a Livraria Laemmert, de Eduard Laemmert, funcionava desde 1838, e a Livraria Garnier, do francês Baptiste-Louis Garnier, abriu no Rio em 1844 e tornou-se casa editora de autores importantes, entre eles Machado de Assis. Essas casas combinavam venda e edição, reunindo intelectuais em torno de seus balcões.

No século XX, a Livraria José Olympio, aberta em São Paulo em 1931 e depois instalada no Rio, foi central na edição da literatura brasileira moderna, ao lado do trabalho de Monteiro Lobato e de outras casas editoras. A história dessas lojas é a história de um mercado que cresceu em torno de poucos centros urbanos e de uma rede de distribuição precária, tema recorrente nos estudos sobre o livro no país.

Hoje, muitas livrarias brasileiras de bairro e sebos mantêm a função de ponto de encontro, com lançamentos, clubes de leitura e conversas com autores. Esse papel social, somado à curadoria própria, é um dos motivos pelos quais as lojas independentes continuam a ser valorizadas mesmo diante da concorrência das grandes redes e do comércio eletrônico, e também por que várias delas são lembradas como parte do patrimônio cultural de suas cidades.

Cronologia

  1. 1732Origem da Livraria Bertrand, em Lisboa.
  2. 1881Fundação da Livraria Lello, no Porto.
  3. 1906Inauguração do edifício atual da Livraria Lello.
  4. 1919Sylvia Beach abre a Shakespeare and Company, em Paris.
  5. 1951George Whitman abre em Paris a livraria Le Mistral, rebatizada Shakespeare and Company em 1964.
  6. 1953Fundação da City Lights, em San Francisco.

Curiosidades verificáveis

  • A Livraria Bertrand, de Lisboa, tem origem em 1732 e recebeu em 2011 do Guinness World Records o reconhecimento de livraria mais antiga em funcionamento.
  • A Shakespeare and Company de Sylvia Beach publicou o Ulisses, de James Joyce, em 1922.
  • A atual Shakespeare and Company foi aberta por George Whitman em 1951 como Le Mistral e rebatizada em 1964.
  • A City Lights, de San Francisco, editou Uivo, de Ginsberg, e seu fundador foi processado por obscenidade e absolvido em 1957.
  • A El Ateneo Grand Splendid, em Buenos Aires, funciona em um antigo teatro inaugurado em 1919.

Termos relacionados

Chiado
Bairro de Lisboa tradicionalmente ligado a livrarias, teatros e vida cultural.
Margem esquerda
Área de Paris ao sul do Sena, associada a editoras, livrarias e universidades.
Curadoria
Seleção criteriosa de títulos feita por livreiros para compor o acervo da loja.
Casa editora
Empresa que edita e publica livros, frequentemente ligada a uma livraria na história do Brasil.
Antiquário
Livreiro de obras antigas e raras.

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Referências

  • Laurence Hallewell. O Livro no Brasil: sua história. Edusp.
  • Sylvia Beach. Shakespeare and Company. Harcourt, Brace, 1959.
  • Guinness World Records. Registro da livraria em funcionamento mais antiga do mundo, 2011.
  • Encyclopaedia Britannica. Verbete “Bookselling”.

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