Formatos e processos de publicação
Impressão offset
A impressão offset transfere a imagem de uma chapa para um cilindro de borracha e daí ao papel, método que se tornou dominante na produção gráfica do século XX.
Contextualização histórica
A impressão offset é um processo planográfico indireto: a imagem não é impressa diretamente da chapa sobre o papel, mas passa antes por um cilindro revestido de borracha, a blanqueta. O princípio físico que a sustenta é o da litografia, técnica desenvolvida por Alois Senefelder na Alemanha, por volta de 1796–1798, baseada na repulsão entre gordura e água.
No século XX, o offset superou a tipografia como método principal para livros, revistas, jornais e embalagens. Isso se explica por razões práticas: a chapa é fina, leve e fácil de produzir fotograficamente; a blanqueta flexível se adapta a diferentes papéis; e o sistema reproduz fotografias e ilustrações com qualidade superior à da impressão por relevo de metal.
Para o mercado editorial, o offset foi decisivo para viabilizar tiragens médias e grandes a custo reduzido, e para integrar texto e imagem em uma mesma página sem as limitações da composição em chumbo. Hoje, convive com a impressão digital, que ocupa nichos de pequenas tiragens, mas continua sendo o padrão para grandes volumes.
Conceitos essenciais
Planografia
Família de processos de impressão em que a chapa é plana e as áreas de imagem e de não imagem estão no mesmo nível.
Blanqueta
Cilindro ou manta de borracha que recebe a tinta da chapa e a transfere ao papel.
Chapa
Placa, em geral de alumínio, tratada para aceitar tinta nas áreas de imagem e água nas demais.
Quadricromia
Reprodução de cores por sobreposição das tintas ciano, magenta, amarela e preta.
Computer-to-plate
Sistema em que o arquivo digital grava a chapa diretamente, sem filme intermediário.
Princípio de funcionamento
O offset se apoia na incompatibilidade entre tinta gordurosa e água. Na chapa, as áreas de imagem recebem tratamento que atrai a tinta, enquanto as demais áreas retêm uma película de solução aquosa que a repele. Cilindros umedecedores aplicam a solução e cilindros entintadores depositam a tinta; esta adere somente à imagem. Em seguida a chapa transfere a imagem à blanqueta, e esta a imprime no papel pressionado por um terceiro cilindro, o de impressão.
Como a chapa não toca o papel, ela sofre menos desgaste do que uma forma tipográfica, e a borracha, ao ser mais macia, acomoda superfícies de papel menos lisas. A imagem na chapa é lida em sentido normal, e é a inversão duplicada, chapa para blanqueta e blanqueta para papel, que a restitui corretamente na folha. Daí a designação em inglês, que remete à ideia de deslocar a imagem de um suporte para outro.
Origem e difusão
O princípio de transferência indireta foi patenteado na Inglaterra por Robert Barclay em 1875, para imprimir sobre folha de metal. A adoção para o papel é frequentemente associada ao norte-americano Ira Rubel, que por volta de 1904 teria percebido que a imagem impressa sobre um cilindro de borracha, por acaso, resultava mais nítida do que a impressão direta. Essas atribuições, sobretudo a da descoberta acidental, pertencem em parte à tradição da indústria gráfica, mas é bem documentado que o offset se difundiu comercialmente nas primeiras décadas do século XX.
A expansão foi gradual. Até meados do século, a tipografia ainda era comum em livros de texto. Com a fotocomposição e as chapas fotográficas, a partir das décadas de 1950 e 1960, o offset consolidou-se como o método dominante para livros e periódicos em muitos países.
Máquinas, papel e cores
As rotativas de bobina, que imprimem em papel contínuo e depois cortam e dobram a folha, atendem a jornais, revistas e livros de grande tiragem. As máquinas planas, alimentadas por folhas, são típicas de tiragens menores e de trabalhos de alta qualidade, como livros ilustrados. Em ambas, a cor é obtida pelo sistema de quadricromia, em que cada cor é impressa por um corpo diferente da máquina, e tintas especiais, como as metalizadas, podem complementar o conjunto.
A impressão em offset permite imprimir livros em formato de cadernos de 8, 16 ou 32 páginas, que depois são dobrados e encaminhados à encadernação, dando continuidade à lógica antiga de folhas dobradas descrita no verbete sobre formatos.
Do filme à chapa digital
Durante décadas, a chapa era gravada por exposição à luz através de um filme fotográfico produzido a partir da composição. A partir dos anos 1990, difundiu-se o sistema computer-to-plate, no qual um laser grava a imagem diretamente na chapa a partir do arquivo digital. Isso eliminou etapas intermediárias, reduziu custos e erros, e aproximou o trabalho do editor do trabalho da gráfica.
A concorrência da impressão digital, que dispensa chapas, tornou viável a impressão sob demanda e tiragens muito pequenas. Ainda assim, quando o volume cresce, o custo unitário do offset tende a ser menor, razão pela qual continua sendo o processo preferido por grandes editoras.
Impacto na produção de livros
Para as editoras, a mudança para o offset significou uma reorganização de custos. Na tipografia, o custo de compor e de preparar a forma era elevado e pouco dependia da tiragem; no offset, o custo de preparação da chapa também é considerável, mas o custo por exemplar cai rapidamente à medida que a tiragem cresce. Isso favoreceu títulos de grande circulação, livros didáticos, enciclopédias e coleções ilustradas, em que fotografias e mapas coloridos tornaram-se acessíveis a um público amplo.
Também mudou a relação entre o texto e a imagem. Com a fotocomposição e o offset, o livro passou a ser tratado como uma página de fotografia, em que diagramadores podiam combinar letras, ilustrações e filetes sem as restrições da forma de chumbo. Estilos gráficos do século XX, de manuais técnicos a livros de arte, só foram possíveis com essa flexibilidade.
Por fim, o offset condicionou o planejamento da produção. Gráficas trabalham com folhas de grandes dimensões, que rendem cadernos de múltiplos de oito páginas, e o editor precisa ajustar o número de páginas do livro a essa conta para evitar desperdício de papel. O papel, a gramatura e o acabamento escolhidos influenciam o aspecto final, e a gráfica fornece provas para aprovação. Questões ambientais, como o uso de solventes e a reciclagem de chapas, também passaram a integrar a gestão dessas empresas.
Tipografia × offset × impressão digital
| Critério | Tipografia | Offset | Digital |
|---|---|---|---|
| Tipo de processo | Relevo, direto | Planográfico, indireto | Sem chapa, a partir de arquivo |
| Matriz | Forma de tipos de metal | Chapa, em geral de alumínio | Arquivo digital |
| Tiragem típica | Pequena a média | Média a muito grande | Muito pequena a média |
| Imagens | Limitadas, com clichês | Boa reprodução de fotografias | Boa, conforme o equipamento |
| Custo inicial | Alto na composição | Alto na preparação, baixo por exemplar | Baixo na preparação |
Cronologia
- c. 1796–1798Alois Senefelder desenvolve a litografia.
- 1875Robert Barclay patenteia na Inglaterra o princípio da transferência offset para impressão sobre metal.
- c. 1904Ira Rubel é associado à adoção do offset para a impressão sobre papel nos Estados Unidos.
- Décadas de 1950–1960O offset passa a dominar a produção de livros e periódicos.
- Década de 1990O sistema computer-to-plate se difunde nas gráficas.
Curiosidades verificáveis
- A litografia, base do offset, foi inventada por Alois Senefelder por volta de 1796–1798, antes mesmo de existir o papel industrial moderno.
- A palavra offset remete à ideia de transferir a imagem de um cilindro a outro, e não à impressão direta da chapa sobre o papel.
- O sistema de quadricromia usa as siglas CMYK, em que K designa o preto.
- A chapa de impressão offset costuma ser de alumínio, material leve e de superfície fácil de tratar.
Termos relacionados
- Rotativa
- Máquina de impressão em que a chapa e o papel se movem continuamente em cilindros, geralmente alimentada por bobina.
- Caderno
- Folha impressa e dobrada que forma uma parte do livro.
- Fotolito
- Filme fotográfico usado para gravar a chapa.
- Prova de cor
- Amostra impressa para conferir as cores antes da tiragem final.
- CMYK
- Sigla das tintas ciano, magenta, amarelo e preto usadas na quadricromia.
- Tiragem
- Número de exemplares impressos de uma edição.
Leituras internas
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Composição tipográfica: do chumbo à linotipia
Da composição manual com tipos móveis de chumbo à Linotype e à Monotype, a composição tipográfica mecanizou-se entre o fim do século XIX e o século XX.
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ObjetoSéculo XX
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Processo editorial: do original ao livro
O processo editorial reúne as etapas pelas quais um original se torna livro: avaliação, contrato, edição, revisão, projeto gráfico, impressão e distribuição.
ConceitoVários períodos
Editoras e mercado editorial
Penguin Books e o livro de bolso
Fundada por Allen Lane em Londres em 1935, a Penguin popularizou no mundo anglófono a brochura barata de qualidade e marcou o mercado do livro de bolso.
InstituiçãoSéculo XX
Referências
- Michael Twyman. Printing 1770–1970: An Illustrated History of Its Development and Uses in England. Eyre & Spottiswoode, 1970.
- Michael Twyman. The Breaking of the Image: A History of Lithography.
- Encyclopaedia Britannica. Verbetes offset printing e lithography.
- Philip Gaskell. A New Introduction to Bibliography. Oxford University Press, 1972.
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